Cinema Indicado ao Oscar, Cafarnaum retrata um Líbano sombrio para pobres, refugiados e crianças O longa-metragem concorre ao troféu de Melhor Filme Estrangeiro apostando em uma 'estética da pobreza'

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 14/02/2019 13:56 Atualizado em: 14/02/2019 14:23

A obra acompanha a vida de Zain (à direita), um menino de 12 anos. Foto: Sony Pictures/Divulgação
A obra acompanha a vida de Zain (à direita), um menino de 12 anos. Foto: Sony Pictures/Divulgação

Cafarnaum é o nome de uma cidade bíblica condenada ao inferno pelo próprio Jesus em uma passagem do livro de Mateus. A palavra, que acabou virando um sinônimo para caos, inspirou o título do quarto filme da cineasta libanesa Nadine Labaki. De fato, a realidade que o filme lança luz beira o linferna, tendo como pano de fundo uma Beirute - capital do Líbano - caótica, sem paz ou misericórdia com pobres, refugiados e crianças. O longa-metragem concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, ao lado dos aclamados Roma (do mexicano Alfonso Cuarón) e Assunto de família (do japonês Hirokazu Koreeda). No Recife, o filme entra em cartaz nesta quinta-feira (14) nos cinemas da Fundação Joaquim Nabuco.

A obra acompanha a vida de Zain (Zain al Rafeea), um menino de 12 anos que vive com seus pais e vários irmãos em um cortiço na periferia da cidade. Apesar de jovem, ele carrega responsabilidades de quem poderia ser 20 anos mais velho. Abdicou dos estudos para cuidar dos irmãos e também ajuda na renda familiar ao trabalhar em estoques de pequenos mercados do bairro. Todo esse comprometimento reflete em suas atitudes, trejeitos e vocabulário desbocado, como se o menino fosse um jovem adulto rebelde. O ator mirim apresenta uma atuação surpreendente, destoando das crianças “enigmáticas” e “caladas” consagradas pelo cinema dramático mundial.



A narrativa começa a ganhar fôlego quando os pais de Zain decidem submeter Sahar (Cedra Izam), sua irmã favorita e de apenas 11 anos, a um casamento forçado com o dono de um mercadinho local. A atitude desperta a ira do menino, que usa de toda sua “independência” para fugir de casa apenas com uma trouxa de roupas e um pouco de dinheiro. Por um momento, parece que o longa acompanhará as desventuras da criança pela metrópole caótica, mas logo ele conhece Rahil (Yordanos Shiferaw), uma refugiada da Etiópia que vive com um visto falso, trabalha faxineira em um parque de diversões e esconde do estado um filho chamado Jonas.

O protagonista acaba dividindo moradia com a africana em um favela, cuidando do bebê enquanto ela trabalha. Certo dia, ela não volta para casa após ser descoberta pela polícia da extradição. É quando o menino precisa fazer o possível e o impossível para garantir sua existência dos seres vivos que restaram naquele ambiente. A partir daí, o filme segue em uma sequência de cenas fortes, emocionantes e que surpreendem pela veracidade da atuação do libanês. Até nas atitudes mais ingênuas do protagonista, os espectadores são obrigados a entender sua impulsividade e falta de opções.

Todo esse pandemônio também conta com auxílio dos aspectos técnicos. A fotografia é sagaz e precisa, capturando os cenários caóticos de Beirute em diversos ângulos, incluindo filmagens com drones que revelam a pobreza por todo lado, fazendo a cidade ser um elemento vital nos sentimentos de agonia e repulsa que o filme evoca. A montagem é rápida, com cortes que evitam o clima de melodrama. O filme é intercalado por cenas em um tribunal, em que os personagens outrora maltrapilhos aparecem arrumados e tensos para resolver uma tragédia que não fica clara de início. O motivo da reunião com o juiz só é revelado no final. 

Ao voltar para casa na procura de documentos para fugir do país, Zain se depara com uma novidade que coloca em prova como ele perdeu sua inocência há muito tempo para se tornar um agressivo criminoso adulto. Os últimos minutos procuram provocar uma catarse, denunciando toda a situação de pobreza extrema, abandono infantil, casamentos forçados na infância e a situação que refugiados se submetem nesses países orientais. É um tipo de filme que comprova como é sempre necessário sair da cúpula do cinema norte-americano e europeu, indo descobrir novas cosmovisões e realidades, como essa que Cafarnaum estende a mão ao espectador.



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