Texto Em carta, Família Imperial Brasileira se pronuncia sobre incêndio no Museu Nacional "Os avisos foram muitos, nenhum governo pode se dizer desinformado e nem se pode tratar o incêndio de domingo como uma exceção", diz trecho do documento

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 03/09/2018 22:03 Atualizado em:

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Através de carta divulgada na noite desta segunda-feira (3), a Família Imperial Brasileira se pronunciou a respeito do incêndio desse domingo (2), que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Intitulado "História reduzida a cinzas", o texto foi assinado por membros da família que vivem em Petrópolis, Região Serrana do Rio, além de outras cidades do país.

"Os avisos foram muitos, nenhum governo pode se dizer desinformado e nem se pode tratar o incêndio de domingo como uma exceção. Na verdade, negligenciamos nosso imenso e rico patrimônio histórico, cultural e científico", diz trecho do documento. 

Leia a carta na íntegra:

HISTÓRIA REDUZIDA A CINZAS

A história costuma ser cruel com quem a negligencia. Quem contribuiu pela omissão, em décadas de desídia, para o triste desastre da destruição do Museu da Quinta da Boa Vista, não terá como escapar de ter a própria história tisnada pelo registro deste crime, de consequências cuja extensão levaremos ainda muitos anos para avaliar corretamente.

Do ponto de vista da Família Imperial Brasileira, cujos integrantes assinam esta declaração, é tarefa urgente investigar as causas e revelar o caminho que levou a tão grave desastre. Para apontar culpas e punir os responsáveis, se for o caso. Mas, sobretudo, para jogar luz sobre igual abandono e desinteresse que põe claramente em iminente risco outros bens do povo brasileiro.

Bens valiosos pertencentes à Família Imperial doados por descendentes de Dom Pedro II e da Princesa Isabel ao Museu foram consumidos pelas chamas, no domingo. A intenção, como ocorreu com as doações feitas também ao Museu Imperial de Petrópolis e tantos outros foi entregar ao povo brasileiro bens, documentos e obras de arte importantes para o estudo de sua história. E muitos outros mecenas ajudaram a construir aquele acervo. Sentimos, portanto, como todos os brasileiros, a indignação com a forma com que esse patrimônio foi tratado, até levá-lo à destruição, na Quinta da Boa Vista.

Os avisos foram muitos, nenhum governo pode se dizer desinformado e nem se pode tratar o incêndio de domingo como uma exceção. Na verdade, negligenciamos nosso imenso e rico patrimônio histórico, cultural e científico, como o fazemos com tantos outros aspectos da vida brasileira.

Milhões e milhões de documentos importantíssimos foram destruídos. Tudo resultante de dois séculos de estudos e pesquisas que mobilizaram o esforço de vida de notáveis da inteligência brasileira. O que se perdeu e como se perdeu é tema do dia no mundo inteiro, não apenas dos órgãos de comunicação, mas também nas mais respeitáveis instituições de pesquisa histórica, científica e cultural. A dor é universal, mas a vergonha é nacional.

D. Pedro II e a Princesa Isabel nasceram no Paço de São Cristóvão e lá estavam tantos registros do amor que ambos dedicaram ao país e ao seu povo. Como seus descendentes, lamentamos profundamente o que aconteceu e o que levou à destruição desse acervo, patrimônio de todos nós. Desejamos que essa tragédia nos ensine que todos temos papel importante na preservação de instituições e acervos que contam a história do país.

Este documento pode ser entendido como um protesto, com o qual nos unimos a todas as manifestações já tornadas públicas em todo o mundo sobre a destruição do Palácio da Quinta da Boa Vista. Cabe a todos nós brasileiros lutar para preservar a nossa história, da mesma forma que cabe a todos nós não calar diante de descalabros, em quaisquer áreas da vida nacional em que eles ocorram.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.