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Observatório econômico O futuro da educação

Publicado em: 11/09/2017 08:00 Atualizado em: 08/09/2017 20:26

Por Marcelo Eduardo Alves da Silva (*)

Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
Estudos recentes evidenciam a importância da educação para o desenvolvimento de uma nação. Porém, focar apenas na quantidade é um equívoco.

Todos concordamos que precisamos expandir o acesso à educação. Uma questão importante é como fazer isso em menor tempo, ao menor custo e com maior eficácia. Nos últimos anos, testemunhamos uma expansão do número de cursos e matrículas no ensino superior, mas a pergunta que me vem à mente é se fizemos isso da maneira correta. Parte desta expansão é devida ao crescimento da educação à distância – EAD e os números são impressionantes.

Em 2005, existiam 189 cursos à distância no Brasil, de acordo com o Censo da Educação Superior do INEP. Esse número alcançou 1.473 cursos em 2015 (um aumento de 679% no período). Em termos de matrículas, os números são ainda mais impressionantes. Eram 114 mil matrículas, em 2005, e chegaram a aproximadamente 1,4 milhão, em 2015, um aumento de 1.116%.

Do lado da oferta, apesar do custo inicial para se montar a infraestrutura necessária e os próprios cursos, uma vez realizados, os custos tendem a cair enormemente à medida em que as matrículas aumentam. São essas ”economias de escala” que têm atraído os olhares e interesses de instituições públicas e privadas. Do lado da demanda, o EAD se constitui como uma opção para aqueles impossibilitados de fazer cursos presenciais. E isso pode explicar, o aumento no número de matrículas.

Embora interessante, a expansão não pode ser um fim em si mesma, precisamos avaliar a qualidade do que está sendo entregue. Obviamente isto não se restringe apenas à modalidade EAD. Não há dúvidas de que são impressionantes os números, mas não podemos nos deixar levar apenas pelos “números”. A evidência informal, conversando com colegas que oferecem essa modalidade, é que quando comparados aos cursos presenciais, o desempenho dos  alunos é bem pior. Mas isto poderia ser causado por um viés de seleção, apenas alunos ruins procurariam cursos online. E é aqui onde estudos mais formais podem nos ajudar.

Bettinger e coautores, no estudo “Virtual Classrooms: How online college courses affect student sucess”, publicado neste mês na American Economic Review, analisam dados de mais de 230 mil estudantes matriculados em uma universidade que oferece tanto cursos online quanto presenciais. Ao comparar o desempenho dos alunos, que têm acesso às duas modalidades, foi possível estimar os impactos da modalidade EAD. Os resultados mostram que fazer um curso online reduz o desempenho dos alunos em termos de notas e permanência no curso quando comparados aos desempenhos destes mesmos alunos ao realizarem um curso presencial. Quais canais explicam isso ainda é uma questão em aberto.

Outros estudos revelam que alunos vindos de universidades que oferecem a maior parte de seus cursos à distância, acabam sendo preteridos no mercado de trabalho em relação a alunos vindos de universidades que oferecem, em sua maioria, cursos presenciais. Como disse, ainda precisemos entender os canais que explicam esses resultados, mas me parece clara a necessidade de pensar sobre o que estamos entregando e como mudar isso. Caso contrário, iremos bem na quantidade, mas naquilo que é mais importante, iremos muito mal. Formaremos um universo de “universitários funcionais”.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

TAGS: obseconomico

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