OBSERVATÓRIO ECONÔMICO A vírgula da discórdia

Por: Marcelo Eduardo Alves da Silva

Publicado em: 21/05/2018 08:00 Atualizado em:

Por Marcelo Eduardo Alves da Silva(*)
marcelo.easilva@ufpe.br 

Na semana passada, o governo Temer realizou um evento para marcar 2 anos no poder. Entre números e resultados, o destaque ficou por conta de uma vírgula. O que uma vírgula não faz! 

No convite distribuído para o evento de dois anos de governo Temer, estava lá o slogan: “O Brasil voltou, 20 anos em 2”. Nada de errado, o problema é que deu margem à imaginação. São nessas horas que lembramos  do poder da vírgula. Uma vírgula mal colocada ou não colocada, pode colocar tudo a perder. Lá se vão dois anos, o suficiente para fazermos um balanço do governo. Com vírgula ou sem vírgula, afinal, o Brasil voltou para trás ou para frente? Eu diria que os dois e isso foi positivo. 

Não custa lembrar que há pouco mais de dois anos, vivíamos a pior recessão da nossa história, fruto de uma débil condução da política econômica, que, ao repetir erros do passado, deixou-nos uma herança maldita de recessão, inflação de dois dígitos, uma política monetária sem credibilidade e um quadro fiscal deteriorado. O governo anterior sim, parece ter voltado não 20, mas 30 anos, aos anos 80, quando convivíamos com inflação alta, quadro fiscal deteriorado e planos econômicos mirabolantes. Os erros dessa época voltaram a nos assombrar: controle de preços, intervenções setoriais, descontrole fiscal, uso dos bancos públicos para fazer política econômica de curto prazo, etc.  

A boa surpresa foi ver que em menos de dois anos, conseguimos reverter a recessão, melhorar o quadro fiscal e ainda restaurar a credibilidade da política monetária. Aqui sim, voltamos 20 anos, não em atraso, mas no que aprendemos de bom com o Plano Real: estabilidade de preços, credibilidade da política monetária e disciplina fiscal. O resultado dessa “volta” foi percebido rapidamente: a economia voltou a crescer (cresceu 1% ano passado), a inflação entrou em trajetória de queda (fechou em 2,95% em 2017), e o quadro fiscal melhorou (com ressalvas é claro).   

Na ótica “voltou para frente”, um dos destaques foi a aprovação do Teto dos Gastos, que por bem ou por mal, colocou em cena à questão fiscal. Do jeito que a coisa andava, estávamos caminhando para a insolvência ou para a inflação alta, ou ambos. Nos anos que antecederam a crise, criada pelo governo do PT, os gastos governamentais cresceram a um ritmo absurdo, pressionando a dívida pública e nos levando a uma deterioração fiscal alarmante. O freio de arrumação veio e trouxe clareza à realidade fiscal do país. A regra do teto foi considerada draconiana por alguns, mas, num primeiro momento, é necessária para dar previsibilidade à política fiscal.  

Os desafios permanecem, sem equacionar a questão previdenciária, no médio prazo, o problema fiscal não será resolvido. Como escrevi anteriormente, aumento nos impostos não deve ser descartado, mas sem uma mudança mais profunda no orçamento, rediscutindo  as vinculações orçamentárias das despesas obrigatórias, não haverá muito o que fazer no curto prazo. E isso é problemático. Precisamos entender que há limites até onde o Estado pode ofertar bens e serviços. 

Ainda na ótica “de volta para o futuro”, destaco a reforma trabalhista, a reforma do ensino médio, o Cadastro Positivo, e a retomada das privatizações, embora que ainda de forma tímida. O país precisará cada vez mais do setor privado, particularmente, no setor de infraestrutura, para retomar o crescimento sustentável. O reinício dos debates sobre a abertura comercial me parece promissor e necessário. 

O que mais me preocupa é o cenário eleitoral, incerto ainda sobre possíveis vencedores e obviamente quanto ao rumo que se dará à economia. Neste caso sim, a depender de quem vença as eleições, isto poderá significar uma volta ao passado ou uma volta rumo ao futuro. E aqui não tem vírgula que resolva. A poucos meses das eleições, vejo sinais ainda tímidos de propostas, precisamos de mais. 

(*) Professor de Economia da UFPE 


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