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Observatório econômico Delação do fim do mundo

Publicado em: 16/04/2017 08:00 Atualizado em: 13/04/2017 19:35

Por Marcelo Eduardo Alves da Silva (*)

Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
A chamada “delação do fim do mundo” revelou o que muitos já sabiam ou ao menos suspeitavam: as relações nada republicanas entre empresas e agentes públicos. Resta saber se estamos diante do “fim do mundo” ou do começo de uma nova história. Tudo dependerá de como responderemos a estes episódios.  


A operação Lava Jato e outras correlatas têm nos mostrado evidências de como empresas e obras públicas foram apropriadas por pessoas e partidos com o único interesse de desviar recursos para seus interesses mais escusos. Grandes obras como a hidroelétrica de Jirau, a petroquímica de SUAPE, a usina nuclear de Angra, as obras olímpicas, as arenas da Copa, etc. atraíram interesses de empresas e de políticos ávidos para obter vantagens indevidas. Os resultados temos visto: obras superfaturadas e um enorme prejuízo para a sociedade. Várias lições podem ser aprendidas com estes episódios, mas permitam-me focar em apenas algumas.

A primeira é que sempre existirá o incentivo para que agentes privados tentem obter privilégios na arena política. Para isso empresas recorrem ao “lobby” ou a meios ilícitos como pagamento de propinas junto a políticos, formuladores de políticas públicas, judiciário, etc. A teoria econômica chama isso de “rent seeking”. De antemão, não há nada de errado com o “lobby”, atividade na qual grupos de interesse tentam influenciar a formulação de leis, políticas públicas, etc. O problema é quando isso é feito em detrimento das boas práticas de competição ou ainda quando ocorre em prejuízo da sociedade.

A segunda lição é que ao permear praticamente todas as colorações partidárias e ideológicas, esses episódios de corrupção nos ensinam que não se trata de quem está no poder, mas da fragilidade de nossas instituições. Mudam-se as pessoas, mas os incentivos permanecem. Se não mudarmos os incentivos e isto passa por mudar ou fortalecer nossas instituições, correremos o risco de ver episódios como esses se repetirem num futuro próximo. Lógico que renovar o congresso, os governos, as assembleias, as prefeituras é sempre importante, mas não será isso que determinará que os políticos se comportarão como o desejado. Isso se chama risco moral, o incentivo do agente se comportar de maneira indesejada do ponto de vista do principal (neste caso, a sociedade).

As investigações sobre os casos de corrupção precisam avançar e rápido, o STF e justiça comum devem dar o exemplo, aplicando punição dura seja para quem for o envolvido, e a sociedade deve continuar pressionando o Congresso a aprovar leis mais duras contra a corrupção. Precisamos mostrar que somos uma república de verdade, onde todos devem ser iguais perante a lei, não uma republiqueta de bananas, onde a lei vale apenas para alguns, enquanto outros gozarão da “prisão” em suas casas luxuosas usufruindo dos privilégios da corrupção.

A última lição é que precisamos ter o cuidado para não elegermos mais um “Sassá Mutema” – um salvador da pátria – achando que mudando as pessoas, mudaremos o país. Precisamos mudar nossa mentalidade. Nossos políticos são um reflexo do que somos como sociedade. Enquanto aceitarmos “pequenos” atos de corrupção e de desrespeito às leis no nosso dia-a-dia, continuaremos a presenciar os “grandes” atos de corrupção que têm nos assombrado por toda nossa história. Espero que a tal delação do “fim do mundo” seja apenas o começo de uma nova era.

(*) Professor de Economia da UFPE.

TAGS: obseconomico

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