Observatório Econômico Velhos problemas Novo governo e velhos problemas. Há coisas urgentes, mas não podemos negligenciar questões importantes. Dentre elas, destacaria a universalização do acesso à água e esgoto tratados.

Por: Marcelo Eduardo Alves da Silva

Publicado em: 05/11/2018 10:07 Atualizado em:

Findas as eleições, as atenções se voltam para o novo governo. Todos queremos saber, com mais detalhes, as propostas para as mais variadas áreas. Problemas não nos faltam, o desafio é encontrar soluções que sejam efetivas e eficientes, e que caibam dentro do estado que queremos. O Estado brasileiro é grande, contando com os pagamentos de juros, absorve quase um terço de nosso Produto Interno Bruto. Gastamos muito, mas de forma, muitas vezes, ineficiente. A sinalização inicial do novo governo é de atacar essa ineficiência, o que é positivo. A questão é como isso será implantado. Creio que além das coisas urgentes: reforma da previdência, redução da violência, combate à corrupção, manutenção da estabilidade macroeconômica, etc. deveríamos gastar energias em coisas que considero superimportantes e, dentre elas, destacaria o saneamento básico. 

Nesse aspecto, nossos números são de fazer vergonha. A Pesquisa Nacional por A mostra de Domicílios Contínua de 2017 indica que apenas 66% dos domicílios brasileiros era ligado à rede geral ou possuíam fossa ligada à rede. No Nordeste, esse percentual foi de 45,1% e, em Pernambuco, os números foram parecidos com a média nacional. Além da baixa cobertura, nem todo o esgoto coletado é tratado no país. A estimativa do Instituto Trata Brasil é que apenas 45% do esgoto gerado no Brasil passa por algum tipo de tratamento, o restante é despejado diretamente no meio ambiente. São números baixos e merecem a devida atenção.

Os benefícios do saneamento são conhecidos: redução de doenças e do custo do tratamento, aumento da produtividade do trabalho, valorização dos imóveis, melhora da qualidade do meio ambiente, dentre outros. Destacaria ainda que os impactos são mais elevados sobre os mais pobres e principalmente sobre as crianças.

Universalizar o acesso à água e esgoto, e tratar o esgoto é talvez um dos maiores legados que podemos deixar para as gerações mais novas (além da educação é claro). Basta visitar os subúrbios de nossas cidades para verificar o tamanho do desastre. Sem falar nos impactos ambientais, são córregos, lagos, rios e praias que estão sendo destruídos pela falta de saneamento, transformando-se em verdadeiros esgotos a céu aberto. Isto é uma das coisas que deveriam nos fazer corar de vergonha. 

Estimativas do Instituto Trata Brasil apontam que o custo para universalizar o acesso à água e esgoto no Brasil seria algo como R$ 317 bilhões em 20 anos ou algo em torno de R$ 16 bilhões, no mínimo por ano (em valores de 2014).  Em 2017, os investimentos federais representaram um pouco mais da metade desse valor, ou seja, estamos longe de alcançar a universalização. 

Faltaram recursos? Infelizmente não, faltou focalização. Para se ter uma ideia, apenas a previdência apresentou um rombo de R$ 269 bilhões em 2017. Ou seja, em apenas um ano teríamos quase o valor necessário para universalizar o saneamento no país. 

* Professor do Departamento de Economia da UFPE.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.