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Observatório econômico Saudades do santinho

Publicado em: 08/10/2017 08:00 Atualizado em: 06/10/2017 20:18

Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Por Fernando Dias (*)
 
Se tem uma coisa que o atual governo Temer é pródigo é em polêmica e em escândalo, e nem o mais otimista dos editores de folhetim jamais sonhou que teria terreno tão fértil para seus editoriais. Evidente que em um terreno tão minado, florescem também as falsas polêmicas e os pretensos discursos salvadores da pátria. O recente debate sobre o fundo partidário ilustra bem estes casos onde uma aparente obviedade nada tem de óbvia.

Caso fosse feita uma pesquisa hoje, é provável que a maioria mais que absoluta dos brasileiros externaria objeção ao novo fundo partidário, pois afinal não “faz sentido” entregar quase dois bilhões de reais para “estes políticos fazerem campanhas as nossas custas”. Bem, eu diria que o pior é que faz todo o sentido. Foi-se o tempo em que bastavam alguns santinhos e caminhadas pela vizinhança para se fazer uma campanha.

O problema é, de fato, o custo da campanha e como com o passar do tempo e o avanço das mídias ele explodiu. Tome-se por exemplo a campanha presidencial de 2014, onde a candidata vitoriosa declarou gastos na ordem de 350 milhões de reais e o segundo colocado ficou por volta das 250 milhões. E isto sem o tal caixa 2 que o ministério público teima em dizer que foi considerável. O que explica este volume de gastos é tanto a necessidade de construir a imagem quanto a necessidade de mantê-la em um ambiente onde custa muito pouco para falar mal.

Mas é a imagem que vende eleição, não é o candidato? Observemos novamente a eleição de 2014, onde a candidata vitoriosa vivia um cenário de recessão econômica, vendeu a salvação e entregou...mais recessão. Observemos também o caso norte-americano, onde supostamente o grau de ilustração da população supera em muito o nosso. Lá eles elegeram Donald Trump contra todos os prognósticos que apontavam o radicalismo do então candidato como determinante para sua não eleição. Imagem é tudo!

Criar a imagem, contudo, é caro. Mesmo em eleições locais não basta mais o olho no olho, a conversa de pé de ouvido e o aperto de mão. É necessário acertar o visual, planejar o discurso e promover encontros para apresentar as ideias em grande estilo. Infelizmente este é, hoje, o formato que convence o eleitor e, também infelizmente, é o que se precisa adotar se o objetivo é vencer a eleição. Exceções à parte, a maioria dos candidatos terá de gastar porque o eleitor espera que ele gaste. E isto não é particularidade nossa, pois os americanos gastam muito mais que a gente, por exemplo.

Entra em cena a questão de como financiar. Usualmente se utilizam recursos advindos de pessoa física e jurídica, mas esta última que costuma ser o grande contribuinte ficou de fora por força de decisão do STF. Restou a contribuição privada, porém há várias restrições a ela mesmo que o candidato encontre colaboradores e, com isto, se compromete a viabilidade da campanha frente aquele candidato que disponha de fato de recursos próprios.

Em resumo, fazer o tipo de campanha que nosso eleitor quer sem contribuição das empresas e sem fundo público é, na prática, pior que voltar o voto de cabresto, em minha humilde opinião. O fundo é necessário, mas é preciso também ter cuidado com as regras de repartição para que estas não sejam utilizadas para criar condições desequilibradas entre os diferentes grupos que almejam representar seus eleitores. Creio que a verdadeira discussão deveria ser esta, como repartir o fundo de forma a garantir equidade, e não vociferar para poupar 2 bilhões deixando com isto a plutocracia tomar conta de um orçamento de 3,5 trilhões.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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