Literatura Livro desmistifica a alcunha de 'banda fabricada' do The Monkees Love Is Understanding - A Vida e a Época de Peter Tork e os Monkees, do escritor carioca Sergio Farias, terá lançamento no Recife

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/02/2019 14:09 Atualizado em:

Grupo foi composto por David Jones, Micky Dolenz, Peter Tork e Mike Nesmith. Foto: Internet/Reprodução
Grupo foi composto por David Jones, Micky Dolenz, Peter Tork e Mike Nesmith. Foto: Internet/Reprodução


The Beatles, Rolling Stones, The Who, The Doors e Pink Floyd são nomes que surgem quase automaticamente na hora de elencar as maiores bandas de rock dos anos 1960. Pouco se fala do The Monkees, um grupo que chegou a vender mais que Beatles e Rolling Stones juntos entre 1966 e 1967. Com o declive da contracultura na chegada da década seguinte, essa exitosa banda norte-americana entrou num obscuro ostracismo. O legado foi colocado de lado pela alcunha de “banda fabricada”. Até hoje, fazendo uma rápida visita aos vídeos de suas canções no YouTube, é possível achar inúmeros comentários usando o termo "manufactured band".

O escritor carioca Sergio Farias, autor de obras como John Lennon vida e obra (2011) e antigo colaborador da Internacional Magazine, quer provar que esses comentários estão equivocados. No ano passado, ele lançou o livro Love is understanding - A vida e a época de Peter Tork e os Monkees, pela editora Chiado Books, com 391 páginas. O principal objetivo é mostrar a trajetória do grupo, com enfoque no seu mais talentoso instrumentista, para provar que o senso comum em torno da banda é errôneo. Segundo Sergio, trata-se da "maior injustiça da história do rock". A publicação terá evento de lançamento no Recife nesta quarta-feira (4), às 19h, na loja Passa Disco, na Zona Norte do Recife.

The Monkees surgiram diante de uma fórmula de criação bastante popular na cultura pop, responsável por lançar nomes como Spice Girls no Reino Unido. Em 1965, a rede americana NBC queria criar uma banda para uma série de televisão do gênero comédia. Os futuros astros foram escolhidos através de classificados em jornais que pediam “quatro loucos entre 17 e 21 anos”. Entre 437 candidatos, restaram David Jones (voz e percussão), Micky Dolenz (voz e bateria), Peter Tork (baixo, teclado e voz) e Mike Nesmith (voz e guitarra).

Entre 1966 e 1968, o quarteto protagonizou a tal série no canal, além do longa-metragem Head (Os Monkees estão soltos, no Brasil), em 1968. Nesse período, lançaram sete LPs, que agregam sucessos como Daydream believer, A little bit me a little bit you e I’m a believer - quem foi criança nos anos 2000 conheceu essa última na trilha sonora da animação Shrek (2001). “Eles chegaram a vender, em três meses, mais de 3 milhões de cópias. Isso ajudou a catapultar o rock em termos comerciais”, explica Sergio Farias, em entrevista ao Viver.



"A série de TV era inovadora por sua irreverência, fazendo a indústria do audiovisual acreditar mais nas ideias dos jovens. Foi aí que surgiram nomes como Martin Scorsese, que chegou a ser um dos diretores do seriado". Os Monkees também ajudaram na disseminação dos videoclipes. A MTV, quando foi criada, na década de 1980, referia-se ao grupo como “avôs” da emissora. A característica “televisiva” também alongou os shows de rock para 1h30, em vez de 40 minutos. Nos telões dos espetáculos, exibiam mensagens contra a segregação racial. Também criticavam a Guerra do Vietnã, levando os músicos a serem investigados pelo FBI. Todos esses feitos e outros são esmiuçados em detalhes no livro.

“Conheci a banda quando era criança, em 1975, quando a série foi reprisada aqui no Brasil. Eu me apaixonei pelas músicas. Em seguida veio meu interesse pelo rock em geral e sempre almejei escrever sobre os Monkees. Mas, ao contrário dos Beatles, eu nunca achava matérias na imprensa. Não tinha nada, era raríssimo”, diz o autor. Ele só foi descobrir sobre o sucesso estrondoso com a chegada da década de 1980, quando teve acesso a uma “enciclopédia do rock” na Biblioteca do Consulado Americano. “Mas continuava o mistério. Se eles fizeram tanto sucesso, rivalizaram com os Beatles, por que não encontro os discos em catálogos, nem nada?”, dizia.

Foto: Chiado Bookd/Divulgação
Foto: Chiado Bookd/Divulgação


Na década de 1990, o grupo voltou à ativa para fazer uma turnê comemorativa. Foi aí que uma série de biógrafos passaram a traçar a trajetória da banda. Sergio descobriu que o ostracismo veio justamente pela alcunha de “banda fake”, com integrantes que não tocavam os próprios instrumentos. O escritor explica que, para entender como essa fama surgiu, é preciso compreender um contexto bastante singular da indústria do rock nos anos 1960.

"Nos bastidores, existiam músicos de alto calibre que eram contratados para tocar em álbuns de bandas na época. Os integrantes das bandas mesmo não tocavam. Grandes grupos mais pop usufruíram dessa prática, como os Beach Boys, até mesmo na gravação do Pet sounds", explica. De espírito rebelde, os integrantes do Monkees não aceitaram quando a gravadora impôs a prática. Acabaram tendo de entrar no sistema, mas escolheram uma forma “ingênua” de denúncia. "Eles foram a público denunciar tudo o que era feito, alegando que não tocavam os instrumentos, porém sem contextualizar muito. Eles não tinham muita noção das consequências e isso gerou um escândalo enorme. Isso rodou o mundo todo quase na velocidade que temos hoje com a internet. Ainda tentaram se defender, mas já era tarde demais. Acabaram sendo os bodes expiatórios dessa prática", diz.

O autor elenca outras características reforçaram a polêmica: o grupo era vinculado à TV, meio conhecido por produzir cultura comercial e instantânea. A grafia do nome da banda remete a monkeys (macacos). Juntos, esses fatores resultaram no ostracismo. Daí em diante, temos a história que muitos já sabem e tantos outros deixaram de conhecer.

SERVIÇO
Lançamento do livro Love is understanding, de Sergio Farias
Quando: quarta-feira (4), às 19h
Onde: Passa Disco (Rua da Hora, 345, Espinheiro)
Informações: 3421.3725
Preço do livro: R$ 52


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