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Observatório econômico O Fantástico Mundo de Bobby

Publicado em: 01/05/2017 08:00 Atualizado em: 28/04/2017 19:04

Por Marcelo Eduardo Alves da Silva (*)

Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
As recentes reações contra, ao menos, a ideia de reformas me parecem em alguns casos produzidas ou por gente que vive num mundo fantástico ou por gente defendendo interesses corporativistas.


Anos atrás, um desenho animado me chamava atenção pela capacidade do protagonista – Bobby – de imaginar coisas fantásticas. Bobby fazia perguntas difíceis e usava de sua fértil imaginação para interpretar as respostas que o pai lhe dava. A “graça” era exatamente ver a capacidade criativa de Bobby entrar em ação. Lembrei disso pela impressão que tenho de que muitos dentre nós vivem numa espécie de “Bobbylândia” – onde basta querer para que as coisas se tornem realidade.

Temos todo o direito de não gostar de detalhes específicos das propostas que têm sido discutidas, mas não dá para ignorar o fato de que precisamos fazer reformas. Na questão previdenciária, como já escrevi, não é uma questão de ideologia, mas de aritmética. Não dá para manter o atual nível de benefícios e, em alguns casos, privilégios sem que isto signifique ou reduzir despesas em outras áreas e/ou aumentar impostos.

Um dos conceitos mais mal compreendidos é o que os economistas chamam de restrição orçamentária intertemporal, a ideia de que famílias e governos só podem gastar aquilo que esperam receber ao longo da “vida”. Podem até gastar um pouco mais do que recebem em momentos específicos, mas, para isso, terão de sacrificar gastos futuros. Na “Bobbylândia” isto não existe, basta querer. Não há restrição orçamentária intertemporal, mas na vida real, infelizmente, não temos como escapar disto e isto significa que precisamos fazer escolhas. E elas têm consequências.

No Brasil, corporações do setor público e segmentos empresariais mais fortes têm conseguido obter privilégios em detrimento do resto da sociedade. No primeiro caso, são aposentadorias especiais (como a paridade e integralidade) e em alguns casos salários surreais, criando verdadeiros marajás do serviço público. No setor privado são benefícios fiscais a setores específicos, empréstimos subsidiados, perdões de dívida tributária, e a lista não para. O que isto tem a ver com a restrição orçamentária? Tudo. A restrição nos diz que se gastamos mais com uma coisa, precisaremos retirar de outras. É a velha história do cobertor curto.

Gastamos muito com idosos e gente que nem se enquadra nesta categoria no Brasil. Mais da metade do orçamento público vai para pagamento de pensões e aposentadorias. Com o envelhecimento da população, esses gastos tendem a subir. E é aí onde entra a restrição orçamentária intertemporal, mais gastos com aposentadorias e pensões significam menos gastos com saúde, educação, pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura, etc. E menos gastos nestas áreas significam que nos tornaremos ainda mais pobres do que somos hoje. Não podemos ter tudo o que queremos, precisamos fazer escolhas. Precisamos mexer nas nossas “vacas sagradas”. Caso contrário, estaremos condenando gerações de crianças e jovens à pobreza para manter os privilégios de alguns, muitos dos quais se dizem “defensores dos pobres”. Como alguém disse recentemente: “precisamos defender os pobres dos seus defensores”.

(*) Professor de Economia da UFPE.

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