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OBSERVATÓRIO ECONÔMICO Esqueceram a política industrial

Por: Carlos Magno Lopes

Publicado em: 24/09/2017 08:00 Atualizado em: 26/09/2017 10:43

Carlos Magno Lopes é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Carlos Magno Lopes é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
As reformas econômicas recentemente anunciadas (tributária, política e da previdência) podem ajudar o Brasil a se redimir de seu passado obtuso. Caso aprovadas, desde que mantidos seus propósitos centrais, será um bom começo, mas é preciso superar vários outros dogmas, particularmente no tocante à política industrial.

O Brasil tem um compromisso indissolúvel com o seu passado, razão pela qual se esforça para revivê-lo. Esse pressuposto soa inspirador, mas não é. É mais fácil encontrar um polvo tocando piano que episódios épicos e grandiosos ao longo da história brasileira. Portanto, não é prudente olhar para trás e muito menos pensar em basear a construção do futuro como cópia do passado. Nesse contexto, as reformas econômicas recentemente anunciadas (tributária, política e da previdência) podem ajudar o Brasil a se redimir de seu passado obtuso. Caso aprovadas, desde que mantidos seus propósitos centrais, será um bom começo, mas é preciso superar vários outros dogmas, particularmente no tocante à política industrial.

As Políticas de Substituição de Importações (PSI) se esgotaram, com uma boa dose de benevolência, desde o governo Geisel (1974-1979). É verdade que mudaram a estrutura produtiva do país, porém a um custo macroeconômico gigantesco. Os anos 1980, como se sabe, foram perdidos. A partir de 1990 (governos Color, Itamar e Fernando Henrique) as iniciativas de liberalização da economia e redução do tamanho do Estado prosperaram. Desde então, contudo, as PSI ressurgiram como uma panaceia, justificadas como essenciais para a geração de renda e emprego, explicação que serve para justificar qualquer coisa. Setores “estratégicos” foram definidos por especialistas de plantão, além de lobistas, e passaram a receber as conhecidas benesses governamentais (crédito favorecido, incentivos fiscais, desonerações tributárias, etc.). O resultado foi pífio. Ignoraram a globalização e o bom desempenho da indústria em outros países, onde políticas horizontais predominaram (educação, infraestrutura, abertura da economia e mercado de capitais, por exemplo), ao invés de políticas específicas para setores industriais, possibilitaram a inserção competitiva, em particular do leste e sudeste da Ásia, nas cadeias globais de valor, enquanto o Brasil insistiu na concepção de promover indústrias completas, verticais, como nos tempos de Juscelino Kubitschek. Era o renascimento do passado, convivendo com a fragmentação da produção nos mercados globais. Os especialistas do BNDES criaram a política de “campeões nacionais”, empresas minunciosamente escolhidas a dedo, que se tornariam multinacionais brasileiras gigantes, presentes em todos os quadrantes do mundo. O mais refinado e acabado exemplo desse tipo de política é a J & F, a empresa dos irmãos Batista, que dispensa comentários. Eis a política industrial.

Na política agrícola, a criatividade dos governos foi quase nula. Limitaram-se a adotar políticas que os países que deram certo praticam. Resultado: levou duas décadas para o Brasil se transformar em uma potência agrícola. Perguntará o indignado leitor: “Porque não fizeram o mesmo com a política industrial?”. Na agricultura, não havia sábio para determinar os setores “estratégicos”, quem definia o que, quando e quanto produzir sempre foi o produtor, orientado pelas condições de mercado. Na indústria, as decisões passavam pela avaliação de especialistas e pela força dos lobbies, os quais, em perfeita harmonia, definiam os setores “escolhidos”, isto é, os privilegiados. Para estes, os brioches, para os demais os pães. O mercado, nesse caso, é só mais um detalhe.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.



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