Música Misty, a boate alternativa que fez história na vida noturna do Recife Há 40 anos, o clube noturno iniciava uma nova era para a música eletrônica na capital pernambucana. Festa no Bairro do Recife celebrará o aniversário

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 19/01/2019 11:01 Atualizado em: 20/01/2019 14:30

DJ Tom Azevedo, responsável por comandar o som da Misty, trouxe ao Recife o que havia de mais moderno no mundo da música. Foto: Bruna Costa/Esp. DP
DJ Tom Azevedo, responsável por comandar o som da Misty, trouxe ao Recife o que havia de mais moderno no mundo da música. Foto: Bruna Costa/Esp. DP

Em janeiro de 1979, a Rua do Riachuelo, no Centro do Recife, sediou a inauguração de um estabelecimento que iria marcar a história da vida noturna da capital: a Boate Misty. Apostando em uma sonoridade alternativa que mesclava synthpop, pós-punk, new wave e outros gêneros dos primórdios da música eletrônica, o local atraiu um público bastante singular. Intelectuais, artistas e figuras "descoladas" da alta sociedade que se vestiam à moda clubber para dançar ao som de artistas como Depeche Mode e New Order junto com a "turma gay" - termo que usavam para se referir à comunidade LGBT naquela época. 

Mais tarde, a boate se mudou para o número 125 da Rua das Ninfas, no bairro da Boa Vista, onde conquistou grande popularidade na cidade e quebrou preconceitos. É o mesmo espaço que atualmente sedia o Clube Metrópole. Com o objetivo de comemorar os 40 anos de inauguração da Misty, o Downtown Pub, localizado no Bairro do Recife, realizará um evento neste sábado, a partir das 22h. Com produção de Kelmer Luciano, a celebração em retrospectiva terá o set do DJ Tom Azevedo, antigo residente da boate, que irá tocar os sucessos que embalaram o clube noturno por 14 anos, de 1979 a 1993. Relembre a sonoridade da Misty no vídeo abaixo.


INÍCIO
A Boate Misty foi inaugurada pelo empresário José Roberto de Castro (mais conhecido como Fefé, falecido nos anos 1990) com intuito de oferecer ao público um estabelecimento diferenciado e moderno, tanto na música quanto no ambiente. O evento de inauguração foi registrado pelo colunista social João Alberto na edição de 5 de janeiro de 1979 do Diario de Pernambuco. "Quem compareceu, saiu com a impressão de que o Recife não é mais aquela província de antes. Uma loucura total, uma noitada em que aconteceu tudo que se pode imaginar. Tinha gente de smoking até frenéticas, com óculos de gatinho".

Nota na coluna de João Alberto, 1978. Foto: Acervo
Nota na coluna de João Alberto, 1978. Foto: Acervo

Na nota, ele comenta que era "impossível descrever o clima", mas que se tratava da boate mais luxuosa do Centro, com excelente seleção musical e bom serviço, como a Studio 54 de Nova York. "As pessoas conhecidas eram muitas, mas como não estamos ainda em Nova York, prefiro não divulgá-las, inclusive para atender a mil pedidos", finaliza o colunista.

Esse anonimato requerido pelos presentes revela que, desde o início, a Misty tinha uma certa aura proibida. O Brasil ainda vivia a ditadura militar, sob presidência de Ernesto Geisel. O governador de Pernambuco era Francisco Moura Cavalcanti, também do partido ARENA. No imaginário do "cidadão comum", a Misty era um local diferente demais, alternativo demais. O espaço costumava aparecer como ambiente da “turma gay” nas colunas de entretenimento da época. Nas páginas de artes cênicas, era possível encontrar notas sobre temporadas de shows com “atores transformistas” que mesclavam música, teatro e humor.
O Grupo de Teatro Espontâneo apresentando a peça Madame Estopim e a Dama do Amor na Misty da Rua do Riachuelo, em 1980. Foto: Acervo do Diario de Pernambuco
O Grupo de Teatro Espontâneo apresentando a peça Madame Estopim e a Dama do Amor na Misty da Rua do Riachuelo, em 1980. Foto: Acervo do Diario de Pernambuco
"No começo, a boate tinha uma conotação meio grotesca”, relembra o DJ Tom Azevedo, com hoje com 65 anos. "Eu já tocava em outras boates no Recife, mas quando o Fefé me chamou para a Misty eu tive mais liberdade de explorar o underground. Pixies, System of Mercy e Nina Hagen foram bastante presentes nos sets. Naquela época não existia internet, então as pessoas queriam visitar a boate para conhecer as novidades. Era a formação de uma geração que estava acontecendo ali".

Tom Azevedo. Foto: Bruna Costa/Esp. DP
Tom Azevedo. Foto: Bruna Costa/Esp. DP
BOATE EUROPEIA NO NORDESTE
A mudança para a Rua das Ninfas foi em 1982. A Misty ganhou um ambiente maior que suportava até 1500 pessoas, sendo decorada com uma estética inovadora, semelhantes aos clubes noturnos da Europa. Foi equipada com o melhor sistema de som da cidade, importado do Sudeste - característica até hoje mantida pelo Clube Metrópole. Também se tornou alvo de reportagens em revistas como Veja, Isto É e Playboy. Um novo público, sem nenhuma ligação ao universo queer, começou a ter curiosidade pelo lugar. Foi quando a Misty passou a agregar diversas tribos, incluindo endinheirados da Zona Sul.

Nessa época, Tom Azevedo perguntou para Fefé se eles deveriam apostar em uma sonoridade mais popular e acessível. "Ele disse que eu poderia continuar fazendo o que eu quisesse. Foi aí que entrei com um ritmo que era bem novo no cenário musical mundial. Chamavam de electronic body music, uma fusão do synthpop dos anos 1980 com a música industrial. Hoje, tenho o prazer de dizer que lancei nomes como Depeche Mode e New Order no Recife". As playlists com teor mais "pop" ficaram por conta dos DJs residentes Chico Almeida e Jesus Barreto, que tocavam sucessos de Madonna, Michael Jackson e Duran Duran.

Caixa de cigarros e panfleto da Misty. Foto: Kalina Galindo/Cortesia
Caixa de cigarros e panfleto da Misty. Foto: Kalina Galindo/Cortesia
Apesar de tantas noites memoráveis, Azevedo consegue destacar algumas mais especiais. Em 1989, houve uma festa de lançamento do disco clássico Like a prayer, de Madonna. Foram 2000 pessoas presentes, o maior público da história da boate. "Queríamos exibir vídeos de uma fita cassete, mas o ambiente ficou tão úmido com o suor do público que o equipamento falhou". Ele também destaca a festa Uma Noite na Berlin Ocidental, com o DJ alemão Harry Bierter Lung.

Outro evento revelante foi A Primeira Festa Hip Hop do Recife, promovida por Chico Assis (o futuro Chico Science) com seu grupo de dança de rua Orla Orbe e o DJ Spider. "Você estará em contato com o mundo dos B-Boys, DJs, rappers e grafiteiros”, dizia a chamada nas rádios para divulgar o evento. Ouça a vinheta no player abaixo.


Francisco de Assis França (futuro Chico Science) dançando break na Misty em 1989. Foto: Dj Elcy/Acervo
Francisco de Assis França (futuro Chico Science) dançando break na Misty em 1989. Foto: Dj Elcy/Acervo
O músico Jorge Du Peixe, o dramaturgo João Falcão e os atores Aramis Trindade e Suzana Costa eram outros nomes constantes da boate. Até mesmo celebridades do eixo Rio-São Paulo "bateram carteira" por lá: Cissa Guimarães, Glória Maria e Miguel Falabella são exemplos. Grupos de todas capitais do Nordeste organizavam caravanas para conhecer a discoteca. Os ônibus ficavam estacionados pela Boa Vista.

O FIM
As madeixas negras de Maria do Céu, hoje proprietária do Clube Metrópole, também já circulavam pela pista de dança da Misty no começo dos anos 1980. "Só guardo lembranças boas. Acho que, para minha geração, aquele espaço teve uma representação muito forte. Já era um lugar de resistência, ao mesmo tempo em que era um outro momento de tudo”, relembra a empresária, que chegou a produzir algumas festas na boate. Ela também chegou a modelo de um desfile realizado Beto Kelner (atualmente dono da marca Gatos de Rua) na pista da boate.

Em 1993, a Misty fechou as portas depois que José Roberto de Castro foi alvo de uma ação trabalhista movida por um segurança na justiça. "Já estávamos esgotados e ele decidiu fechar. Me lembro como se fosse hoje. Tinha uma festa marcada para o sábado, mas não aconteceu. A galera ficou muito chateada. É como se tivessem tirado um coração musical da cidade, toda aquela coisa pulsativa parou", diz Tom.

"Depois que fechou, eu passava pela Rua das Ninfas, via aquele prédio e pensava: 'Isso daqui não pode ser outra coisa. Tem que ser uma boate'", diz Maria do Céu. "Convenci meu sócio da época a alugar o prédio, assim abrimos a boate Doktor Freud. Conseguimos também alugar o andar de cima, que era um bar sem ligação com a Misty. Foi aí que o estabelecimento ganhou dois andares, como atualmente. Apenas em 2001 mudou de nome e virou a Metrópole. Até hoje, quando entro no térreo, ainda sinto a Misty. É como uma questão energética. Eu vejo a Misty quando olho para aquelas luzes".

Fachada da Metrópole, que funciona há 16 anos na Rua das Ninfas. Foto: Thiago Britto/Divulgação
Fachada da Metrópole, que funciona há 16 anos na Rua das Ninfas. Foto: Thiago Britto/Divulgação
Em 2009, um empresário decidiu reviver os dias de glória e inaugurou a New Misty, com um ambiente moderno e sofisticado na Avenida Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem. O espaço ficou aberto por quatro anos. "Ele chegou a pedir que eu fechasse a Metrópole para abrirmos essa nova Misty, mas não acredito nisso de reviver algo que já fechou”, diz Maria. "Aquele público original da Misty nem está mais de fato na noite. A garotada de hoje quer ouvir Rihanna e brega (risos). Mas claro que ainda cabem edições para relembrar, como essa da Downtown".

"A ideia do evento deste sábado é justamente reunir essa galera que ficou órfão. Há uns três anos culminamos esse casamento da Downtown com a Misty. O ambiente tem o clima da antiga boate e tentamos recuperar aquela época. Conseguimos isso através da música. Ela sim é eterna, nunca morre", conclui Tom.

SERVIÇO
Festa Misty 40 Anos - O Aniversário Mandrake 
Onde: Downtown Pub (Rua Vigário Tenório,105, Recife Antigo)
Quando: neste sábado (19), a partir das 22h
Quanto: R$ 25, à venda no Sympla
Informações: (81) 98704-5450



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