carnaval 2019 Homenageados do Carnaval do Recife, Gerlane Lops e Belo Xis são símbolos de resistência e reinvenção do samba Confira o perfil desses dois artistas e entenda porquê eles foram escolhidos

Por: Caio Ponciano - Diario de Pernambuco

Publicado em: 12/01/2019 08:48 Atualizado em:

Belo Xis e Gerlane Lops recebem a homenagem da Prefeitura do Recife. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR/Divulgação
Belo Xis e Gerlane Lops recebem a homenagem da Prefeitura do Recife. Foto: Andréa Rêgo Barros/PCR/Divulgação


O carnaval é sempre um período importante e de muito trabalho para a cantora, compositora e percussionista Gerlane Lops. Aos 44 anos, a sambista olindense comanda um trio elétrico só de frevo no Galo da Madrugada e apresenta no Recife Antigo a orquestra de samba Recife de bambas. A festa deste ano terá um significado especial para a artista. Ao lado do sambista veterano Belo Xis, Gerlane será a homenageada no Carnaval do Recife. Para ela, esse momento representa um olhar de agradecimento. “É um gênero que resiste em Pernambuco há muitos anos. Quando uma homenagem como essa é feita, todos os artistas do samba são lembrados e agradecidos. Belo e eu somos apenas os representantes desse povo que vive para o samba”, acredita. 

Gerlane deu os primeiros passos na música muito cedo. Aos 4 anos, ela acompanhava a irmã, Gisele, em apresentações do coral Catavento, para não ficar sozinha em casa. “Lembro que, em algum momento, me deram um microfone e comecei a cantarolar”, revela. Já o talento pelos instrumentos foi aflorado na adolescência, quando integrou uma banda marcial e ingressou no Conservatório Pernambucano de Música. Gerlane concluiu o Ensino Médio aos 16 anos e, sem perder tempo, foi aprovada para cursar Licenciatura em Música na Universidade Federal de Pernambuco. “Decidi fazer o curso porque eu gosto dos estudiosos, acho que eles me facilitam a vida. Você amadurece muito quando passa por uma universidade, mas tem que ser inteligente para saber usar da melhor forma o conhecimento que adquiriu”, sugere. 

Em 1996, logo depois da passagem pela universidade, a cantora participou do Festival Canta Nordeste, da TV Globo, onde obteve o 1º lugar na eliminatória pernambucana e 3º na classificação geral, com a música Tempo de varanda. Já com 21 anos, Gerlane recebeu um convite do Sesc Pernambuco para musicar poemas do espanhol Federico García Lorca, no espetáculo que celebrava o centenário do nascimento do poeta. O primeiro disco da artista, Lorca - canções de lua, lançado em 1999, é baseado nesse espetáculo e todo o repertório mesclou os poemas a diferentes ritmos brasileiros. 

Mas foi em 2000 que a cantora diz ter encontrado sua identidade musical, ao lançar o álbum Gerlane Lops, com dez faixas que misturavam o pop com o maracatu, a ciranda e o mangue, exaltando as raízes pernambucanas. O disco apresentou releituras de sucessos, como Eu só quero um xodó, de Dominguinhos, e Piaba de ouro, de Erasto Vasconcelos e Lula Queiroga, além de Ritmos, um mangue composto por ela. 

Há quase 15 anos, Gerlane Lops comanda mensalmente o projeto Recife Samba de PE, idealizado por ela. Foto: Tiago Nunes/Divulgação
Há quase 15 anos, Gerlane Lops comanda mensalmente o projeto Recife Samba de PE, idealizado por ela. Foto: Tiago Nunes/Divulgação

O casamento com o samba começou em 2007, com a turnê Gerlane Lops em tom de samba, onde ela dividiu o palco com grandes nomes da música brasileira e cantou obras que marcaram a sua trajetória. Um ano depois, a cantora se firmou no gênero ao lançar o disco Da branca, que leva o nome de uma canção de sua autoria com Siri do Cavaco. O álbum juntou sambas feitos em Pernambuco, por Isaías do Cavaco e pelo eterno Capiba, outros compostos por Paulinho da Viola, Chico Buarque e Clara Nunes, e músicas autorais da olindense. “Para escrever, eu me inspiro na realidade do próximo e na minha própria realidade também. Gosto de cantar o amor à natureza, amor às pessoas, o amor à música.”

Há quase 15 anos, Gerlane Lops está à frente do projeto Recife Samba de PE, idealizado por ela. Atualmente, o show é apresentado uma vez por mês na sede do Galo da Madrugada, na região central do Recife, mas a artista lembra que a iniciativa começou durante a turnê ...Em tom de samba. “Ele já teve outros nomes e começou em um espaço na Rua do Lima, depois passou oito meses na Casa de Bamba e hoje a gente tem a oportunidade de fazer na sede do maior bloco do mundo”, comemora. A anfitriã costuma trazer artistas de outros gêneros musicais para cantar samba junto com ela. Já passaram pelo Recife Samba de PE nomes como Mart'nália, Mariene de Castro, Zélia Duncan, Isabella Taviani, Márcia Freire, Luiza Possi, entre outros. 

Com a homenagem do carnaval deste ano, a carreira de Gerlane está a todo vapor. No próximo mês, a artista lança o videoclipe da sua aposta para a festa momesca. A faixa composta por Jana Figarella se chama Obá-obá e teve clipe gravado na Ilha de Fernando de Noronha, sob direção de Izabel Carvalho. Quando a folia chegar de vez, em março, a cantora fará a direção artística do show do também homenageado Belo Xis, além de comandar um trio no Galo e a Orquestra Recife de bambas.

Belo Xis já nasceu entre os bambas

Belo Xis apresentou para o Recife o Dia Nacional do Samba, que marca o 2 de dezembro na capital. Foto: Peu Ricardo/Divulgação
Belo Xis apresentou para o Recife o Dia Nacional do Samba, que marca o 2 de dezembro na capital. Foto: Peu Ricardo/Divulgação

“Estou feliz, grato, realizado e com insônia”, brinca Antônio José de Santana, mais conhecido como Belo Xis, quando perguntado sobre o sentimento de ter sido escolhido para receber a homenagem no Carnaval do Recife deste ano. Filho de sambistas, o recifense, criado no bairro da Torre, é o puxador oficial da escola Gigante do Samba, na Bomba do Hemetério, Zona Norte do Recife. Com 45 anos de carreira, Belo cresceu no meio do samba, quando seu pai reunia amigos no quintal de casa semanalmente para confraternizar e ouvir artistas como Ciro Monteiro, Jorge Veiga, Roberto Silva, Germano Matias, Jamelão, Elizete Cardoso, entre outros. O jovem Antônio era o responsável por trocar os discos na radiola. Nessa época, o futuro sambista era apaixonado por futebol. Ele chegou a jogar no Santa Cruz, no Sport Club do Recife e foi para o Rio de Janeiro jogar no Vasco da Gama, período em que conheceu grandes sambistas. 

“No Rio, eu fui morar em Madureira, de um lado tinha a Portela, do outro a Império Serrano, aí o bicho começou a pegar. Mas eu vivia muito na Mocidade Independente de Padre Miguel, de onde sou da ala de compositores”, relembra, sobre a época em que conviveu com Zeca Pagodinho, Leci Brandão, Martinho da Vila e Neguinho da Beija-Flor. 

De volta ao Recife, Belo Xis fundou um grupo de samba chamado Sambig Show e começou a se envolver com a Gigante do Samba, na qual ganhou vários títulos. Durante uma ida a São Paulo, ele recebeu uma proposta de uma gravadora, mas um desentendimento entre os diretores fez com que Belo tivesse que adiar os planos de iniciar oficialmente sua carreira. Porém, o pernambucano persistiu e continuou na capital paulista batalhando até conseguir firmar um contrato. 

Já consagrado, Belo apresentou para o Recife o Dia Nacional do Samba, que marca o 2 de dezembro na capital. A primeira celebração aconteceu na Praça do Arsenal, com Belo Xis e Ramos Silva. Depois, Wellington do Pandeiro entrou no projeto, mas ainda não era algo oficial. “Muitas vezes, a gente colocava do nosso próprio dinheiro.” Atualmente, há um incentivo maior para a comemoração e o samba ganhou um dia fixo na programação do Carnaval do Recife. Foi através do vereador Múcio Magalhães, que a Prefeitura do Recife decidiu sancionar a Lei sobre o Dia Nacional do Samba, tornando a capital pernambucana a única a ter também o Dia Municipal do Samba. Pernambuco é considerado o terceiro maior polo de samba do Brasil, ficando atrás apenas de Rio de Janeiro e São Paulo. 

O NOME
Antônio José de Santana se tornou Belo Xis por uma brincadeira. Durante uma partida de futebol de botão com os amigos Jorge Valadares e Gustavo Krause, o sambista ficou responsável por fazer a tabela, por ter a letra mais bonita. “Eu lembro que coloquei algo como Sport x Santa Cruz. Mas o X que fiz foi num estilo meio gótico e eles reclamaram porque eu tinha feito daquela maneira. Falei que tinha ficado um belo X e não tinham motivo de reclamar”, conta. Isso foi o suficiente para que Antônio começasse a ser chamado de Belo Xis. Ele lembra que na época não gostou do apelido e, por isso, pegou rápido.


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