ELEIÇÕES 2018 'A maior riqueza de Pernambuco é a riqueza humana', comenta Dani Portela, candidata ao governo pelo Psol Defensora de uma aliança das esquerdas, a candidata criticou o modelo de desenvolvimento econômico adotado em Pernambuco

Por: Jailson da Paz

Publicado em: 05/09/2018 08:23 Atualizado em:

Foto: Thalyta Tavares/Esp.DP
Foto: Thalyta Tavares/Esp.DP
Filha de um ex-preso político, Dani Portela afirmou ontem, na sabatina promovida pelo Diario, em parceria com o Politéia, Instituto de Política da Unicap, que em uma gestão do PSol, a função social da propriedade será considerada na hora de definir a política habitacional. Entre os argumentos está um já apresentado pelo candidato a presidente da República Guilherme Boulos, filiado ao mesmo partido de Dani: no país há mais casa sem gente do que gente sem casa. Para implantar a política habitacional, a candidata ao Palácio do Campo das Princesas ressaltou que vai trabalhar em conjunto com os municípios, pois são estes os responsáveis pela política de regularização fundiária.

Defensora de uma aliança das esquerdas, a candidata criticou o modelo de desenvolvimento econômico adotado em Pernambuco. Para ela, o padrão seguido privilegia o capital e este não se desenvolve sem o trabalho, enquanto o trabalho não se desenvolve sem justiça social. Os grandes investimentos, segundo Dani, não alcançaram o estado como um todo. Para ela, eles trouxeram avanços econômicos e também grandes contradições. “O capital tem que estar voltado para o desenvolvimento social e não o inverso”, afirmou a historiadora e advogada.

A candidata, quando questionada sobre as alianças para governar, disse que manterá diálogos com todos os setores da sociedade. Diálogo, no entanto, seria baseado no princípio de escuta da população. Dani também falou de sua experiência no combate à violência contra a mulher, da posição do PSol quanto à prisão do ex-presidente Lula e criticou a política de investimento da cultura no estado.

Patrimônio cultural
Lamentamos a tragédia do Museu Nacional, mas sabemos que não foi uma tragédia natural. O museu vinha passando por uma grande crise, de infraestrutura e de falta de investimento, porque a cultura e a preservação do patrimônio cultural não tem sido prioridade. Em Pernambuco, temos um acervo grande de patrimônio material e imaterial, mas precisamos, enquanto estado, pensar em uma forma de trazer a população para esses espaços de preservação. Precisamos que os museus estejam juntos das escolas, para que a formação seja continuada, para que os alunos tenham nesses espaços um local de acolhimento. Hoje temos um dia livre de visitação, mas precisamos ampliar. Porque sabemos que o museu traz história, memória, transformação, mas também movimenta o turismo e a economia. O que se destina do orçamento para esses equipamentos públicos diz muito quais são as prioridades do estado. Fomos embrião de grandes revoluções brasileiras e Pernambuco tem o desafio de manter esse pico revolucionário, pioneiro. Precisa olhar o passado como a melhor maneira de compreender o presente.

Êxodo dos artistas
Quando falo de cultura, não posso apenas falar do patrimônio físico, da arquitetura. Tem que se pensar nas pessoas que fazem nossa cultura e nossa preservação. Nossos mestres, nossos artistas têm migrado para São Paulo e outros lugares. Existe um êxodo porque não se sentem valorizados no estado. Tenho ouvido da classe artística e nos dispomos a fazer, quando governo, o pagamento antecipado de cachê. Têm queixas de pessoas que trabalharam no carnaval e ainda não receberam, mas priorizaram o pagamento de artistas de fora. Precisamos atender essa produção cultural local. A maior riqueza de Pernambuco é a riqueza humana. Nossas praias, também. Mas podemos fazer turismo além das praias.

Diálogo político
A gente tem que dialogar com todos os setores. Quando pensamos no desenvolvimento temos pensado muito no capital, mas capital não se desenvolve sem trabalho e trabalho não se desenvolve sem justiça social. Então, é preciso um governo que olhe para o desenvolvimento do estado de forma paritária e a gente não vê isso acontecendo. Tem que dialogar, mas toda política tem que ser feita não para um grupo privilegiado, mas para a maioria da população. O governador não pode estar encastelado. Como governadora me proponho a dialogar, a construir, mas com um setor que entenda Pernambuco como um todo, que entenda que para se desenvolver é preciso desenvolver a vida de todos. A gente não pode pensar em um modelo de desenvolvimento excludente, que traz riqueza para alguns e amplia a pobreza, precisa descentralizar o investimento. E descentralizar tanto no sentido de alcançar um maior número de pessoas como o descentralizar de regiões. Os grandes investimentos não alcançaram o estado como um todo. Em um momento, causaram avanços econômicos, mas grandes contradições. E o capital tem que estar voltado para o desenvolvimento social e não o inverso. As pessoas não estão a serviço disso.

Apoio a Lula
Temos diferenças com o PT, mas a gente se encontra em algumas lutas. Apesar disso, o PSol esteve na luta contra o impeachment da presidenta Dilma. Nos posicionamos quando Lula foi preso. Todo mundo viu quem estava no lado de Lula quando ele mais precisou. Guilherme Boulos estava lá em São Bernardo (São Paulo). A gente não se aproximou do PT em troca de cargos, de apoio. Foi para defender a democracia, por acreditar que a prisão é uma prisão política, injusta. Defendemos o direito de Lula ser candidato, embora a gente tenha uma candidatura. É muito fácil agora, diante de um processo eleitoral, se aproximar de Lula em um estado em que ele tem aceitação de quase 70% da população. E essa aceitação é porque o povo sentiu a vida melhorar em alguns aspectos.

Formação em casa
Sou filha de um ex-preso político. Meu pai, Eribaldo Portela, e meu avô, Luiz Portela, de Palmares, foram presos pela ditadura militar. À época, minha mãe estava grávida e, com a notícia da execução do meu pai, perdeu um filho. Meu pai não tinha sido executado. Foi transferido para os porões do DOPS, no Rio de Janeiro. Ficou desaparecido por alguns anos e, diante dos horrores da tortura, ficou estéril. Sou filha por adoção. Meu pai foi meu grande informante. Ele ficava o dia ouvindo noticiários de rádio e nunca abriu mão, em quase 90 anos de idade, de votar, e faleceu há dois anos, vítima da Chikungunya. No dia da votação do impeachment, meu pai entrou em coma e não assistiu à votação. Quando acordou do coma eu não tive coragem de dizer o que tinha acontecido no Brasil, de dizer que a democracia que tinha sido tão cara, que custou muita coisa da própria vida dele, que a gente estava voltando para uma onda de retrocesso. Vivemos uma das maiores crises dos últimos 30 anos. Uma crise de representatividade, política, estrutural, econômica e de segurança. 

Voto de opinião
Muita gente tem me perguntado se o PSol só tem buscado o voto de opinião. Isso tem o tom meio preconceituoso. Tem muita gente com mestrado e doutorado, até com pós-doutorado, com voto de cabresto. Que troca o voto por cargo, por secretaria, para ser beneficiado. A gente precisa do voto de opinião e o voto de opinião é o voto de todo mundo que não está satisfeito, que quer mudança, que quer mudança de forma crítica.

Questão de gênero
As mulheres sofrem uma dupla vitimização. São vítimas da violência, por parte de parceiros, companheiros. São vítimas de assédio, violência sexual. E elas são novamente vitimizadas quando chegam para o estado e o estado não recebe essa mulher de maneira acolhedora. A violência contra a mulher repete um pouco da nossa cultura, voltada para a divisão dos papéis de gênero. Tem um pesquisador que brinca, dizendo que no século 19 uma mulher só poderia sair de casa três vezes durante a vida. A primeira no batizado. A segunda no casamento. A terceira no próprio enterro. Do século 19 para cá, a gente reconhece que avançou, mas precisa avançar mais. Em Pernambuco, cerca de 54% da população é feminina, mas não temos nem 10% dos cargos representativos. Tem alguma coisa errada nessa matemática. A gente precisa que as mulheres cheguem nesse espaço, tenham a caneta para que as políticas públicas privilegiem a questão da mulher de forma marcante. Por isso, estamos neste desafio com uma chapa composto por quatro mulheres. 

Alianças de governo
Impossível governar simplesmente com ideais e ideologias. É preciso ações práticas. Para governar, a gente precisar fazer alianças, dialogar, mas a nossa principal aliança é com o povo e os movimentos sociais. A gente precisa criar mecanismos de escutas, ter princípios de ética e chamar as pessoas para construir juntos. 

Política habitacional
Guilherme Boulos tem repetido que ‘há mais casas sem gente do que gente sem casa no Brasil’. Há muitos imóveis desocupados porque a propriedade não tem cumprido a sua função social. É primordial se falar na função social da propriedade. Enquanto governadora, vou dialogar com os municípios, sabendo que é de competência dos municípios a regularização fundiária, mas a gente precisa construir programas habitacionais que atendam a população de maneira mais ampla.


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