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Observatório econômico Diploma e salário

Publicado em: 10/03/2016 08:00 Atualizado em: 01/04/2016 22:30

Fernando Dias é Professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Fernando Dias é Professor do Departamento de Economia da UFPE. Foto: Tiago Lubambo/Divulgação
Por Fernando Dias*

Em tempo de recessão onde os mais recentes dados indicam queda de 3,8% do PIB em 2015 e uma taxa de desocupação na casa de 7,6% (janeiro/2016), saber como se posicionar frente ao mercado de trabalho é essencial para todos. Para os jovens aquela clássica pergunta “vale a pena estudar até se formar, ou é melhor começar logo a procurar emprego? ”, ganha ainda mais força!

A literatura é farta em material que explica porque o acúmulo de conhecimento afeta o salário. Para o jovem, e o não acadêmico em geral, este efeito não é tão facilmente percebido por mais que os acadêmicos insistam que os dados apontam centenas de reais a mais por ano de estudo. Longe de contradizer os acadêmicos, alguns indicadores sobre nosso mercado de trabalho ajudam ver porque as pessoas têm dificuldade em entender essa lógica e porque, de fato, o mecanismo que leva ao ganho é tudo, menos transparente.

Tomando por base a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, nota-se que, entre os anos de 2002 e 2012, a taxa de desocupação caiu de forma consistente. Segue então até 2014 estável e em seguida começa a crescer com vigor. Recorrendo-se ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através da RAIS e do CAGED, para avaliar o perfil de quem está entrando no mercado de trabalho, percebe-se claramente que estes 10 anos de redução e 2 anos de estabilidade estão relacionados à forte entrada de pessoas nas categorias de menor remuneração e qualificação. O que as famílias viram por mais de uma década é que era fácil ingressar no mercado de trabalho com menor qualificação e, então, se qualificar na medida do possível.

Em uma economia em desenvolvimento, como a nossa, é evidente que em períodos de aceleração as atividades intensivas em mão-de-obra se destacam. A vantagem inicial do diploma fica então enevoada pelo charme da experiência. Mas, na verdade, o diploma, de fato, tem força. Os mesmos dados do MTE mostram que enquanto a renda média real do trabalho vem caindo continuamente, desde 2002, a renda média dos trabalhadores com nível superior vem aumentando, pouco (7% entre 2002 e 2014), mas aumentando.

No caso, a renda média real do trabalho caiu basicamente porque entraram muito mais pessoas com baixa remuneração que com alta. Este mesmo efeito também existiu no grupo com nível superior, e por isso a remuneração cresceu pouco, mas ao menos cresceu.

Pode-se especular em relação ao que prediz a teoria econômica sobre a determinação de salário. Há dois efeitos bastante importantes operando: a) o de que o salário está relacionado à produtividade (trabalhadores mais produtivos ganham mais porque uma maior qualificação se traduz em maior retorno para a firma), e b) o de que o salário é um elemento de sinalização (quanto mais qualificado provavelmente melhor ele é e, com isso, maior a aptidão para desempenhar funções mais complexas e melhor remuneradas). Ambos os efeitos são mais fortes no grupo de trabalhadores com nível superior em relação aos que não possuem esta qualificação.

Ter o diploma ainda é, assim, uma vantagem! A remuneração média é significativamente mais alta, a taxa de desocupação é menor, a rotatividade da mão-de-obra é menor e as negociações salariais tendem a ser mais vantajosas. Adquirir experiência é muito importante para a carreira profissional, assim como adquirir qualificação, e o melhor que se pode fazer é tentar ter as duas, tendo em mente que por mais acadêmico que possa parecer o curso, ele acaba sempre trazendo retorno no longo prazo.

*Professor do Departamento de Economia da UFPE

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