Moda sustentável Atriz americana lança grife com peças de materiais sintéticos para veganos Estrela hollywoodiana se juntou a duas sócias para criar a marca de roupas Hiraeth, para produzir moda sem a utilização de matérias-primas e itens de origem animal

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 04/09/2018 13:28 Atualizado em:

Foto: AFP (Foto: AFP)
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São Paulo — O conceito de fast-fashion, de produção de moda rápida e contínua, tem conseguido com o passar do tempo aumentar a oferta de peças de vestuário a preços mais competitivos. O problema é que cada vez mais os recursos renováveis perdem espaço nesse novo perfil de consumo para matérias-primas sintéticas, como o petróleo. Mas há uma outra vertente dessa indústria que procura justamente a direção oposta. No lugar de produtos de origem animal, como a lã natural, a seda e o couro, tem ofertado alternativas para atender aos adeptos ao veganismo, feitas a partir de material sintético ou de origem vegetal.

Recentemente quem entrou nesse mercado foi a atriz Rooney Mara, indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar, que atuou em filmes como Millenium – Os homens que não amavam as mulheres, Carol e Her. Vegana há sete anos, Rooney decidiu se unir a Sara Schloat, sua amiga de infância, e Chrys Wong, para o lançamento da marca Hiraeth. A decisão foi tomada depois de ela perceber que não era coerente ser vegana, mas continuar a usar animais no guarda-roupa. Em entrevista recente, a atriz confessou se sentir desconfortável ao ver peças de couro em seu armário.

Algumas marcas já têm flertado com esse tipo de produção. É o caso da estilista e ativista Stella McCartney, que em abril lançou uma coleção com o apelo de ser livre de qualquer tipo de crueldade animal. Outros estilistas, como Donatella Versace e Tom Ford, anunciaram que vão usar cada vez menos pele animal em suas criações.

Tenologia ajuda

Quem também aderiu ao movimento foi a grife Hugo Boss, que há poucos meses apresentou um tênis vegano feito de “couro de abacaxi”, ou Piñatex. A tecnologia deverá ser uma aliada importante nesse aumento de produtos. Stella McCartney já usou uma seda desenvolvida a partir de levedura, obtida com uso da biotecnologia. Também já é possível encontrar várias alternativas para o couro vegano, como o material obtido do fungo, da nat-2, outro produzido à base de casca de maçã, da VEERAH, e o de levedura, da Modern Meadow.

Essas novas tecnologias são um item importante na composição de custos de grifes veganas como a Hiraeth — além do próprio valor intangível da marca e todo o processo de produção. Uma jaqueta estilo motociclista da nova aposta de Rooney Mara, por exemplo, é vendida no site por US$ 1.540, algo como R$ 6,3 mil no câmbio de ontem.

Brasil 

Dados divulgados em maio mostram que o Brasil tem 30 milhões de veganos, ou cerca de 14% da população, segundo pesquisa do Ibope feita sob encomenda da Sociedade Vegetariana Brasileira. Ao serem perguntados sobre aumentar o consumo de produtos alimentícios veganos, 55% disseram que fariam essa adesão ao novo hábito, se houve uma indicação mais adequada na embalagem.

Apesar desse contingente, o Brasil tem poucas marcas de moda que escolheram o veganismo como plataforma, como a Insecta, fabricante gaúcha de calçados, a paulista King55 e a carioca Svetlana — as duas últimas dedicadas à produção de roupas.

Rooney Mara tem falado da dificuldade em encontrar materiais que substituam os obtidos a partir de animais. “Tantas coisas diferentes usadas em nossas vidas têm couro ou lã, mas as pessoas estão desconectadas do que isso significa ou o que foi necessário para colocar aquele item no armário, no carro ou em qualquer outro lugar”, declarou em entrevista à W Magazine.

Ainda segundo a atriz e agora empresária, o universo da moda está atrasado na preocupação em desenvolver alternativas veganas, quando se compara ao que vem acontecendo com o setor de alimentos. Mas a própria Rooney conta que quando começou no veganismo, há sete anos, encontrava apenas um tipo de queijo. Hoje são pelo menos 50 marcas quando vai ao supermercado.

Bilhões em cosméticos 

Outro segmento de negócio vegano que está avançado é o de cosméticos. Pesquisa divulgada em maio passado pela Grand View Research aponta que em 2025 esses produtos vão movimentar globalmente algo em torno de US$ 29,8 bilhões, apresentando até lá uma taxa média anual de crescimento de 6,3%.

A matéria-prima usada pela Hiraeth vem do Reino Unido, França, Japão e Itália. A marca está instalada em Los Angeles e os itens são vendidos pelo e-commerce próprio e em duas lojas da rede Barneys. Apesar de a marca estar há pouco tempo no mercado, já conseguiu emplacar um de seus modelos no tapete vermelho. A atriz Sadie Sink, de Stranger Thinsgs, usou uma das criações da Hiraeth em março passado.

Ao criar a Hiraeth, Rooney Mara é mais uma atriz a se tornar empreendedora a partir de uma necessidade pessoal. Foi assim com Jessica Alba, que acumulou uma fortuna com a The Honest Company. A ideia que surgiu quando ela viu seu primeiro filho, ainda bebê, sofrer com alergia a um produto de limpeza da pele. Hoje a empresa é apontada como uma das próximas a entrar para o clube dos unicórnios — startups avaliadas acima de US$ 1 bilhão — e já atraiu a cobiça até mesmo de multinacionais interessadas em ficar com o controle do negócio.



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