Música Brasileira radicada na França lança álbum que mescla música nordestina e árabe

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 02/01/2019 10:21 Atualizado em: 02/01/2019 15:59

Este é o quarto álbum da carioca, que já morou em capitais nordestinas como Natal (RN) e Fortaleza (CE). Foto: Sabrina Paz/Divulgação
Este é o quarto álbum da carioca, que já morou em capitais nordestinas como Natal (RN) e Fortaleza (CE). Foto: Sabrina Paz/Divulgação
Devido à presença na Península Ibérica por cerca de oito séculos, os árabes influenciaram de forma significativa a cultura brasileira desde a colonização, incluindo a região Nordeste. Foi inspirada nesse cosmopolitismo histórico que Caro Ferrer, cantora e compositora carioca radicada na França há quase 20 anos, decidiu construir pontes entre sonoridades árabes com a música nordestina no álbum Brisa mourisca, lançado em Paris em novembro de 2018 e disponível nas plataformas de streaming. O projeto reúne dez canções inéditas que criam um mosaico entre estéticas aparentemente distintas, mas com paridades sui generis que ligam o presente ao passado.

Migrações, exclusões e separação estão entre as temáticas das canções, enquanto instrumentos árabes como cítaras, darbukas, reqs e dafs se fundem de forma harmoniosa com ritmos como baião, coco, ciranda e maracatu. “Eu compus em cima desses ritmos, usando uma base brasileira de violões de seis e sete cordas, sempre com percussão brasileira”, explica a artista, em entrevista ao Viver.

Este é o quarto álbum da carioca, que já morou em capitais nordestinas como Natal (RN) e Fortaleza (CE), mas foi morar na França em 2001 para estudar a cultura e a língua do país com o desejo de se tornar roteirista. Enveredou para a carreira na música quando, na procura de uma fonte de renda, começou a cantar no extinto bar Blue Note Paris, bastante conhecido entre a comunidade brasileira na capital da francesa. Desde então, lançou os álbuns Jasmim no ar (2009), Samba pelo avesso (2011) e Desarmada (2014).

A convergência cultural também está presente na capa do Brisa mourisca, feita pelo artista recifense Glauber Arbos. Foto: Glauber Arbos/Divulgação
A convergência cultural também está presente na capa do Brisa mourisca, feita pelo artista recifense Glauber Arbos. Foto: Glauber Arbos/Divulgação
“Inicialmente, eu queria trabalhar com sonoridades do Nordeste do Brasil para mostrar esses ritmos para a Europa. Até hoje muita gente aqui acredita que no Brasil, de Norte a Sul, só existe bossa nova e samba. O tropicalismo até chegou no continente europeu, a exemplo dos Mutantes, Gilberto Gil e Caetano Veloso, mas em geral ficou uma visão simplista. Sabemos que não é assim, é infinitamente maior. E digo até melhor”, diz a cantora.

A idealização do Brisa mourisca começou em 2016, quando a intérprete também passou a assistir a ascensão de movimentos conservadores tanto na Europa quanto no Brasil, o que acabou influenciando no conceito base do álbum: trazer musicalidades de convergência histórica e de populações marginalizadas em diferentes contextos geográficos. 

“Um racismo desvairado voltou com força aqui na Europa, sobretudo por conta da imigração em massa da Síria, fazendo surgir um clima meio fascistóide no ar. No Brasil, todo o preconceito também começou a sair do armário com o golpe em 2016, quando tiraram a presidente democraticamente eleita. Surgiu uma onda de ódio de uma camada da população que não queria que alguns projetos sociais continuassem. Então quis aproveitar esse momento para homenagear tanto o nordestino, esse trabalhador brasileiro que migrou, tanto quanto os imigrantes do Oriente Médio na Europa”, explica Ferrer.

Foto: Sabrina Paz/Divulgação
Foto: Sabrina Paz/Divulgação
Quando começou a estudar as raízes da música nordestina, a artista acabou percebendo que realmente havia uma forte influência árabe, no caso ainda do povo “mouro” - expressão utilizada ainda no século XVI, quando houve a “primeira colonização” em terras brasileiras. Alguns exemplos da influência: o rabab, uma espécie de violino primitivo árabe, aqui se tornou a rabeca. O Tabl, um tambor de dimensões em torno de 20 ou 22 polegadas que utiliza baquetas, tornou-se a zabumba do baião, do xote, do forró, etc. Ritmos árabes como malfuf e saudi podem, em suas estruturas rítmicas, serem facilmente identificáveis num típico baião pela mesma fórmula de compasso e os mesmos tempos, fortes e fracos.

Agora, Caro Ferrer deseja que o álbum tenha repercussão pelo Brasil. No entanto, a distância do país cria algumas barreiras na divulgação. “Adoraria encontrar um distribuidor, sobretudo um editor que pudesse colocar as músicas nas rádios. Acho que esse projeto iria ser muito complementar para a nova MPB”, diz ela. “Gostaria também de apresentar o projeto em Natal e Fortaleza, cidades em que vivi, e também conhecer o Recife. Inclusive um artista que me inspira muito é pernambucano: o Alceu Valença. Sou fã dele desde criança e, depois de estudar mais música, acho que talvez ele seja um dos maiores mouros dos compositores nordestinos, ao lado do Zé Ramalho”. A cantora ainda afirma que uma segunda edição do disco já está sendo preparada, dando continuidade a esse universo “nordestino-mouro”.



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.