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Observatório econômico Abertura comercial

Publicado em: 06/02/2017 08:00 Atualizado em: 04/02/2017 14:30

Por Marcelo Eduardo Alves da Silva (*)

Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
Marcelo Eduardo Alves da Silva é professor de Economia da UFPE. Foto: Paulo Paiva/DP
Acontecimentos recentes mundo afora têm levado muitos a questionar a ideia de que abertura comercial traz benefícios. Embora vencidos no debate intelectual há muito tempo, ao menos desde o século 18, ideias mercantilistas ainda permeiam o imaginário popular e político.


A saída do Reino Unido da União Europeia, a eleição de Trump e o surgimento de movimentos nacionalistas mundo afora  têm levado muitos a questionar a ideia de que a maior abertura comercial (e a imigração) traria benefícios. Embora vencidos no debate intelectual há muito tempo, ao menos desde o século 18, ideias mercantilistas ainda permeiam o imaginário popular. Os mercantilistas acreditavam, assim como muitos hoje, que o comércio internacional seria um jogo de “soma zero”, ou seja, se um país ganhou no comércio (ao exportar seus produtos) é porque outro saiu perdendo (ao importar mercadorias). Nada mais equivocado.

Adam Smith, David Ricardo e tantos outros, ao longo dos tempos, mostraram, na verdade, que o comércio internacional poderia ser um jogo do tipo “vence-vence”, onde todos ganhariam. É de Ricardo a proposição de que mesmo que um país tenha vantagens absolutas na produção de todos os bens, ainda assim valeria a pena realizar comércio. E a lógica disto é baseada na ideia de que um país, assim como um indivíduo, possui vantagens comparativas – é melhor fazendo certas mercadorias do que outras. E ao se dedicar mais à produção do bem onde é mais eficiente, a produção e o consumo total seriam maiores  do que se a economia se fechasse.

Além disto, maior abertura permite aos consumidores domésticos acesso a uma maior variedade de bens produzidos no exterior a um preço mais baixo. Ela também afeta empresas locais pela possibilidade de comprar insumos mais baratos ou ainda máquinas e equipamentos mais eficientes a um custo mais baixo. Maior abertura também impõe maior disciplina, imposta pela concorrência externa. A exposição ao comércio internacional possibilita ganhos de produtividade, tornando as firmas mais competitivas seja pela adoção de melhores tecnologias ou pelo uso de melhores práticas gerenciais e comerciais. Um efeito imediato é que, na ausência de distorções, sobrevivem as mais aptas (aquelas com maior produtividade) e isto tem um efeito de aumentar a produtividade total da economia.

A maior parte dos economistas concordaria que maior abertura comercial tem mais efeitos positivos do que negativos (o que chamamos de efeitos de equilíbrio geral), o problema é que os benefícios ou a percepção deles são mais difusos, enquanto os prejuízos são mais concentrados. E são os setores que mais perdem, que tipicamente conseguem levar adiante suas demandas. Ao tentar “proteger” firmas domésticas da maior competição externa, os prejuízos são sentidos – difusamente – por consumidores e pela economia como um todo, que vê sua produtividade total cair pela manutenção de firmas ineficientes. O Brasil é um país com pouca exposição ao mercado internacional, isto explica um pouco a nossa baixa produtividade, o custo mais alto e a qualidade inferior de alguns de nossos produtos, e o nossa quase irrelevância nas cadeias globais de produção. Se quisermos ser relevantes na economia global, o primeiro passo é implementar medidas que nos tornem mais abertos ao mundo. O ruído será grande, mas os benefícios serão maiores.

(*) Professor de Economia da UFPE.

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