Música Trapper pernambucano Joma 'se torna branco' em clipe para discutir racismo Acompanhado por uma ação de marketing no Instagram, o vídeo do recifense de 21 anos critica a prática de 'blackfishing'

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 29/01/2019 13:11 Atualizado em: 29/01/2019 14:16

Antes e depois de João Marcelo Santanna, de 21 anos. Foto: HoodCave/Divulgação
Antes e depois de João Marcelo Santanna, de 21 anos. Foto: HoodCave/Divulgação

Silicone nas nádegas. Maquiagens que deixam os lábios carnudos, sobrancelhas arqueadas e pele bronzeada. Cabelos artificialmente cacheados. O blackfishing é uma prática que tem se popularizado entre influenciadoras digitais brancas que, inspiradas principalmente nas Kardashians, adotam traços físicos negros e adereços da cultura negra para parecerem negras, mestiças ou racialmente ambíguas. É uma fórmula que tem rendido milhares, até milhões de seguidores no Instagram. Foi antenado nessa realidade que o trapperpernambucano JOMA, que é negro, decidiu “virar branco” em seu novo clipe para discutir racismo, privilégios caucasianos e, sobretudo, essa apropriação de estéticas raciais na internet.

Antes mesmo do vídeo ser lançado, a "ação" começou no Instagram do jovem (@jomadahood). Na última sexta-feira (25), ele publicou uma foto em que aparece com pele clara, olhos azuis e peruca loira, revelando ser o "primeiro trapper transracial". "Finalmente tive coragem de assumir essa nova identidade. Espero que compreendam minha escolha e apoiem minha nova estética, pois ela definirá meu trabalho daqui pra frente", diz a descrição da imagem. A publicação ultrapassou a faixa de 1500 curtidas e atingiu quase 1000 comentários - bem acima da média das outras publicações do artista.

Em seguida, João Marcelo (nome de batismo) postou um vídeo revelando que tudo se tratava de uma "ação de marketing" para divulgar o clipe de Vizinhos, faixa do EP Meu nome não é Joma. A explicação acabou viralizando no Instagram, sendo compartilhada até mesmo pelo rapper paulista Rincon Sapiência. Em entrevista ao Diario, Joma conta que já tinha a ideia para o clipe, mas que os casos de blackfishing nos Estados Unidos ajudaram a criar essa estratégia de divulgação. 


"O objetivo é que as pessoas conheçam o que está acontecendo antes que isso se popularize ainda mais. Queríamos estimular a discussão, pois essa prática fere o povo negro e a cultura negra como um todo. Faz as pessoas negras não serem valorizadas em detrimento de pessoas que aderem uma estética fake", diz. A ideia teve inspiração na cantora jamaicana Spice, que fez algo semelhante em sua conta do Instagram. Também remete a um episódio da série norte-americana Atlanta, em que o personagem Earnest Marks (Donald Glover) encarna o "branco satírico" Teddy Perkins.

Indo além das redes sociais, o blackfishing ganhou a mídia com o caso da norte-americana Rachel Dolezal, que se passou por negra durante vários anos enquanto trabalhava na Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor (NAACP). Ao ter sua origem caucasiana revelada, ela foi protagonista de um intenso debate sobre raça e identidade. Em entrevista à BBC, a estadunidense se classificou como "transracial". "Eu definitivamente não me sentia em casa no mundo branco, eu me sentia uma estrangeira. Era desconfortável, estranho e também opressor, porque eu tinha que mascarar, subordinar ou reprimir partes de mim mesma para sobreviver socialmente", disse.

CLIPE
Publicado no domingo (27), o vídeo de Vizinhos mostra Joma indo visitar um traficante drogas em um condomínio. No elevador, é ignorado e empurrado pelos moradores. O traficante é Roger - a "faceta branca" do trapper -, um rapaz adorado pelos mesmos vizinhos outrora hostis. A produção é da equipe da HoodCave, selo independente do trap recifense que também conta com artistas como NexoAnexo, HoodBob e MC Klebinho. 

"Não podemos apagar o protagonismo que estamos ganhando, que ainda é pouco comparado ao tanto que a gente trabalha. Merecemos todo o protagonismo e muito mais", finaliza o jovem. Com oito faixas, o EP Meu nome não é Joma está disponível em plataformas digitais como Spotify e YouTube.

*Trapper com "t", ao invés de rapper, pois o pernambucano é um artista do trap - vertente que usa batidas mais eletrônicas e dançantes.


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