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Observatório econômico E a inflação?

Publicado em: 28/05/2017 08:00 Atualizado em: 26/05/2017 18:09

Por Fernando Dias (*)
 
Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Em meio a atual crise política e econômica o foco sobre a inflação vem perdendo força a cada dia, ficando em segundo plano nas discussões cotidianas. Podemos deixá-la de lado? Os formuladores de política econômica estão deixando ela de lado? De fato, não e nem poderiam. Embora as projeções para a inflação deste ano e, dos próximos dois, estejam sendo atualmente previstas pelo mercado em torno de 4% ao ano, a inflação é uma questão tão séria em política econômica que os gestores nunca podem se esquecer dela, e particularmente no Brasil é que não podem mesmo, pois nosso passado nos condena.


Inflação é um termo que se refere simplesmente à variação do nível geral de preços de um período para o outro, e é tipicamente positiva em qualquer economia, em função da expansão da demanda induzida pelo crescimento real. Positiva, porém baixa, registre-se. A economia clássica trata a inflação como um fenômeno de natureza monetária e cabe usualmente ao Banco Central traçar estratégias para contê-la em uma trajetória bem-comportada.

E por que a intervenção se ela se refere a um fenômeno natural da economia? Porque a inflação alta apresenta custos elevados para a coordenação da atividade econômica e entende-se que é mais eficiente agir de maneira proativa em relação a ela. Dentre estes custos ao menos três se destacam: I) o aumento da incerteza sobre fluxos de renda futuros, reduzindo o investimento presente, II) a redistribuição arbitrária da renda da população pela diferença no acesso a títulos remunerados e, III) a distorção nos preços relativos, levando tanto a uma redução no investimento presente quanto à ineficiência na escolha dos consumidores. Não faltam argumentos para se tratar com a questão da inflação.

O Brasil é especial? De certa forma sim, primeiro porque somos um país que tem tradição de inflação alta desde os tempos do império. Segundo, porque na década de 1970 inventamos uma tal correção monetária que alimentou uma espiral preços-salários nunca vista na história econômica. Somos um raro caso de país que viveu hiperinflação sem ruptura. Considere, por exemplo, alguém que nasceu o começo da citada década onde a moeda era na época o Cruzeiro. Esta pessoa viu em 1986 a moeda virar Cruzado e perder três zeros, e já em 1989 virou Cruzado novo e perdeu mais três zeros. Não passou um ano e, em 1990, a moeda vira Cruzeiro de novo e já em 1993 vira Cruzeiro Real perdendo de novo três zeros. Acabou? Não, pois em 1994 passa a ser chamar Real e se divide o Cruzeiro Real por 2.750.

Em síntese este indivíduo hoje observa que uma moeda de R$ 1,00 é equivalente na moeda de quando ele nasceu a Cr$ 2.750.000.000.000,00 (2 trilhões e setecentos e cinquenta bilhões de cruzeiros) e isto é provavelmente maior que a base monetária daquele ano. Não estamos sequer calculando a inflação oficial, apenas vislumbrando a mudança do padrão monetário. A instituição da correção monetária aplicada a preços e salários foi o que permitiu isto acontecer de forma razoavelmente ordeira, mas criou uma cultura que ainda perdura no país onde as pessoas aprenderam a negociar em termos de índices de preço e não em indicadores reais de desempenho.

Os repiques inflacionários dos governos FHC e Dilma e uma política monetária que há décadas nos mantém na lista dos países com as maiores taxas reais de juro do mundo sugerem que inflação no Brasil é um problema e que deve se manter a atenção mesmo quando ela se mostra baixa e contida. Felizmente, salvo infelizes e recentes exceções, nossos formuladores de política econômica ainda vêm seguindo esta linha de ação.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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