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Observatório econômico Somos todos cúmplices

Publicado em: 22/05/2016 08:00 Atualizado em: 23/05/2016 20:40

Por Tiago Cavalcanti (*)  

Tiago Cavalcanti é professor da Universidade de Cambridge e FGV/SP. Foto: Paulo Paiva/DP
Tiago Cavalcanti é professor da Universidade de Cambridge e FGV/SP. Foto: Paulo Paiva/DP
Fica a lição que não devemos apoiar governos populistas que adotam políticas insustentáveis, mesmo quando somos privadamente beneficiados no curto prazo por tais políticas.

Em março de 2013 cerca de 65% da população brasileira considerava o governo Dilma como ótimo ou bom. Apenas 7% da população considerava o governo ruim ou péssimo. Dilma ganhou a eleição de forma apertada em outubro de 2014, mas obteve 70% dos votos válidos em Pernambuco no segundo turno. Durante vários anos, a maioria da população brasileira, incluindo pessoas esclarecidas, educadas e empresários aprovaram as políticas do governo Dilma que levaram o Brasil a maior recessão da história republicana do país. O Brasil expandiu os gastos acima de sua capacidade sustentável de pagar, com a esperança que tal expansão gerasse mais crescimento e emprego, mesmo com sinais claros (aumento do déficit público e inflação crescente) de restrições de oferta. E, por favor, não coloquem na conta do programa Bolsa Família, que, idealizado por economistas liberais, atinge cerca de 50 milhões de pessoas no país com apenas 1% da renda.

A partir de 2008, com a crise financeira mundial, o Brasil iniciou um forte processo de intervenção governamental, que incluiu a expansão do crédito público, queda significativa da taxa de juros, aumento dos gastos governamentais, congelamento de preços e subsídios para setores que sofriam com a valorização do câmbio e a competição internacional. O que era para ser uma política temporária anti-cíclica (mesmo questionável) tornou-se a nova norma econômica do governo, que para sustentar tais políticas teve que maquiar as contas públicas através das famosas pedaladas fiscais, que tinham um saldo de R bilhões em 2008 e passou para R$ 58 bilhões em 2015.

Sem entrar na questão de se a intensidade das pedaladas fiscais, concebida pelo próprio secretário do Tesouro, que deveria zelar pelo orçamento público,  justificam ou não o impedimento da presidente Dilma, a verdade é que nesse período de 2008 até 2015 vários agentes econômicos se beneficiaram com as políticas listadas acima. Fora a corrupção sistêmica que beneficiou várias empresas e agentes. A taxa de aprovação de Dilma em 2013, quando as pedaladas fiscais já estavam em R$ 36 bilhões, corrobora a ideia que a grande maioria da população aprovava as políticas populistas do governo. Inclusive os empresários, que na frente da FIESP colocaram recentemente um pato simbolizando a ideia de que não serão eles que terão que pagar o “pato”, através da elevação de tributos. Para os empresários, o governo é que deve fazer sua parte diminuindo os gastos públicos e o ajuste fiscal não pode vir através do aumento dos impostos.

A equipe do ministério da Fazenda do Governo Temer é competente. Mansueto Almeida, Secretário de Acompanhamento Econômico, é um economista respeitado e profundo conhecedor das contas públicas. Em várias ocasiões, Mansueto demonstrou que não basta cortar pessoal e diminuir a má gestão dos gastos para fazer o ajuste fiscal no Brasil. Infelizmente, será preciso corte de benefícios, inclusive de aposentadoria, e/ou aumento dos tributos. É uma pena que o Brasil teve que se submeter a um processo traumático de impeachment. As eleições servem precisamente para mudar as políticas. Fica a lição que não devemos apoiar governos populistas que adotam políticas insustentáveis, mesmo quando somos privadamente beneficiados no curto prazo por tais políticas. No final, todos nós teremos que pagar o “pato”. O problema é que o ônus em geral recai mais sobre os grupos menos organizados. Apesar do PMDB ser cúmplice de todas as políticas adotadas pelo PT nos últimos 13 anos, o governo Temer ainda merece o benefício da dúvida.

(*) Professor da Universidade de Cambridge e FGV/SP

TAGS: obseconomico

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