DP Empresas A energia que vem do lixo descartado e gera riqueza Multinacional italiana vai investir R$ 30 milhões na instalação de uma planta em Pernambuco para produzir biogás a partir dos resíduos sólidos de aterro

Por: Kauê Diniz

Publicado em: 01/09/2018 10:00 Atualizado em: 31/08/2018 16:33

Motogeradores da usina de biogás da Asja em Minas Gerais. Foto: Asja/Divulgação
Motogeradores da usina de biogás da Asja em Minas Gerais. Foto: Asja/Divulgação

O lixo descartado pela população e armazenado em aterros sanitários, algo que se tornou obrigação desde agosto 2014, mas é descumprido por uma parte significativa dos municípios brasileiros, transformou-se na mola propulsora de uma nova atividade econômica. A oportunidade vem através do biogás, uma energia renovável, gerada a partir da decomposição natural desses resíduos sólidos, e a oferta no mercado de dois produtos extraídos de sua "industrialização": energia elétrica e combustível, originado do gás biometano, para abastecer veículos equipados com GNV. Esse mercado, em fase de maturação, mas com números de expansão que alimentam a certeza do sucesso daqueles que apostam no futuro desse produto, vem atraindo investimentos inéditos para Pernambuco.

Com investimento de R$ 30 milhões, a multinacional italiana Asja, um referência mundial nesse segmento de biogás e atuando também, em outros países, em geração de energia eólica e solar, vai inaugurar sua primeira planta no Nordeste em Jaboatão dos Guararapes, no primeiro trimestre de 2019. Será também o primeiro aterro do estado a ter uma usina de geração de energia elétrica através da queima do biogás. Pernambuco ocupa a nona posição no ranking nacional em capacidade de produzir biogás, com 1,86%, do mercado liderado por São Paulo (31,2%).

Os italianos assinaram um contrato de exploração dos resíduos do Aterro Sanitário da Muribeca e sua usina terá potência de 11,4 megawatts. Através dos tubos de polietileno, o composto é captado no aterro e levado até a fábrica da Asja. "Na nossa planta, os geradores (que chegam ao estado em outubro) queimam o biogás, gerando energia que vai para uma subestação distribuidora próxima da Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco)", explica o processo Carlos Renan dos Santos, gerente da planta pernambucana da Asja, que ainda tem outras três no país em Minas Gerais.

A capacidade de geração de energia da futura instalação em Jaboatão é de 95 mil megawatts hora de energia limpa por ano, suficientes para atender, por exemplo, durante um mês, 52 mil pessoas. A operação também vai evitar a emissão de 300 mil toneladas de CO2 - equivale à emissão de 168 mil automóveis em um ano. A operação é enxuta, devido ao processo de automação, e só vai demandar sete funcionários em Pernambuco.

"Na Europa, o aproveitamento de energia através do biogás já ocorre, nos principais países do continente, há mais de 40 anos. No Brasil, é um cenário relativamente novo, mas tem crescido demais devido à tendência de declínio das energias derivadas de combustíveis fósseis", conta Renan. "Gerar energia do biogás não é barato e competitivo como outras consideradas limpas. Porém, as outras energias, como de termoelétricas, são mais caras e sujas", argumenta.

O que vem ajudando a catapultar esse negócio no Brasil é legislação que obriga os municípios a terem aterros sanitários e, consequentemente, gerar naturalmente o gás metano. "O biogás vem completar a política de resíduos sólidos do Brasil. Os municípios grandes já estão cientes dos benefícios que podem ter. Natal, por exemplo, quer ser a primeira capital brasileira 100% saneada. Mas com prefeituras menores, temos que fazer um trabalho de formiguinha", conta Camila Agner, gerente executiva da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), destacando que o biometano como energia foi regulamentado somente há um ano.

É justamente por ser um negócio incipiente que o biogás, no Brasil, representa apenas 1% da biomassa de energia do país. Porém, Camila revela que vem crescendo 30% por ano na matriz energética. "O cenário mudou bastante. O biogás aparece, segundo estudos da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), como a fonte do futuro. Em dez anos, terá o mesmo volume de produção da fotovoltaíca. A vantagem do biogás é que tanto pode gerar energia elétrica como formar o combustível biometano. Na França, por exemplo, eles têm uma meta de até 2050 ter como 100% dos seu abastecimento com gás biometano", diz Camila.

Segundo dados da instituição, o biogás tem potencial para suprir 24% da demanda nacional de energia elétrica e 44% da demanda de diesel, hoje em torno de 60 bilhões de litros por ano.

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