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Observatório Econômico Queremos o modelo nórdico? * Por Fernando Dias

Publicado em: 28/11/2016 07:00 Atualizado em: 01/12/2016 16:16

Fernando Dias é professor de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é professor de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Em temos de recessão, inflação e pacotão todas as correntes ideológicas se voltam a oportunidades não antes trilhadas, mas que, em tese, podem oferecer os resultados pretendidos sem o custo que está se vislumbrando com as propostas oficiais. No nosso caso em particular a proposta oficial é a PEC 55, que congela os gastos do governo federal em níveis reais a partir de 2017 por 10 anos, prorrogáveis por mais 10. E quais são as propostas alternativas?

Alternativa, tecnicamente falando, não foi de fato oferecida nenhuma por qualquer corrente. Esboços de alternativa surgiram algumas, como a versão repaginada do calote na dívida (agora interna) e a reedição da teoria do multiplicador do gasto do governo que prega o aumento do gasto público como saída para a recessão. A maioria, para não dizer a quase totalidade, está sendo oferecida pela dita esquerda brasileira que, ao que parece, nega total ou parcialmente a responsabilidade pela gestação da crise em que estamos.

Sem entrar no mérito de quem causou a crise, ou na viabilidade das propostas alternativas e mesmo seu grau de exotismo, cabe reparar que se tornou recorrente citar os países nórdicos como o exemplo de que permanecer na linha anteriormente vigente seria o caminho mais adequado para o Brasil. É fato conhecido na literatura econômica que estes países lograram, ao longo de quase um século de social-democracia, apresentarem hoje uma interessante combinação de economia desenvolvida com amplo estado de bem-estar social provido por um sistema estatal de segurança social.

Por se tratar de um caso quase secular em economia não faltam estudos sobre o assunto tentando explicar de que maneira eles conseguiram isso, e como copiar para que este modelo possa ser adaptado para outras economias. Para a infelicidade geral do mundo a maioria destes estudos conclui que as particularidades destas economias explicam de tal forma o modelo utilizado que é muito difícil, senão impossível, replicar a experiência como um todo. Mas há muito o que aprender.

Ao contrário do que se pensa, mesmo que a opção pela social-democracia venha dos anos 1930, o sucesso que vemos e cobiçamos é recente, vem dos últimos 20 anos. Todos os países escandinavos passaram por severas crises nos anos 1980 e 1990, em diferentes momentos, e de forma geral todos reorganizaram suas economias a partir de uma combinação entre disciplina fiscal, promoção do livre mercado, flexibilização do mercado de trabalho, redução de carga tributária e, para fugir da ortodoxia, promoção do bem-social.

A principal razão do sucesso deles, ao que parece, reside no pacto social entre estado e o indivíduo pela busca da transformação dos ganhos de uma economia francamente capitalista em benefícios que permitem uma ampla rede de segurança social. As economias fortes destes países, e altamente competitivas, permitem gerar receita suficiente para o Estado de maneira a sustentar o sistema como um todo. Não obstante, todos praticam disciplina fiscal rigorosa, até mesmo a Noruega que dispõe do maior fundo soberano do mundo e que beira o trilhão de dólares.

A disposição em ter os bônus do sistema nórdico, mas ao mesmo tempo rejeitar o argumento da disciplina fiscal, da promoção do livre mercado, da flexibilização do mercado de trabalho, da adequação da carga tributária, da busca incessante pela competitividade aliando trabalhadores, governo, patrões e sindicatos, parece um contrassenso. É certo que todos querem escutar que terão benefícios e que não precisam pagar a conta, mas fora do palanque isto não produz efeito algum. Não adianta protestar, ocupar, fazer revolução e depois ir para casa ouvir sobre a vaca das divinas tetas. Não se pode distribuir aquilo que não existe.

(*) Professor de Economia da UFPE.



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