Observatório Econômico Nordeste segue sem emprego, e sem norte

Por: Fernando Dias - Diario de Pernambuco

Publicado em: 16/07/2018 03:00 Atualizado em:

Assim como vem acontecendo desde o início deste ano, todas as estatísticas de produção continuam apontando para uma melhora lenta e contínua da economia brasileira. Não há no mercado, e nem no governo, qualquer expectativa de boom econômico previsto para este ou para o próximo ano quem quer que seja eleito presidente. No entanto, a recessão ficou no passado. Será?

Embora as estimativas, em uníssono, sugiram que a economia brasileira vem crescendo e continuará crescendo, devagar, já é fato que o nível de emprego não vem acompanhando esta tendência. Em verdade, dada a taxa de crescimento natural da mão-de-obra o crescimento mal tem sido suficiente para estabilizar nos níveis atuais entre 12% e 13% de desemprego. Depois de uma severa recessão conviver com anos de baixo crescimento e sem vagas de trabalho deixa o cidadão/eleitor bem infeliz, e os níveis de popularidade do atual governam falam por si.

A Região Nordeste, por sua vez, consegue ficar ainda pior que a já ruim média nacional. Após um feliz período de prosperidade onde as taxas de desemprego aqui se tornaram, depois de décadas, similares as do resto do país, perdemos tudo em pouco mais de 3 anos. Voltamos à estaca zero no emprego enquanto não avançamos um passo na convergência da renda. É incrível como a Região que mais recebe transferência da União, que mais é sujeita a políticas públicas faz décadas, não sai do lugar.

Analisando os últimos dados do IBGE para emprego, via PNAD Contínua, vemos que redução no emprego no Nordeste desde 2012 vem sendo guiada pelos resultados da indústria de construção civil e da agricultura, que não foram compensados pelos ganhos no comércio, serviço e administração pública. Estamos perdendo emprego na agricultura e compensando com administração pública... no século XXI. A indústria de transformação, a grande vedete das políticas públicas da União e dos Estados, vem encolhendo, enquanto o comércio e os serviços buscam vantagens competitivas e locacionais para crescer.

O quadro tende a mudar no médio prazo? Improvável. Na atual eleição, que inclui os governadores, a maioria absoluta dos candidatos mais bem posicionados nas pesquisas é declaradamente inclinada a posturas mais intervencionistas por parte da União no desenvolvimento regional, inclusive aquelas com forma, cheiro e cor de populistas. Não importa não ter funcionado nos últimos 50 anos, importa apenas que as pessoas acreditem que se insistir um dia funciona.

Uma das raízes do problema de nossa baixa dinâmica parece residir em negligenciar o papel da competitividade, em identificar setores dinâmicos ao invés de tentar fabricá-los à custa de dinheiro público em incentivos. Tome-se por exemplo o setor de teleatendimento, que mais que dobrou de tamanho no Nordeste desde 2012 enquanto no Brasil praticamente se manteve inalterado. Este setor recebeu incentivo das prefeituras nordestinas para igualar os que já recebiam no Sudeste, e se realocou em profusão visando salários menores, turnover menores e mão-de-obra equivalente. Este é o setor que mais emprega jovens no Brasil, se deslocando para a região com as piores taxas de desemprego no Brasil, mas ele não é foco de política pública embora 25% dele hoje esteja aqui.

Mas tem o turismo! Será? Segundo os dados do Ministério do Turismo, para 2017, dos 10 principais destinos de lazer para turismo estrangeiro no Brasil só Salvador ficava no Nordeste e 5 eram em Santa Catarina. Turismo de negócio? Só Salvador entre os 10. A depender do que demandam os candidatos aos governos estaduais, mais programas sociais, mais dinheiro para os Estados, mais incentivos as indústrias, mais benesses de toda ordem, este ciclo dificilmente verá seu fim. O norte do Nordeste não pode ser estender o pires para a União hoje e sempre, sem olhar para competitividade seremos eternamente dependentes.


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