Música 'Sinto falta do Brasil da sutileza, da palavra bela', diz Ayrton Montarroyos ao lançar álbum de voz e violão Pernambucano de 23 anos dribla o mainstream que o projetou nacionalmente para solidificar carreira de forma independente

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 26/02/2019 09:27 Atualizado em: 26/02/2019 09:31

O disco foi gravado durante um show de voz e violão ao lado do músico Edmilson Capelupi. Foto: Luan Cardoso/Divulgação
O disco foi gravado durante um show de voz e violão ao lado do músico Edmilson Capelupi. Foto: Luan Cardoso/Divulgação
A notabilidade artística construída através de um talent show televisivo geralmente pressupõe uma carreira de grande apelo midiático, marketing e produções pensadas para conquistar rádios e plataformas de streaming. Esse não é o caso do pernambucano Ayrton Montarroyos, vice-campeão do The voice Brasil, da Rede Globo, na edição de 2015. Radicado em São Paulo, o cantor de 23 anos optou por nadar contra as correntezas tentadoras do mainstream em Um mergulho no nada (selo Kuarup), álbum lançado em janeiro deste ano. O disco foi gravado durante um show de voz e violão ao lado do músico Edmilson Capelupi, no Teatro Itália, na cidade de São Paulo, em abril de 2018.

Composto por dez faixas, o álbum traz releituras acústicas de composições de grandes nomes da música popular brasileira, como Cálice (Chico Buarque e Gilberto Gil, 1973), Brigas nunca mais (Tom Jobim e Vinicius de Moraes, 1959), Pé na estrada (Ylana Queiroga e Yuri Queiroga, 2017) e Sodade matadeira (Dorival Caymmi, 1948). Apesar da multiplicidade estética das canções, o repertório aparece com arranjos sucintos e executados com um rigor digno de recital. O tom afinado de Montarroyos, aliado aos toques virtuosos de Capelupi, tentam alcançar um invejável perfeccionismo musical.

Como de costume, a sofisticação também é fruto da prática. Para entender como o projeto surge, é preciso revisitar uma turnê feita por Ayrton e Edmilson em cidades do interior de São Paulo. "Senti que tinha uma coisa muito bonita acontecendo naqueles shows", relembra Ayrton, ao Viver. "Fui criado com rodas de violão com grandes violinistas, como Vinicius Sarmento e Bozó 7 Cordas. Então aquela fase me remeteu ao que eu sentia no começo da carreira". A ideia para a elaboração de um álbum a partir de uma dessas apresentações exitosas partiu de Thiago Marques Luiz, que assina o trabalho como produtor.

“De início, fiquei muito receoso porque gravar ao vivo apenas com voz e violão é uma exposição gigantesca. Exige muito cuidado, atenção e concentração. Qualquer estalo atrapalha o resultado final”, admite Ayrton, que foi buscar inspiração em grandes discos nesse formato, a exemplo de À flor da pele, de Ney Matogrosso e Raphael Rabello (1990), e Todo o sentimento, de Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (1991). “Fui me empolgando e me desprendi dessas inseguranças, porque voz e violão são algo da minha vivência. Conseguimos criar um momento único no Teatro Itália, em que nossas raízes se afloraram mais do que tudo. Mais do que qualquer preocupação. E até mesmo a questão técnica ficou ideal, o que me surpreendeu”, conta ele.

O resultado é um trabalho de minimalismo arrojado, que reflete até mesmo na identidade visual. Um tanto experimental, a capa traz uma pedra e um trecho da Teogonia, obra mitológica de Hesíodo - poeta grego do período arcaico (século 8 A.C). Não há foto do intérprete, sequer o seu nome. "Escolhi esse poema porque fala sobre memória, como um canto para colorir o futuro e o passado. O Hesíodo tem essa autoridade, sendo um poeta cantor, de personificar as coisas, torná-las vivas no momento que se faz".

Essa intelectualidade, junto com uma maturidade artística prodigiosa para um jovem de 23 anos, rende um álbum para se prestar atenção, mesmo que não chegue aos ouvidos do grande público através dos algoritmos do streaming. É um trabalho que o legitima como um dos intérpretes de destaque de sua geração. Uma interessante figura que, alimentada pela maior corporação de entretenimento do país, agora dribla o sistema para viver do que mais parece admirar: a arte em sua essência.



ENTREVISTA, Ayrton Montarroyos
Foto: Luan Cardoso/Divulgação
Foto: Luan Cardoso/Divulgação
Como escolheu o repertório?
Em primeiro lugar, eu quis uma obra que dialogasse entre si. Já temos o formato voz e violão, que consegue conectar tudo. Existe um conceito estético intrínseco nisso. Em segundo lugar, minha interpretação defende um canto abrasileirado, algo que pode até ser perigoso quando levado para uma ótica “nacionalista”, mas acredito que trazemos uma manutenção da “memória do cancioneiro popular”. Você vai ouvir Dorival Caymmi, Chico Buarque e Capiba. Não que seja algo saudosista, mas sim de recuperação. Eu estava ouvindo o álbum Saudade do Brasil, da Elis Regina, que era sobre uma brasileira morando no Brasil e com saudades do Brasil. É algo similar. Sinto falta do Brasil da sutileza, da palavra bela e do contundente. É um Brasil que está se acabando, se perdendo e dando lugar a coisas muito pífias.

Você fala isso se referindo um contexto musical ou mais abrangente do país?
Quando eu “falo isso” é o Brasil que está acontecendo hoje. Um país da ignorância, do desprezo pela intelectualidade, pelo conhecimento. Tudo isso foi substituído pela posse de coisas, de quanto dinheiro você tem, de quantos seguidores você tem. Não importa o que você faz para chegar lá. Nós tivemos os maiores poetas e pensadores, mas hoje estamos vivendo num momento em que o grito é o que prevalece, o escândalo é o que chama atenção. Um cara venceu a presidência assim. Isso é o que tem construído essa geração de artistas que se diz “alternativa”, mas está ligada a grandes gravadoras e que toca nas grandes rádios. Acho que existe uma vulgaridade de pensamento. E quando aparecem as críticas, vem uma “força maior” para dizer que tudo aquilo é da periferia. Colocam tudo isso na mão da periferia. Logo a gente que tinha uma periferia que deu origem a Cartola, Clementina de Jesus e Noel Rosa.

Não acha que, com esse tipo de discurso, você pode acabar sendo taxado de elitista?
Eu falo essa grande "força maior" que aponta o que vem da periferia. Tem gente milionária na Rede Globo que vende a periferia, mas já não tem mais vínculo com ela. Acho que o funk, por exemplo, é um patrimônio nosso tanto quanto a bossa nova. Mas existe hoje o funk do MC Rick, de Belo Horizonte (MG), que é um escárnio enquanto forma, traz uma sonoridade anárquica e cria uma coisa nova. Também existe o brega-funk de Pernambuco, que eu amo e acho genial. Por outro lado, temos o funk da Anitta que é uma coisa totalmente palatável, é quase uma lata de chocolate em pó. Será que é o melhor chocolate do mundo? Não sei. Mas todo mundo come? Sim. Depois querem dizer que isso representa a periferia. Isso sim é elitismo. É uma periferia que não cabe, por exemplo, nas orquestras de morro do Recife, que raramente ganham espaço. É que o hype de São Paulo não exalta.

Acha que além dessa bandeira da "periferia", existe uma bandeira da militância? 
Eu vejo essa geração de artistas gays empoderados, o que é importante. Vejo colegas meus que sempre foram preconceituosos consigo mesmo, hoje assumindo um viés identitário para poder ganhar dinheiro. O que me assusta é que isso vem acontecendo cada vez mais por métodos escusos, muito injustos e que acabam sempre levando o dinheiro para a mão dos mais fortes, e um pseudo-sucesso disso vai nas mãos dos artistas. Existe sempre essa máquina por trás. Quando uma coisa passa pelo Amor & sexo da Globo, passa também ali um investidor que está por trás.

Você ficou famoso por estar em um programa de uma grande emissora de TV. Não se sente pressionado para continuar nesse meio?
Existem as pessoas que querem que eu seja mais “popular”, mas a pressão acaba não existindo porque isso não passa pela minha cabeça. Hoje não preciso da TV para nada. Vou para Recife e faço alguns shows maiores. Fora daí são 200 ou 300 pessoas por show, sendo um ou dois shows por mês. Não me falta dinheiro e também não tenho uma vida privada por trabalhar muito. O advento da internet ajudou a possibilidade de ser independente, mas também não sou fascinado pelo Instagram. Isso é uma armadilha que vai acabar, assim como o rádio acabou, a Globo está acabando. Outras coisas vão surgindo e a gente se perde. A TV tem seus benefícios, claro. Você ganha muito dinheiro estando lá o tempo todo. Isso já me atraiu muito, mas hoje tenho um outro conhecimento. Gosto muito mais das formas de arte e é isso que me interessa.



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