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Observatório econômico Expectativa e preços

Publicado em: 02/06/2016 08:00 Atualizado em: 02/06/2016 21:08

Por Fernando Dias

Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
A forma titubeante como o governo interino vem tratando crises que o açodam desde o primeiro dia, e a forma heterodoxa com que o governo anterior vem afirmando que vai tratar a crise atual caso seja reconduzido, deixam os agente apreensivos.


A economia brasileira vem passando atualmente por uma de suas fases mais conturbadas desde o início do período republicano e com reflexo em todos os segmentos sociais. Os mais recentes dados do IBGE dão conta que o Brasil está há dois anos em recessão e a tão sonhada luz no fim do túnel insiste em um brilho opaco que poucos enxergam e menos ainda têm fé. Afinal os indicadores estão sinalizando alguma mudança com o governo interino?

Apenas os que medem expectativas, e isto já é alguma coisa importante. No modelo de mercado em que vivemos uma prática comum é a precificação por expectativas, ou seja, incorporar variações nos preços presentes que refletem algo que se acredita vá acontecer no futuro. O mundo real é dinâmico e formação de preços não poderia ser diferente. Tendo isto em mente há de se perceber que no momento atual precificar é algo realmente complexo pois formar expectativas sobre o futuro demanda algum tipo de método que geralmente combina o comportamento histórico dos componentes de interesse com a crença do agente sobre o futuro.

Imagine então que se é um empresário em Pernambuco que precisa decidir sobre o preço dos produtos novos. Os dados atuais da economia mostram que a retração do PIB continua (IBGE), que a taxa de desemprego na RMR é uma das maiores do Brasil (IBGE), que a inadimplência está crescendo (SERASA) e que o fechamento de vagas é percentualmente mais elevado no Nordeste (MTE/CAGED). Todos estes dados mostram a mesma tendência meses a fio, e eles dizem o mesmo, o mercado consumidor está encolhendo e o risco de crédito está maior. Para este agente então, que percebe que os segmentos de renda mais baixa estão sumindo do mercado, o melhor pode ser concentrar o esforço nos segmentos de renda mais alta, elevando o preço e a margem de lucro.

Ele não deveria baixar o preço? Não necessariamente. Se o movimento que se observa é de amplo redimensionamento dos mercados por segmento então pode-se ter uma reversão de um movimento prévio onde se reduziu margem para vender mais pois o público consumidor aumentou. Se a crença agora é que ele não volta mais a estratégia de precificação muda, para cima. Com efeito, a economia vem descendo ladeira abaixo e os preços insistem em se manter ladeira acima.

Um segundo efeito de expectativas pode operar no sentido inverso. Trata-se do componente de crença do agente, aquele que não é baseado no comportamento histórico das variáveis que o agente considera relevante, mas sim na forma como ele entende o comportamento do mundo. No atual ambiente da economia brasileira este componente é extremamente importante pois todos os indicadores macroeconômicos apontam resultados negativos e isto vem já de um bom tempo. Esta formação de expectativa, que pode ajudar a baixar os preços e destravar investimento, é geralmente condicionada pelos sinais que o Estado dá sobre a condução de política econômica. No atual contexto os agentes querem saber quem vai pagar a gigantesca conta do déficit público, quem vai pagar as cestas de promessas do governo anterior e do atual e qual confiabilidade há para que planos possam efetivamente ser convertidos e ações.

A forma titubeante como o governo interino vem tratando crises que o açodam desde o primeiro dia, e a forma heterodoxa com que o governo anterior vem afirmando que vai tratar a crise atual caso seja reconduzido, deixa o agente apreensivo. Não por acaso os indicadores de expectativas de conjuntura publicados pelo Banco Central mostram que os agentes apenas pararam de elevar o pessimismo, o necessário otimismo ainda não veio e nem virá sem sinalizações claras de quem fica e do que irá fazer. Até lá as expectativas continuarão a ser dominadas pelos indicadores de conjuntura baseados em dados passados, e eles só tendem a piorar o cenário.

(*) Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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