Cinema Indicações ao Oscar 2019 mostram mudanças no modo de pensar da Academia Mudanças de paradigmas, quebras de recordes e de perspectivas sociais, além de mensagens agregadoras, cercam a lista de candidatos de 2019

Por: Ricardo Daehn - Correio Braziliense

Publicado em: 27/01/2019 11:48 Atualizado em: 27/01/2019 12:01

Foto: Marvel/Divulgação.
Foto: Marvel/Divulgação.
Todo ano, quando é divulgada a lista dos finalistas ao Oscar, ela aponta um compêndio de factoides e de tendências. Este ano não é diferente. Aliás, as mudanças são profundas, ainda que, entre o anúncio dos concorrentes em 24 categorias, haja o encorajamento de gostos muito específicos dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Grosso modo, convidados em junho do ano passado, 928 novos integrantes da comunidade do Oscar, vindos de 59 países, parecem dispostos a redirecionar o viés do prêmio que, como todos os eventos de prêmios televisionados, vêm perdendo audiência nos últimos anos.

A renovação começa pelo formato da festa, ainda guardado a sete chaves. Com a desistência de ser mestre de cerimônias da noite, que transcorrerá em 24 de fevereiro, o ator Kevin Hart (em cartaz no filme Amigos para sempre) abriu precedente para novidades no 91º Oscar. Há especulações de que atores se revezarão no palco, suprindo a figura de um apresentador/ humorista. O próprio anúncio dos candidatos ao Oscar contemplou a diversidade: a atriz negra Tracee Ellis Ron (de Black-ish) formou par com o paquistanês Kumail Nanjiani (indicado, no ano passado, pelo roteiro de Doentes de amor) na leitura da lista.

Um dado curioso está na circunstância de Ellis Ron ser filha da diva Diana Ross que, em 1973, com O ocaso de uma estrela, formou com Cicely Tyson (de Sounder), o inédito fato de a lista de indicadas a melhor atriz central trazer duas afro-americanas. Ex-mulher de Milles Davis, Tyson, aos 94 anos (ou seja mais velha do que a estatueta do prêmio), vem a ser justamente a vencedora de Oscar honorário —atrelada à cerimônia de fevereiro.

Com o ator Paul Winfield, nos anos 1970, Tyson formou ainda o primeiro casal negro indicado por um filme. O prêmio reservado à atriz (entregue, previamente, em novembro) chegou num instante turbulento para padrões estabelecidos do Oscar que investiu forte na multiplicação da representatividade negra. Quem também ganhou projeção foram os estrangeiros. Para se ter dimensão do impacto da criatividade dos profissionais de fora de Hollywood, basta ouvir o trabalho do estrangeiro premiado, ao lado de Cicely Tyson: o compositor e pianista argentino Lalo Shifrin, que criou nada menos do que a música-tema de Missão impossível. Confira alguns dos pontos que balizam a disputa.

O céu é o limite

Como em 2000, o ano em que o taiwanês O tigre e o dragão foi catapultado com 10 indicações, o filme do mexicano Alfonso Cuarón Roma — indicado como melhor filme e melhor filme estrangeiro — obteve projeção semelhante, com o diferencial de cravar a primeira acolhida completa da Academia para um filme destinado ao streaming (da cartela da Netflix). A escalada do diretor mexicano de Roma acompanha uma tendência de consecutiva valorização de talentos estrangeiros em Hollywood. Recentemente, Michael Hazanavicius, Ang Lee, Alejandro Gonzáles Iñárritu (duas vezes), Guillermo del Toro e o próprio Cuarón (por Gravidade) faturaram a estatueta. Atípico é o fato de o realizador mexicano, agora, estar à frente de um filme de cunho íntimo e que valoriza traços do México. Com Alan Menken (da animação A bela e a fera) e com os irmãos Ethan e Joel Coen, além de acompanhado por Warren Beatty, Cuarón se tornou o quarto profissional a obter quatro indicações, num mesmo ano, por funções diferentes.

Chances dos artistas negros

Com a expectativa frustrada, em 2014, de ver o cineasta de 12 anos de escravidão, Steve McQueen, ser o primeiro diretor negro a vencer o Oscar, Spike Lee (de Infiltrado na Klan) pode colher tal honraria. Também inédita foi a posição sacramentada para o fenômeno de bilheteria gerado pelo longa de super-herói Pantera Negra: depois de capitalizar US$ 1,3 bilhão, se tornou o primeiro saído de histórias de quadrinhos a coletar sete indicações, incluída a de melhor filme. Na quarta edição do Oscar (1931), a tirinha de jornal Skippy rendeu uma indicação ao prêmio de melhor filme.

Enquanto Pantera Negra referenda a ascensão de poder de um jovem príncipe, o virtual empoderamento do grupo segregacionista da Ku Klux Klan é abalado em Infiltrado na Klan. Morto em 1987, o autor negro James Baldwin (com textos reproduzidos no documentário Eu não sou seu negro) é a força motriz de outro título relevante no Oscar: Se a rua Beale falasse. Fita denúncia assinada por Barry Jenkins, o longa destacou a atriz Regina King como forte candidata a melhor atriz coadjuvante.

Tempo de sotaque

Depois do ano histórico de 1977, quando da indicação de um trio de intérpretes centrais estrangeiros — Giancarlo Giannini, Marie-Christine Barrault e Liv Ullman atuaram em filmes diferentes —, as duas atrizes mexicanas Marina de Tavira e Yalitza Aparicio concorrem, falando espanhol, por Roma. Além delas, no passado, as mexicanas Salma Hayek, Katy Jurado e Adriana Barraza estiveram no páreo, ao longo da história do Oscar. Espanhóis plenos só foram adotados pelos candidatos, do passado, Penélope Cruz (Volver), Catalina Sandino Moreno (Maria cheia de graça), Javier Bardem (Biutiful) e Benicio del Toro (Traffic).

Sucesso sacramentado

De um mesmo enredo, adaptado por quatro vezes para o cinema, a obra Nasce uma estrela, pelas oito indicações de 2019, acumulou 26 indicações para o Oscar. Depois do casal de indicados clássicos representados por Frederic March e Janet Gaynor (1937) e James Mason e Judy Garland (1954), a hora e a vez é de Bradley Cooper e de Lady Gaga. Segunda pessoa a ser distinguida, no mesmo ano, por atuação e música, Gaga se iguala a Mary J. Blige (de Mudbound). Com elas, há um time de cantoras famosas celebradas pelo Oscar, e que inclui Doris Day, Dorothy Dandrige, Barbra Streisand, Bette Midler e Cher. Coprodutor do drama Nasce uma estrela, o ator Bradley Cooper compete pela segunda vez ao prêmio principal, depois de causar com Sniper americano (2014). Com a batida na trave, na seleção dos melhores diretores, Cooper quase entra para o seleto grupo de oito atores-diretores (indicados nas duas funções) e que traz de Orson Welles a Woody Allen, passando por Kenneth Branagh e Clint Eastwood.

A hora da estrela
Foto: Pandora Filmes/Divulgação.
Foto: Pandora Filmes/Divulgação.
Caso venha a perder o Oscar de melhor atriz por A esposa, Glenn Close entrará para a história no rol dos maiores perdedores do prêmio, ao lado de Thelma Ritter e Deborah Kerr (que somam 12 indicações), Richard Burton (sete indicações) e Peter O´Toole (oito indicações). Mas é pouco provável que isso aconteça até pelo tipo de papel (além, óbvio, do talento de Close) defendido: ela é uma mulher engasgada pela presença quase ofensiva do marido, um abusivo escritor metido a bom sujeito. Na carreira, Glenn Close estabeleceu marcos para o feminismo, em fitas como Atração fatal (1988), O mundo segundo Garp (1982) e Albert Nobbs (2012). No cenário de 2019, a grande disputa de Close deve se configurar pelo brilho e a excelência de Olivia Colman em A favorita.

Realismo globalizado

Pela primeira vez na história do globalizado prêmio, dois diretores estrangeiros — o polonês Pawel Pawlikowski e o mexicano Alfonso Cuarón — competem por causa da aceitação de filmes concorrentes na categoria de melhor filme estrangeiro (melhor dizendo, não falados em língua inglesa). Não há, entretanto, muito motivo para cantar vitória: a categoria já reuniu, ao longo de nove décadas, 25 nomes, entre os quais os dos brasileiros Fernando Meirelles e Héctor Babenco, e o de outros ilustres perdedores, como Federico Fellini, François Truffaut e Akira Kurosawa. Ainda na lista dos diretores de 2019, o grego Yorgos Lánthimos emprega em A favorita elementos integrados nos concorrentes a melhor filme Green book e Bohemian rhapsody: carga LGBT e embasamento em temas saídos da realidade. Diretor no páreo pelo Oscar, Adam McKay segue a mordacidade aliada aos jogos de poder (também salientada em A favorita), em Vice, filme candidato a oito prêmios.

Cadê a cor?

Pela primeira vez (desde 1968, quando foram reunidas as direções de fotografia coloridas e em preto e branco), dois títulos com imagens em preto e branco — Roma e Guerra fria (foto) — competem. No primeiro, o diretor Alfonso Cuarón retoma a função exercida nos primeiros curtas que dirigiu, enquanto, no segundo caso, Lukasz Zal referenda a qualidade da escola polonesa de tratamento de imagem. Houve, no Oscar, desde os anos de 1960, valorização com indicações para apenas 15 filmes sem cores. Vencedor na categoria, em 2011, O artista foi o mais recente longa em preto e branco a conquistar título de melhor filme. Ida (2015), justamente com trabalho de Lukasz Zal, ocupava, até agora, o posto da mais recente indicação no quesito direção de fotografia. 

 


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