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Observatório Econômico O Canto da Sereia

Publicado em: 18/07/2016 07:30 Atualizado em: 19/07/2016 17:58

Por Marcelo Eduardo Alves da Silva*
 

Em poucas semanas terá início as Olimpíadas do Rio de Janeiro e para muitos isto tem sido um motivo de orgulho e de grande expectativa. Não tenho dúvidas da beleza e da importância do evento, mas uma pergunta que tem sido feita com certa frequência, não apenas no caso do Brasil, é se os benefícios de sediar um megaevento como as olimpíadas superam os seus custos. No caso do Rio de Janeiro, o custo planejado com o evento já passa dos R$ 39 bilhões e deve custar mais se adicionarmos outros custos com segurança, transporte, saúde, etc. Para se ter uma ideia, isto é maior que o orçamento anual da prefeitura do Rio de Janeiro. Mas quais serão os benefícios?

 

Tipicamente, para levar as cidades (e países) a se interessarem em sediar as Olimpíadas ou a Copa do Mundo de Futebol, o Comitê Olímpico Internacional e a FIFA prometem um cenário belo, de melhorias na infraestrutura, de legados positivos para as cidades, de aumento no turismo, etc. O custo é alto sim, dizem os dirigentes, mas os benefícios que se seguem em muito superam os elevadíssimos custos para sediar tais megaeventos. Será mesmo?

Às vezes fico pensando se isto não se trata de um "canto da sereia" moderno, que caímos com facilidade sem avaliarmos os custos da empreitada. Tomando a última Copa do Mundo como exemplo, fico na dúvida se, de fato, os benefícios superaram os custos. Fico me perguntando qual o legado que a Copa do Mundo no Brasil nos deixou? Melhorou a vida da população? A nossa infraestrutura urbana, de fato, melhorou ou ficou apenas na propaganda? As arenas nos legaram algo positivo ou são apenas "elefantes brancos"

 Descontando a ineficiência e outros motivos não republicanos, que sempre se mostram presentes quando se trata de promover grandes eventos, a literatura econômica tem sido predominantemente desfavorável à ideia de que sediar um megaevento como uma copa do mundo ou olimpíada tem algum efeito sobre o crescimento econômico da cidade ou país sede. E porque as cidades e países insistem em sediar megaeventos? A resposta tipicamente dada é porque as pessoas gostam. O problema é que governar também significa fazer escolhas que nem sempre agradam aos constituintes no curto prazo, mas que trarão benefícios no longo prazo.

Não tenho dúvidas que sediar um megaevento faz as pessoas mais felizes, ao menos antes e durante o evento, mas não estou tão certo quanto à prioridade disto, particularmente em um país com tantos desafios. Críticos dizem que nós, economistas, prestamos muita atenção no dinheiro e ligamos pouco para a felicidade das pessoas. Isto pode até ser verdade, mas num mundo com recursos escassos e com prioridades de sobra, somos inexoravelmente  obrigados a pensar sobre custos e benefícios. E o que fazer agora? Bem, agora não há mais nada a se fazer, senão torcer para que não passemos vexame novamente e quem sabe possamos ganhar algumas medalhas.

* Professor de economia da UFPE. Email: marcelo.easilva@ufpe.br



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