Não estranhe se, depois de conferir uma apresentação de malabarismo em um semáforo do Plano Piloto, em Brasília, você ouvir o artista agradecer a sua gorjeta dizendo “gracias”. Ele provavelmente é um dos muitos artistas de rua latino-americanos que incluíram a cidade no roteiro de viagem pelo Brasil. Eles vêm atraídos pela fama de fortuna da cidade ou para ver o cenário arquitetônico planejado. Se têm em comum o desejo de conhecer outros lugares e usam as habilidades circenses para custear a jornada, as histórias de cada um e de como eles chegaram até aqui não poderiam ser mais diferentes.
Lá se vão 13 anos de estrada para o uruguaio Andrés Rivero, 34 anos. Ele diz que optou por viver assim porque “a arte existe para que a mentira não nos destrua”. Há pelo menos três anos, ele viaja pelo Brasil. Na capital, chegou faz três meses e vive em uma pousada na Asa Norte. Suas habilidades vão de jogar clavas, equilibrar cinco bolinhas no ar ao mesmo tempo, andar na corda bamba e “puxar o saco de todo mundo”. Ele diz que isso ajuda a ganhar a vida. “Não dá para sorrir à toa nem chorar de miséria”, garante.
Sob sol forte das 15h, no sinal próximo ao Hemocentro, na Asa Norte, ele e a venezuelana Oriana Rodriguez, 21 anos, de vez em quando se esbarram e decidem se apresentar juntos. Para o pouco que se conhecem, o show de menos de um minuto é bastante sincronizado. O plano de Andrés é ficar mais um ou dois meses e depois ir para outro canto. Sabe apenas que a permanência no Brasil acaba em breve. Até o fim do ano, ele volta para o Uruguai. “Cansei de comer arroz e feijão”, dispara.
Oriana, por sua vez, é iniciante nas artes de rua. Decidiu trancar o terceiro período da faculdade de física em Caracas, no ano passado, para rodar a América. “Quero aprender coisas que não são ensinadas na escola. Comecei a achar que aquelas pessoas já não podiam me acrescentar nada”, afirma. A família dela não aprovou a decisão. “Eles pensavam que eu deveria ter uma casa, um cachorro, um marido e uma carreira. Ficaram com medo. Tentei explicar, mas eles não entenderam. Agora, estão mais tranquilos”, explica.
Há nove meses, ela entrou no Brasil pela fronteira da Venezuela com Roraima. “Cruzei a Amazônia de barco. Foi muito bonito”, relembra. Na Bahia, disseram que Brasília era uma boa praça. Durante dois dias, Oriana pegou carona até chegar aqui. Ela aluga uma casa em Ceilândia com um amigo, seu parceiro de viagem.
DesconfiançaA uruguaia Florencia Vista, 26 anos, se ressente quando os motoristas fecham os vidros ao perceberem que ela e o marido, o pernambucano Cleiderson Alberto, o Noturno, 25, posicionam-se sob o semáforo para fazer malabares ou monociclo. “Acho isso muito feio. Não estamos pedindo nada. A pessoa dá se quiser. Mas entendo que a violência é grande e as pessoas desconfiam”, avalia. “O pior é quando passam na rua gritando, mandando a gente arrumar um emprego. Nós já temos um. Tem sempre quem não nos leve a sério”, complementa Noturno. Eles estão vestidos de caipira. “É um diferencial. Precisa ter, né? Aqui tem muita gente fazendo isso”, esclarece a moça.
Os dois se conheceram em um semáforo no Rio de Janeiro. Hoje, têm uma filha, Vitória, de 1 ano e sete meses. O casal jura que a menina tem vocação para acrobacia. Em Feira de Santana (BA), foram contratados por um circo e com ele chegaram até Brasília. Não fosse a prática do sinal, contam, jamais teriam adquirido a experiência para entrar no circo.
IlusionismoA especialidade do casal de chilenos Gabriela Cossio, 21 anos, e Cristian Crust, 31, é diferente de outros artistas de rua. O negócio deles é o ilusionismo. Cristian faz performance com uma esfera de acrílico. O objeto parece aderir ao seu corpo. A interação de Gabriela com a roda de aço também dá a impressão de que é o instrumento que determina os movimentos da artista e não o contrário.
Se engarrafamento e sinal vermelho enervam os motoristas, a combinação desses fatores representa a chance para os ilusionistas mostrarem o que sabem. E o cruzamento entre o fim da W3 Sul e o Setor Policial é, para eles, o palco perfeito. “É uma terapia para os motoristas e para mim também”, diz Cristian, formado em teatro. Gabriela também é universitária. Durante um ano, vai deixar o curso para viajar.
Os dois estavam em Goiânia antes de chegar a Brasília. Vieram para cá porque Gabriela perdeu os documentos de identidade e precisa de ajuda do consulado chileno para tirar a segunda via e seguir viagem. A passagem pela capital deve ser curta. Mas o casal gostou da cidade. “Valorizam muito o que a gente faz. É muito bom”, diz Cristian
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