• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Em Foco Nas asas do sonho possível Programa de intercâmbio Ganhe o mundo, que revoluciona a vida de alunos da rede estadual desde 2012, é exemplo a ser seguido no país

Por: Luce Pereira - Diario de Pernambuco

Publicado em: 28/06/2015 09:00 Atualizado em: 09/07/2015 20:55

Arte: Greg/DP
Arte: Greg/DP
Sou do interior. Cresci estudando em escolas públicas, convivi de perto com as barreiras que separam sonho de realidade e desde cedo aprendi o essencial para vencê-las: é preciso abraçar a educação como as oportunidades trazidas por ela e nunca ignorar os conselhos de quem enxerga nos livros o caminho mais seguro para o futuro. “Leia até bula de remédio”, cansei de ouvir – e de levar a sério. Hoje, diante das histórias de superação e transformação trazidas pelo caderno especial sobre o programa Ganhe o mundo, do governo do estado, penso em como poderia ter abreviado a distância até os sonhos se pudesse, naquela época, contar com chance igual.

Num exercício inútil, mas instigante, imagino que poderia até nunca chegar à respeitabilíssima Harvard University (Cambrige/EUA), para onde vai Thalita Rocha Costa, 17, cursar medicina (e com alguns privilégios como bolsa integral, apartamento, carro), contudo, na pior das hipóteses, acabaria descobrindo que o mundo é imenso e que nele cabem todos os sonhos, bastando buscá-los com afinco. No mínimo, voltaria como voltou a maioria dos 3,4 mil selecionados para o intercâmbio, desde 2012 – confiante, segura, focada em objetivos e disposta a convencer os pares de que, sim, é possível, existe um canal à espera dos obstinados. 

Quem nasceu de pais sem maiores problemas financeiros, em condições de proporcionar uma educação de qualidade, além do conforto ideal para aproveitá-la, não consegue avaliar a repercussão que uma oportunidade assim tem na vida de jovens pobres. Muitos nunca saíram do próprio município e como num passe de mágica se veem em cidades desenvolvidas, acolhidos por famílias estruturadas, num ambiente escolar impecável e diante de uma nova cultura. O resultado de experiência tão rica só pode ser entusiasmo, fé e coragem para alcançar objetivos que antes não passavam de pensamentos vagos.

O programa pode levá-los ao Canadá, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia, Argentina, Espanha, Chile e Uruguai. Para um destes países já seguiram (ou seguirão) filhos de catadores de lixo reciclável, empregadas domésticas, encanadores, assentados, desempregados, carroceiros ... Estudantes que não dispõem nem mesmo do básico para a viagem, mas recebem apoio e solidariedade de instituições como a Receita Federal e a Compesa. A primeira libera itens necessários, entre os apreendidos, e a última já garantiu mala para mil alunos que deverão viajar até 2016.

Você lê o caderno e se comove com as histórias e personagens, imaginando quão diferente estaria a educação no país se as redes públicas de ensino nos estados assumissem o compromisso de criar programas semelhantes, com ajuda da iniciativa privada e da própria população. Ideias assim são capazes de coroar o esforço de quem aperfeiçoou o inglês com a ajuda do dicionário encontrado no lixo; de levar um jovem de 18 anos a, diante do novo mundo, concluir que nunca mais será o mesmo.

Eu que, um dia, também desejei pegar carona nas asas do sonho, para escapar de dificuldades reais, sei o significado de uma chance. No caso do programa, ela tem um alcance social tão relevante que merece ser ampliada e fortalecida. De preferência, com a ajuda de todos.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.