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Observatório econômico Questão de fé

Publicado em: 22/09/2016 08:00 Atualizado em: 21/09/2016 19:53

(*) Por Carlos Magno Lopes
 
Carlos Magno Lopes é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Carlos Magno Lopes é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
O aumento excessivo dos empréstimos com a economia em recessão, além de impor uma forte arrumação nos bancos oficiais, indica o esgotamento do modelo que tem o crédito oficial e o intervencionismo estatal como o motor do crescimento. Parece que os economistas do governo passado faltaram às aulas sobre mercados e produtividade.


A concessão de crédito envolve a participação de dois distintos personagens, o tomador e o emprestador. Regra geral, critérios diversos são utilizados para determinar o enquadramento ou não do empréstimo às normas bancárias, as quais objetivam avaliar, em última instância a capacidade de pagamento do tomador. Entre amigos, compadres e parceiros, evidentemente, os critérios e condições de pagamento são outros, bem mais generosos. Assim, quando a dívida não é paga, sua renegociação dá-se automaticamente em condições vantajosas para o devedor. Afinal, trata-se de uma ação entre parceiros e camaradas.

Em resposta à crise financeira de 2008 e 2009 houve uma forte contração do crédito bancário, dado o ambiente de acentuada incerteza dominante. O problema é que sem crédito, a probabilidade de qualquer política anticíclica ser bem sucedida é bem próxima de zero. Era, portanto, imprescindível, dentre outras medidas, prover liquidez à economia para incentivar a demanda, principalmente por meio do consumo das famílias, uma vez que investir em meio à recessão é temerário, ainda que os preços dos ativos caiam significativamente. Por essa razão, foram muitos os países que baixaram os juros e incentivaram o crédito. No caso brasileiro, dada a substantiva participação das instituições financeiras oficiais federais na oferta de crédito, essa tarefa foi executada com mais facilidade e rapidez, pois não dependia da atuação de bancos privados. Os bancos públicos, portanto, abriram a torneira do crédito, contribuindo decisivamente para atenuar os efeitos da crise financeira internacional sobre a economia brasileira. Superado o período mais agudo e tenso da instabilidade econômica, era de se esperar que a exposição dos bancos públicos federais aos riscos de crédito fosse gradualmente reduzida. No entanto, não foi isso o que ocorreu. Com efeito, dados do Bank for International Settlements (BIS) mostram uma situação insustentável, mantida a atual inércia e desempenho da economia. No auge da crise, 2008-2009, a relação crédito para o setor não financeiro/PIB foi de 49,8% e 50,3%, quando o PIB cresceu 5,1% e -0,1%, respectivamente. É importante destacar que, em 2010, o crescimento de 7,5% do PIB já indicava que o pior da crise havia passado.  Eis que em 2014 e 2015, com o PIB crescendo 0,1% e -3,8%, o percentual crédito/PIB alcançara extraordinários 71,9% e 72,6%, respectivamente, graças ao vertiginoso aumento do crédito oficial, cujo efeito sobre o crescimento parece ter se arrefecido, ao mesmo tempo em que o setor privado agradeceu os generosos subsídios.

O fato é que o aumento excessivo dos empréstimos com a economia em recessão, além de impor uma forte arrumação aos bancos públicos, indica o esgotamento do modelo que tem o crédito oficial e o intervencionismo estatal como o motor do crescimento. Há outros caminhos. Até parece que os economistas do governo passado faltaram às aulas sobre mercados e produtividade. Dessa vez o curioso leitor não tem pergunta, foi tudo esclarecido.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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