Música 'Eu precisava ter outra banda', diz Marcelo Falcão, ao lançar primeiro disco solo Em novo projeto, vocalista da banda O Rappa assume de vez o perfil do 'cancioneiro das boas vibrações', se afastando de questões sociais

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 19/02/2019 10:52 Atualizado em: 21/02/2019 01:05

Novo álbum de Falcão foi lançado como uma das apostas da Warner Music para 2019. Foto: Jacques Dequeker/Divulgação
Novo álbum de Falcão foi lançado como uma das apostas da Warner Music para 2019. Foto: Jacques Dequeker/Divulgação


Os vocais que deram vida aos sucessos da banda O Rappa ressurgem em faixas inéditas. O carioca Marcelo Falcão lançou, na última sexta-feira, o álbum Viver (Mais leve que o ar) nas plataformas de streaming. Trata-se de seu primeiro disco fora do grupo - que entrou em hiato por tempo indeterminado em 2018. Com produção assinada por Falcão e Felipe Rodarte, o projeto tenta resgatar a sonoridade que consagrou o vocalista, mesclando reggae, rock, pop e MPB, mas desta vez com um maior enfoque no reggae - caminho que já estava sendo atestado nas quatro faixas liberadas nos últimos meses: Viver, Eu quero ver o mar, Diz aí e Só por você.

Dessa vez, a banda que acompanha o timbre grave do vocalista é composta por Bino Farias, do Cidade Negra (baixo), João Fera, parceiro dos Paralamas (teclados), Hélio Ferinha (teclas), DJ Negralha, Marcos Suzano (percussão), Felipe Boquinha, de O Rappa (bateria), Edésio Gomes, Eneas Pacifico e Vinicius de Souza (metais). Um time de músico experientes que garantem a execução de instrumentais arrojados e uma sonoridade grandiosa.

Capa de Viver (Mais Leve Que o Ar). Foto: Jacques Dequeker/Divulgação
Capa de Viver (Mais Leve Que o Ar). Foto: Jacques Dequeker/Divulgação


Como sugere o título, o projeto traz o cantor como uma espécie de cancioneiro das “boas vibrações”. Ancoradas em uma sonoridade pop, as faixas abordam a importância da positividade, o “estar bem consigo mesmo”, com “vigor” e “vitalidade”. Essa proposta funciona bem em faixas como Hoje eu decidi, Mais leve que o ar e Viver, que tem participação especial do pernambucano Lula Queiroga. Algumas outras trazem temáticas românticas triviais. A faixa de cunho mais “social” fica com Eu quero ver o mar, que em oito minutos de duração traz o oceano como uma fuga dos problemas cotidianos. De fato, é um daqueles álbuns ideais para ouvir na praia.

Esse também é o primeiro trabalho no qual Marcelo aparece como principal compositor de todas as faixas - com exceção de Senhor fazei de mim (Um instrumento de tua paz), que encerra o disco, trazendo a oração de São Francisco. Embora o trabalho provavelmente reflita na atual fase de vida do intérprete, focando em “positividade”, é difícil não relembrar com saudosismo da figura crítica e combativa que o cantor encenava nos tempos dourados d’O Rappa.

A banda, revelação dos anos 1990, ficou conhecida justamente por letras que traziam uma consciência social de forma bastante sagaz, abordando desigualdades e anseios que rondam a sociedade, sobretudo as periferias. Naquele tempo, a maioria das faixas era de autoria de Marcelo Yuka, que saiu do grupo em 2001 por divergências e faleceu em janeiro deste ano, vítima de um acidente vascular cerebral isquêmico.

Talvez esse seja o principal ponto de incômodo para quem escuta o Viver (mais leve que o ar): os excessos de "good vibes" e de romantismos acabaram tornando o disco repetitivo e mais longo do que os seus 66 minutos de duração. É um problema similar ao que vem acontecendo com a discografia da banda Natiruts, por exemplo. Talvez, 20 anos após o lançamento do clássico Minha alma (A paz que eu não quero), Falcão esteja realmente "sentado na poltrona de um dia de domingo".



Entrevista - Marcelo Falcão // cantor
Foto: Jacques Dequeker/Divulgação
Foto: Jacques Dequeker/Divulgação

Você acumulou cerca de 600 arquivos até chegar nesse álbum. Como isso aconteceu?
Eu gosto de ter bastante material, pois a gravadora (Warner Music) sempre pede muito e parte desse conteúdo pode ficar guardado para outros projetos. Fico muito envolvido com meu disco, até mesmo em momentos particulares. Gravei esboços e ideias por cinco anos. Eu até ficava meio assustado quando olhava para aquilo tudo no computador. Com o tempo, no entanto, fui selecionando junto com Felipe Rodarte e chegamos em 70 faixas. Voltamos para o estúdio, gravamos de forma profissional e o número diminuiu para 47. Chamei amigos para uma audição, como Sérgio Afonso, Tuca Carvalho e Marco Suzano. Fui vendo as reações das pessoas e a partir daí fomos montando o repertório final.

Por que optou convidar apenas um músico d’O Rappa para o disco?
A escola do Rappa me ensinou muita coisa, mas eu precisava ter outra banda. Todo mundo que está comigo agora queria muito estar comigo, esperaram muito tempo para isso. E nessa sequência, fui abençoado por fazer um disco como eu realmente queria. Eu só me sinto tranquilo e forte com uma banda boa ao meu lado. Eu não poderia estar mais feliz. Sempre sonhei em ter uma big band, que também estará comigo ao vivo e será muito mais violenta do que você escuta no disco.

O Rappa fez vários shows emblemáticos no Recife, sempre com um público considerável. Isso influenciou na decisão de estrear a turnê do disco na capital?
Claro. Mas, além disso, meu atual escritório é situado no Recife. Essa vida de show business deixa a gente meio estranho, mas eu quero dar o meu melhor. O palco é a minha vontade, onde me divirto e sou quem realmente sou. Não quero apenas atender a um pedido de show, mas sim recriar o clipe de Viver: ter a molecada junta, todos estendendo a mão e pedindo por equilíbrio. Meu espírito é de moleque. Quero essa molecada comigo para sempre.



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