Diário nos bairros Naná, o mediador do afeto de um bairro Evaldo de Moura é respeitado, ouvido e querido pela vizinhança de todo o bairro do Poço

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 10/08/2018 08:17 Atualizado em: 10/08/2018 17:18

Quando a kombi de Naná foi roubada, fizeram um bingo. Imagem: Gabriel Melo/DP
Quando a kombi de Naná foi roubada, fizeram um bingo. Imagem: Gabriel Melo/DP

Há pouco tempo, Naná ficou doente. Duas semanas internado no Hospital da Restauração mais ou menos. Vizinhos faziam a escala de horários para não deixar o amigo sozinho no leito. Para gozar desse privilégio, deve-se entender o porquê de Naná ser tão querido pela comunidade do Poço da Panela: ele é um líder comunitário sem título, que lidera sem alterar a voz. “É um mediador de conflito por natureza”, diz o jornalista e escritor Samarone Lima. “Quando Naná chega, chega o bem. Acaba até confusão na mesa do bar. Ele pergunta logo: ‘Posso falar?’. Todo mundo se cala. É como o mais velho da aldeia, aquele que todos ouvem”.

Samarone tem uma lembrança ímpar que ilustra não só o Naná de hoje. Há quase vinte anos, Naná, batizado Evaldo Gomes de Moura, conheceu um menino que anunciava por onde ia que queria ser matador. Naná começava um trabalho como motorista voluntário e transportava em sua kombi particular cerca de 30 crianças de baixa renda no horário escolar. Foi notícia dos jornais nos anos 2000 pelo feito, exemplo de cidadania.  

O menino que queria ser matador nunca havia aceitado o convite para chegar ao colégio na kombi de Naná. Preferia seguir até a escola Nilo Pereira, cerca de dois quilômetros de distância, de bicicleta. Um dia, a bicicleta quebrou. “Ele nem olhava para a gente nos olhos. Nunca esqueço que, depois da terceira viagem, ele disse um ‘obrigado’. Depois disso, mudou”, conta Samarone, que funcionava como o copiloto de Naná na kombi.

Para lidar com as crianças e adolescentes da comunidade de baixa renda da beira-rio, os passageiros da kombi, Naná desenvolveu um método de conquista. Se soubesse de conduta desaprovada na escola, ao invés de punição, avisava: “Hoje você vai na frente”. Sentar-se ao lado de Naná era um prêmio desejado. “Naná dizia: ‘A gente tem de puxar para perto’. Ele sempre achou que resolvia tudo pelo afeto”, conta Samarone, um amigo-admirador. Neste tempo, Damaris Diniz, diretora do Nilo Pereira, suspirava dizendo que, depois de Naná, reduziu o número de faltas e os atrasos. 

“Naná é o elo entre a comunidade e a escola”, afirmava a diretora da ocasião. O projeto voluntário de transporte escolar contava com a ajuda de pequenos financiadores, mobilizados pelo próprio Naná e por Samarone, e funcionou durante dez anos até que novas escolas foram instaladas nas proximidades. A kombi foi roubada em 2009. Amigos fizeram bingo e rifas e o ajudaram na compra de outra.

Naná não parou. Continuou servindo. “Aqui eu tenho amigos. Meu negócio é trabalhar com a comunidade”, disse-nos ele. “Moro em um sonho”. Ajudou a fundar a biblioteca comunitária, da qual ainda cuida. Organiza anualmente Os Barba, bloco anárquico etílico carnavalesco do Poço da Panela. “Quando alguém pensa em organizar alguma coisa, a ideia dele é a mais interessante”, diz o amigo.

Naná vive de fazer fretes. Em caso de emergências, socorre a vizinhança até o médico. Faz, com um prazer enorme, o transporte dos amigos para os jogos do Santa Cruz na já batizada “Kombi coral”. Já foram mais de 500 partidas, mais de 7 mil torcedores transportados para estádios.

Só as quartas-feiras pela manhã que são sagradas. É dia de buscar a água potável para a comunidade do Poço. Ele recebe cerca de cinquenta botijões, põe etiqueta com o nome do dono, se desloca até a fonte, na Avenida Caxangá, retorna e entrega a cada um com preço reduzido. “Naná está sempre olhando para o outro. É um homem com pureza de alma. Uma das pessoas mais bonitas que já conheci”, diz Samarone Lima, que, a Naná, dedicou o poema “O decifrador do bem” no livro A invenção do Deserto (Ed. Confraria do Vento, 2016).
 


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