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Observatório econômico Por que não optar por crescimento?

Publicado em: 22/05/2017 08:00 Atualizado em: 25/05/2017 16:49

Por Fernando Dias (*)

Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Em tempos de recessão prolongada e desemprego nas alturas as pessoas comuns devem se perguntar porque é ideia fixa dos formuladores de política econômica promoverem mais arrocho e os deixarem na míngua. Será que os economistas são loucos ou predispostos a propagar a maldade pela humanidade? São quase 14 milhões de desempregados já, a inflação está em queda livre e o governo só fala em cortar gastos. Deve ter alguma errada por aí, ou eles não sabem de nada ou se sabem estão escondendo a informação.


Em verdade a literatura econômica nasceu já pensando em crescimento, ou na falta dele, lá fins de 1700 com Adam Smith. Desde aquele tempo nós economistas aprendemos muito sobre o que é este fenômeno, como ele se apresenta e de que forma nós podemos boicotá-lo, mas nosso conhecimento sobre como provoca-lo ainda não ésuficiente para que possamos produzir alguma coisa como um "manual do crescimento".

Dentro deste conjunto de conhecimento que produzimos e notadamente no
estudo das economias como um todo, que chamamos macroeconomia, uma de
nossas maiores contribuições é mostrar que coisas aparentemente óbvias não tem nada de óbvias, e o fazemos com tal elegância que muitas vezes poucos nos compreendem. Economista via de regra não sabe se comunicar e, como dizia o saudoso Chacrinha, "quem não se comunica se trumbica".

A forma como se lida com situações de recessão ou de inflação alta é um bom exemplo disso. Tipicamente os que as correntes mais clássicas da economia sugerem termina sendo o oposto do que as pessoas acreditam que deveria ser feito, e não raro isto encontra eco em proposições políticas classificadas de forma generalizada como populistas. No Brasil não é diferente, vejamos nossa situação recente.

Desde o início de 2014 os analistas perceberam que os temores de uma retração se tornaram reais, e ela vinha acompanhada de uma forte alta na inflação. O problema, para a grande maioria dos analistas, é que após puxar o crescimento nos anos anteriores o governo entrou em déficit continuado e ao financiar isto emitindo dívida pública puxou os juros para cima. Só por isso já temos retração nos investimentos porque o custo de oportunidade do empreendedor cresce, e há um efeito de alta nos preços porque o custo do capital cresce. Para piorar, este
impulso se somou a um movimento também de alta nos preços que vinha se
acumulando em função do crescimento continuado da economia ao longo
dos últimos 10 anos.

Como o governo perdeu a capacidade continuar puxando a economia a alta
dos preços se encontrou com a redução da atividade econômica. Normalmente a redução nos gastos públicos para equacionar a dívida tenderia a reequilibrar o problema, mas a ação adotada foi tentar a todo custo, de endividamento a maquiagem fiscal, manter a trajetória da economia e aí a maioria dos analistas concordam que a vaca foi para o brejo.

A manobra falhou, a retração aumentou e os preços também em função do efeito sobre os juros do endividamento público somado a péssimas expectativas formadas pelos agentes. E agora? Agora tem de resolver a dívida pública, enquanto ela não estiver equacionada não há como termos estabilidade preços e juros baixos para crescer de forma consistente. As propostas de 9 entre 10 economistas de que precisamos readequar o perfil da dívida pública para que ela não volte a pressionar os preços faz todo o sentido para termos crescimento, mas
não agora, e sim no futuro quiçá próximo. E o 10º economista? Este aposta que expansão do gasto público multiplica de tal forma a renda que o efeito sobre a arrecadação paga a dívida contraída rapidamente. É uma aposta arriscada, não se conhece caso em que alguém tenha ganho com ela embora não sejam poucos os que a sugira como o elixir milagroso que nos salvará a todos.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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