100 anos Rádio Clube Antônio Maria, um ser humano fora de série Recifense, iniciou a carreira na Rádio Clube, aos 17 anos, como apresentador de programas musicais

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 03/09/2018 08:00 Atualizado em: 03/09/2018 08:09

Antonio Maria Filho/Arquivo Pessoal
Antonio Maria Filho/Arquivo Pessoal
Antônio Maria era genial. Onde se colocava, destacava-se. Em cada produção radiofônica, locução, composição musical, crônica. No trato com sons e palavras. Certa vez resolveu publicar em O Jornal, para o qual redigia entre 1951 a 1955, o título O ser humano em dez mandamentos mais comoventes. Enumerados, diziam assim: 

1. Criança fantasiada, principalmente na idade dos seis meses aos três anos; 
02. Moça de carro alegórico jogando beijos; 
03. Homem velho contando que deu soco em alguém e, fazendo gesto (aí é que comove), mostrando como foi o soco; 
04. Preto de óculos ray-ban (sábados e domingos); 
05. Violinista de casa de chá tocando Toseil; 
06. Retrato de primeira comunhão; 
07. Criança tocando acordeão na televisão; 
08. Fotografia de índio em pose perto de avião; 
09. Goleiro de time de morro com uma joelheira só;
10. O bilhete que a empregada deixa sobre a mesa da cozinha (muito mais pela caligrafia do que pela ortografia): 'pesso deixar a xave'

Ele contou como poucos os costumes da vida carioca entre os anos de 1950 a 1960, como bem lembram os produtores da peça Maria!, que estreou no Rio de Janeiro em maio deste ano, em homenagem ao pernambucano. Influenciou de maneira única a produção do rádio no Brasil. Nascido em 1921, aos 17 anos começou na Rádio Clube como apresentador de programas musicais. Mudou-se para o Rio e ganhou o Brasil. Compunha muito bem com Vinícius de Moraes, hoje tem estátua dele no Recife e é lembrado entre os mais célebres cronistas brasileiros. Em 1964, no dia 15 de outubro, Antônio Maria dirigia-se à boate Le Rond Point, em Copacabana, Rio. Pensava em trocar um cheque. Antes de entrar na boate, sofreu um infarto fulminante e morreu. Tinha 43 anos. 

'Locutor esportivo, apresentador, produtor, redator de rádio e TV, diretor artístico de show de boate, publicitário, letrista, músico, cantor, cartunista, jornalista, cronista e, finalmente porque, afinal de contas ninguém é de ferro - conforme afirmou o esplêndido pernambucano Ascenso Ferreira - um imensíssimo morto que merece um pouco mais de atenção por parte dos brasileiros que se acreditam vivos neste final de milênio', descrevia o escritor Ivan Lessa, numa edição de 1994 da revista Veja, transcrita pelo jornalista Jota Alcides no PRAS- O Rádio no Brasil (editora independente 1997).

Antônio Maria começou com experiências em transmissões esportivas radiofônicas. Segundo Luiz Maranhão Filho, professor e pesquisador, criou o primeiro programa da 'espécie no rádio'. Chamava-se Bola ao centro e antecedeu os próprios cronistas de jornal. Foi ideia de Antônio Maria, na Rádio Clube, o primeiro 'programa montado', diz o estudioso. No jornal Folha da manhã da época, uma matéria transcrevia a rotina de Antônio Maria ao elaborar um script, corrigindo o texto do narrador e planejando as intervenções do rádio-teatro e a presença da orquestra. Isto dispensava a presença da sonoplastia. Funcionou tanto que a produção especial, antes reservada a datas de aniversário, passou a integrar todo tipo de data, do Natal à Queda da Bastilha. Maria voou. Em 1940, chegou ao Rio na Rádio Ipanema, atuou em Fortaleza, Salvador e, em 1947, a carreira deslanchou ao se tornar diretor artístico da rádio Tupi, no Rio de Janeiro.

Celebridade e amigo íntimo de Vinícius de Moraes
A longa carta que Vinícius de Moraes escreveu para Antônio Maria quando soube da morte do amigo é intensa e triste. 'Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer'. Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? (...). Por que, Poesia?', questionava o destino, indignado com a perda. Vinícius de Moraes tinha uma alma em sintonia com a alma de Maria. Coube ao pernambucano dar a ele o apelido com o qual Vinícius morreu conhecido: 'Poetinha'. O compositor, venerado pela música popular brasileira, retribuía chamando-o de 'meu Maria'.

José Maria era tão sensível quanto Vinícius. Era um homem de 1,80 m, 120 quilos, de voz marcante e adorava a boemia. Romântico, compôs músicas melancólicas como Ninguém me ama (1952), assinando a composição com o jornalista pernambucano Fernando Lobo. Maria e Lobo eram amigos desde a época da PRA-8, a Rádio Clube, a Pioneira. É de autoria dele ainda canções como Manhã de Carnaval (em parceria com Luis Bonfá) e Valsa de uma cidade (esta com Ismael Neto) . Com Vinícius, compôs Quando tu passas por mim.

No Rádio, no Recife ou no Rio, era conhecido pela criatividade e expressões inovadoras. Tinha excelente texto, humor fino e costumava dar apelidos a jogadores, quando fazia as trasmissões. Luiz Bandeira afirmou, em depoimento, que Antônio Maria era 'um jornalista completo'. Diz-se que ele foi descoberto pelo fundador do grupo Diarios Associados, Assis Chateaubriand, em Salvador. Trabalhou em O Jornal, de propriedade de Chateaubriand, onde publicou a crônica dos dez mandamentos e dezenas de outras na coluna intitulada O Jornal de Antônio Maria (republicada pelo Diario de Pernambuco). 'Ganhou fama de o cronista maior do Rio de Janeiro', descreve o jornalista Jota Alcides. Era uma celebridade da década de 1950 no Rio de Janeiro. Antônio Maria era um bon vivant e aproveitava-se das incursões pelos bares e distritos policiais para narrar o que via na rotina da cidade. Fez escolas. Na Rádio Clube, no Recife e no Brasil.

Esta reportagem faz parte de uma série em homenagem aos 100 anos da Rádio Clube e será publicada até abril de 2019


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