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Economia Observatório econômico: Educação

Publicado em: 05/02/2018 08:00 Atualizado em: 05/02/2018 08:05

Por André Magalhães

André Matos Magalhães é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
André Matos Magalhães é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Na semana passada o Ministério da Educação divulgou os dados do Censo Escolar 2017. O estudo traz uma série de dados interessantes, uns positivos, outros não. Algo importante é que estamos colocando as crianças nas escolas. De fato, desde o final do século passado, o Brasil tem feito esforços para trazer e manter as crianças nas escolas. Atualmente, 99,2% da população de seis a 14 anos frequenta escola, de acordo com dados do IBGE. Ou seja, fizemos um bom trabalho no ensino fundamental.


Não estamos indo bem, entretanto, na tarefa de manter os jovens na escola ao final do ensino fundamental e no ensino médio. Um dos problemas aqui é uma alta taxa de evasão (11%). Uma possível explicação para a evasão é que essa é uma fase na qual os jovens das famílias de baixa renda tendem a parar de estudar para ajudar na renda de casa, mas esse número reflete também problemas no ensino das escolas.

Estamos trazendo as crianças para a escola. Excelente! Mas há claramente ainda um problema da qualidade do ensino. Todos os testes internacionais indicam como não estamos indo bem. Há também claros indicadores de falta de infraestrutura. De acordo com o Censo Escolar 2017, apenas 41,6% das escolas de ensino fundamental possuem rede de esgoto; 52,3% têm apenas fossa. Apenas 38,9% das escolas municipais têm biblioteca! Parque infantil está presente em apenas 14% delas.

É preciso avançar de forma mais rápida na qualidade do ensino e na oferta de infraestrutura. Sem dúvida. Mas, talvez, seja possível, no curto prazo, replicar experiências simples, de baixo custo, que tem se mostrado efetivas em melhorar o desempenho dos alunos. Uma delas tem sido levada à frente pelo Banco Mundial em vários países, inclusive no Brasil, e se baseia no método de observação de sala de aula chamado Stallings (O livro de Barbara Bruns e Javier Luque, Great Teachers: How to raise student learning in Latin America and The Caribbean apresenta a metodologia e compara os resultados para diversos países).

A metodologia concentra-se em medir a utilização, pelo professor, do tempo da aula, separando os percentuais alocados em três categorias: atividades acadêmicas, arrumação da sala de aula e atividades não acadêmicas. Observar-se também os recursos disponíveis para apoiar a aprendizagem de seus alunos e a participação dos alunos durante as aulas. A ideia é que quanto maior o percentual de tempo gasto com atividades estritamente acadêmicas, melhor o desempenho dos alunos.

Os estudos para os países desenvolvidos indicam que as atividades acadêmicas representam cerca de 85% do tempo da aula. Nos estudos realizados no Brasil, esse percentual tem ficado em torno de 65%, enquanto aproximadamente 15% do tempo da aula é gasto com atividades não acadêmicas (o professor não está na sala ou está conversando com alguém sobre algo não relativo à aula, por exemplo).

O segredo, se é que se pode dizer assim, é que se use o tempo de aula para ensinar. É óbvio que não é simples assim, mas manter os alunos em sala, interessados e usar o tempo para ensinar, ajuda muito. Juntamente com isso precisamos qualificar e valorizar os professores, definir um currículo básico e investir na infraestrutura, entre outras coisas. Se há uma área que o Estado deve atuar é a educação (juntamente com saúde e segurança, sem dúvida). Estamos muito atrasados nisso e as nossas crianças e jovens é que pagam a conta. Isso precisa mudar.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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