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Observatório econômico Risco e retorno em economias emergentes

Publicado em: 29/08/2016 08:00 Atualizado em: 26/08/2016 23:20

Por Fernando Dias (*)

Fernando Dias é professor de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é professor de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Não fosse a incerteza que ainda ronda nossa economia poderíamos estar recebendo muito mais capital de risco, quem sabe até reverter aquele fluxo que foi embora com a crise de 2008 e as incertezas que passaram a se formar por aqui.


Nas últimas semanas estamos acompanhando um movimento de queda do dólar, que lentamente se aproxima das cotações de dois anos atrás. Por trás deste movimento os analistas de mercado argumentam que há uma combinação de melhora das expectativas, elevação do saldo da balança comercial e entrada de capital de risco em função do Brexit. Afinal o que é este capital de risco e o que ele está fazendo por estas paragens?

Não é de hoje que o comportamento do câmbio é atribuído a estes tais fluxos de capitais de risco, que inclusive foram responsabilizados não faz tanto tempo por um longo período de valorização do Real. Estes capitais de risco nada mais são que capitais financeiros disponíveis para investimentos globais, quase sempre gerenciados por fundos privados e públicos, e que buscam justamente oportunidades para os detentores das cotas destes mesmos fundos.

Os administradores destes recursos vivem sempre em um dilema, onde investir de forma a equilibrar retorno e risco para seus clientes. Não é pouco dinheiro, longe disso, são centenas de bilhões de dólares indo de um lado para o outro em busca de rentabilidade. Onde investir? Usualmente se considera ativos reais ou ativos financeiros. Ativos reais é o que a maioria das pessoas entende por investimento, são plantas industriais, prédios, estradas, elementos tangíveis. Ativos financeiros são generalizadamente títulos públicos ou privados que pagam juros. Estes últimos costumam ser preferidos porque tem mais liquidez, ou seja, é muito mais rápido se livrar deles e levar seu dinheiro para outro lugar.

E porque países emergentes, como o Brasil, são atrativos para estes fundos? Países emergentes tem características interessantes para quem está disposto a arriscar seu dinheiro, tais como mercados potenciais, necessidade de divisas, baixa taxa de poupança e inflação recorrente. Os dois últimos são bem emblemáticos porque a baixa taxa de poupança requer, para a manutenção de uma elevada taxa de investimento, recorrer a capitais externos e, com isto, usualmente tanto a legislação permite o fluxo de capital como dá alguma garantia para a remessa de lucro. Já a inflação recorrente significa que o país provavelmente opera com juros elevados sobre a dívida pública.

Um país como o Brasil, que combina todas estas características, é um alvo potencial dos capitais de risco. O capital pode entrar e sair em busca, por exemplo, dos títulos da dívida brasileira que pagam uma das mais altas taxas de juros do mundo e com um excelente histórico de solvência. Podem também entrar atrás de negócios na área de infraestrutura, que é muito deficiente em nosso país. É arriscado? Claro que sim, mas os riscos podem ser calculados e comparados as alternativas no resto do mundo.

E o Brexit tem o que haver com isso? A Inglaterra é historicamente um porto seguro para capitais, com baixa remuneração e baixo risco. Sair da União Europeia torna a movimentação de capitais mais difícil (mais cara) e isto leva o gestor a rever oportunidades. Nós somos uma das maiores economias do mundo, com uma das maiores taxas de juros do mundo e com excelente histórico de solvência, somos sempre considerados como novo local de repouso deste capital. Não fosse a incerteza que ainda ronda nossa economia poderíamos estar recebendo muito mais capital de risco, quem sabe até reverter aquele fluxo que foi embora com a crise de 2008 e as incertezas que passaram a se formar por aqui. E o investidor? Ele quer dinheiro no bolso, se quem vai pagar é a Rainha da Inglaterra ou o Presidente do Brasil isto de fato não tem nenhuma relevância.

(*) Professor de Economia da UFPE.

TAGS: obseconomico

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