Investigação Mais uma jovem afirma ter sido mantida em cárcere por seita do DF

Por: Cézar Feitosa

Por: Marina Machado

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 10/01/2019 15:13 Atualizado em:

Foto: Reprodução/ Igreja Adventista Remanescentes de Laodicéia
Foto: Reprodução/ Igreja Adventista Remanescentes de Laodicéia
Mais um caso de cárcere privado ligado à Igreja Adventista Remanescente de Laodicéia é investigado pela Polícia Civil. O lugar ficou conhecido nesta semana, depois que o delegado Vander Braga, da 20ª Delegacia de Polícia (Gama), divulgou informações sobre o resgate de uma jovem de 18 anos em 28 de dezembro. Ela teria passado quatro meses presa na chácara-sede da seita, no Gama. A garota, no entanto, não teria sido a única a viver o drama. Dias antes, uma moça de 19 anos também foi salva — desta vez, pelo pai, o aposentado Ronaldo Soares, 50. Agora, ele busca meios legais para reparar os danos causados à filha.

A jovem morava na chácara com avós, tios, primos e com a mãe, que havia deixado o local em julho do ano passado. No início de dezembro, o mineiro recebeu uma mensagem da filha pedindo socorro. Ela passou três semanas trancada na residência da fundadora da igreja, Ana Vindoura Dias da Luz, que também mora na chácara. A garota foi impedida de deixar a seita quando disse que iria mudar-se para a casa do pai, em Várzea da Palma (MG), a cerca de 600km do DF.

Ronaldo conta que, assim que recebeu a mensagem, fez uma denúncia junto à Polícia Civil de Minas Gerais e à Procuradoria-Geral do Estado. Após a pressão sobre os integrantes da igreja, eles entregaram a garota ao pai no dia seguinte.

Por telefone, o Correio Braziliense conversou com a vítima, que preferiu não se identificar. Segundo ela, a casa ficava com as portas sempre trancadas. Lá, chegou a conviver com a jovem de 18 anos resgatada pelos agentes da 20ª DP. Em poucas palavras, a vítima relatou que as duas tornaram-se amigas e que ouviu histórias de que a companheira estaria "endemoniada", mas admitiu não entender muito do assunto.

Em alguns momentos, ela também foi alvo das acusações. “De certa forma, acredito (que esteja endemoniada), pois algumas atitudes minhas e pensamentos são diferentes”, comentou a moça. Ela, no entanto, não conseguiu explicar quais seriam os comportamentos que fizeram a líder religiosa declarar a possessão. Mesmo sem pretender retornar à chácara, a jovem diz que não sente raiva, mas saudades da comunidade. “Agora, quero trabalhar”, resumiu. 

Contato restrito
Há cinco anos, durante um almoço, a esposa de Ronaldo contou pela primeira vez sobre a existência da Igreja Adventista Remanescente de Laodicéia ao marido. Inicialmente, o aposentado não levou a sério a vontade da esposa e da filha largarem tudo para morar em uma das chácaras da seita, em Corumbá (GO). Contudo, ele se surpreendeu quando viu as duas partirem. "À época, eu estava tirando carteira de motorista. Saí para solicitar o documento e, quando cheguei, elas tinham sumido. Sem mais nem menos", detalhou.

A partir de então, o contato passou a ser restrito. "Eu mandava mensagem de bom-dia e ela (a filha) não respondia. Até fiquei chateado, mas não sabia que tinham tomado o telefone dela", desabafou. Segundo ele, antes de entrar para o grupo, a jovem era alegre e gostava de conversar. Agora, está diferente e traumatizada. "Quando ela chegou, estava com marcas no braço. Pedi para contar quem as fez, mas ela não quis falar", contou Ronaldo, que está à procura de um psicólogo para a filha e pretende entrar com um processo judicial contra a igreja.
 
A reportagem conversou com um dos denunciantes, o vendedor Lúcio Farias Silva, 47. Ele e o irmão Moriel Farias receberam as mensagens de socorro da jovem de 18 anos resgatada pela polícia. Atualmente, a garota está em Goiânia, mas o pai, que mora no Maranhão, foi contatado e deve buscar a filha na semana que vem. "Ela queria ir embora e não deixavam. Tentou fugir e não deixaram. Falavam que ela era o demônio. Inclusive, ela falou para mim que pensa ser o demônio”, disse.

Lúcio contou que passou seis anos junto ao grupo, mas, por discordar de normas impostas pela líder, decidiu se afastar. Ele nega que tenha feito ameaças e disse que a jovem resgatada sente culpa pela prisão de Ana Dias. "Ela não queria prejudicá-la, só queria ir embora. Ela não queria ficar lá dentro." 

Assim como a colega, a garota de 18 anos sente saudades da comunidade por causa da mãe e das irmãs que moram na chácara. Ambas também sentem falta de Ana Dias, a quem chamam de mãe. "A profeta a adotou como filha. Colocou na mente dela que ela era uma filha espiritual. A mãe biológica concordou com isso e a doou para Ana. Chegaram a trocar o nome dela (da jovem) para Ana Rute", completou Lúcio.

'Vontade expressa'
Em nota, o advogado da igreja, Rolland Ferreira de Carvalho, disse que, no estatuto da instituição, fica explícito o direito de todos os integrantes à liberdade individual, o direito "sagrado e constitucional" de ir e vir, não havendo qualquer situação em que se mantenham congregados sem que esta seja a "vontade expressa" deles. 

Rolland ainda afirmou que faz a defesa da entidade há cerca de três meses. Entretanto, quando questionado sobre a prisão de três semanas da filha de Ronaldo, o defensor disse desconhecer o caso e a vítima.
 
A líder Ana Dias declarou que as denúncias de cárcere partiram de dois homens que chegaram a trabalhar em cargos altos dentro da congregação. Eles são irmãos do atual pastor, Luciclei Rosa da Silva. "Essas pessoas são nossos inimigos. Eles prometeram que, em dois anos, acabariam com isso aqui (a igreja)", ressaltou. 


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.