cultura popular O mestre brincante Seu Martelo revela os segredos da arte de ser um Mateus em cinco oficinas Artista vai protagonizar o projeto Só vai no sonho, por diferentes municípios da Região Metropolitana e Mata Norte

Por: Caio Ponciano - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/01/2019 11:10 Atualizado em: 04/01/2019 11:40

Esta será a primeira vez que Seu Martelo será colocado como protagonista de sua própria história. Foto: Luiz Filho/Divulgação (Luiz Filho/Divulgação)
Esta será a primeira vez que Seu Martelo será colocado como protagonista de sua própria história. Foto: Luiz Filho/Divulgação


Conhecimento, memórias, saber popular, corpo e olhar brincantes... Estas características do artista pernambucano Seu Martelo são facilmente identificadas por quem tem a oportunidade de conversar com ele ou assistir algumas de suas apresentações. Aos 82 anos, o brincante vive há mais de sete décadas imerso na cultura popular de Pernambuco, difundindo seus elementos pelo Brasil e pelo mundo afora. A partir deste sábado (05), o artista vai protagonizar o projeto Só vai no sonho, com cinco rodas-oficinas espalhadas por diferentes municípios da Região Metropolitana e Mata Norte, para os interessados em se aproximar desse universo. A estreia será na Escola Pernambucana de Circo, na Macaxeira, e a inscrição é feita gratuitamente no local. 

Segundo a idealizadora do projeto, Raquel Franco, a roda de saberes traz uma metodologia diferente das que são apresentadas em cursos e oficinas tradicionais. “A dinâmica vai ter formato de roda, na qual o mestre compartilha vários elementos da brincadeira e apresenta também a vivência dele enquanto brincante em toda sua trajetória. Terão histórias, cantigas, cordéis, falas sobre a vivência social do maracatu, o trabalho com a cana, a usina… O que está por trás da brincadeira mesmo, que não é só aquele momento da apresentação”, adianta. Ao final, completa, os participantes terão um momento mais interativo, quando serão convocados para brincar de Mateus junto com o mestre, a pintar a cara, cantar e dançar.

Foi a partir do processo de pesquisa para o mestrado que a atriz, palhaça, historiadora e diretora artística da Trupe Circuluz Raquel Franco investigou a corporeidade brincante e como isso pode ser acessada pelo ator no espaço de representação na rua. “Um dos principais brincantes que traz essas referências para mim é o Martelo, assim como outros do Maranhão, onde nasci”, conta a artista, que reside em Pernambuco há seis anos. “Esse universo do agir e da ação brincante no mundo, da brincadeira, do terreiro, da comunidade, foram fundamentais para a minha pesquisa. Foi aí que tive o primeiro contato com o trabalho de Martelo. Ele atua enquanto brincante o tempo todo e conecta vários saberes místicos, sociais, religiosos e espirituais”, explica.

Desde então, Raquel fez algumas visitas à casa de Martelo, o levou para ministrar oficinas em seu grupo de teatro de rua e conta ter percebido que, além da vivência com o cavalo-marinho, Martelo tinha muitas outras coisas que permeavam a vida dele enquanto brincante. “Eu precisava criar um espaço onde ele pudesse compartilhar esse elemento com mais pessoas porque muitas vezes só tinha acesso a isso quem ia visitá-lo ou quando ele vinha dar uma oficina em algum grupo”, aponta. Além do Mateus, que é a figura que tem mais visibilidade, a historiadora identificou que Martelo tinha muito mais a ser mostrado, como as histórias que ele conta - algumas criadas por ele e outras que ele vivenciou naquela região.

Esta será a primeira vez que Seu Martelo será colocado como protagonista de sua própria história. Ele é um dos autênticos e mais antigos representantes da tradição oral da Zona da Mata Norte de Pernambuco e possui várias histórias autorais que misturam religiosidade popular, cordel, comicidade e misticismo. “Martelo já foi referencial para outras pessoas criarem seus espetáculos teatrais, grupos que foram lá beber na fonte, pegaram histórias dele e montaram trabalhos e curtas-metragens. Mas ele ainda é uma figura pouco conhecida se for comparar a outros brincantes do estado”, diz a artista. Ao longo do mês de janeiro, as apresentações ainda vão passar por Paulista, Nazaré da Mata e Camaragibe.

Paixão pelas loas e passos surgiu na infância

Técnica da pintura facial consta na lista de ensinamentos de Seu Martelo. Foto: Adriano Lima/Divulgação (Adriano Lima/Divulgação)
Técnica da pintura facial consta na lista de ensinamentos de Seu Martelo. Foto: Adriano Lima/Divulgação

Seu Martelo gosta de ser Mateus e se pinta como a figura da cultura popular, imortalizada nas obras de Joaquim Cardozo e Hermilo Borba Filho, há décadas. Mateus é uma figura que usa roupas estampadas e chapéu colorido com fita e chicote. O rosto de quem o interpreta é pintado de preto - com carvão machucado ou com a chamada pirna de panela, resquício preto que fica na panela de barro depois de ir ao forno de lenha.

O brincante, batizado como Sebastião Pereira de Lima, herdou o apelido do pai. Poucos sabem o seu nome de batismo. Nascido no município de Nazaré da Mata, Martelo é de uma família de oito filhos. Gente pobre. Apaixonou-se pelas sambadas e pelo cavalo-marinho ainda menino, enquanto via os brincantes correrem estradas, terreiros e canaviais de Goiana. 

A paixão levou o menino, que se escondia por trás dos músicos das brincadeiras para acompanhar as apresentações. Foi assim que decorou muitas loas e aprendeu os passos das figuras apresentadas nos espetáculos populares. Adulto, em 1957, mudou-se com a família de Goiana para Condado, onde ele veio a se incorporar mais tarde ao Cavalo Marinho Estrela de Ouro, fundado em 1979 por Severino Alexandre da Silva, o Mestre Biu Alexandre. O grupo já se apresentou até no exterior.

Programação - Oficina Só Vai no Sonho

Sábado, 5 de janeiro, 19h
Escola Pernambucana de Circo (Av. José Américo de Almeida, 5, Macaxeira - Recife)

Sexta-feira, 11 de janeiro, 19h
Ilê Àse Orisanla Talabi (Rua Orobó, 257, Arthur Lundgren I - Paulista)

Sábado, 12 de janeiro, 17h
Sede do Maracatu Estrela da Tarde (Rua Industrial J R Maranhão, 14, Sertãozinho - Nazaré da Mata)

Domingo, 13 de janeiro, 16h
Canto das Memórias Mestre Zé Negão (Av. Ademar de Barros, 5, João Paulo II - Camaragibe)

Fevereiro (data e horário a definir)
IFPE - Campus Recife (Av. Prof. Luís Freire, 500, Cidade Universitária – Recife)


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