Música Primeiro álbum solo de Bruno Lins celebra baião e rock dos anos 1970 Vereda caminho, novo projeto do cantor da banda Fim de Feira, traz sonoridade moderna aos tradicionais estilos regionais

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 02/01/2019 09:27 Atualizado em: 02/01/2019 09:30

Com álbum, cantor retorna encorpora a figura do 'cancioneiro popular contemporâneo'. Foto: José de Holanda/Divulgação
Com álbum, cantor retorna encorpora a figura do 'cancioneiro popular contemporâneo'. Foto: José de Holanda/Divulgação

O recifense Bruno Lins se destacou como cancioneiro popular ao liderar, por mais de dez anos, a banda de forró Fim de Feira. Nesse período, entoou sonoridades regionais e poéticas ligadas à tradição cordelista. Em 2009, o grupo ganhou o Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Grupo Regional, alavancando uma turnê internacional por 12 países, incluindo na região do Caribe e alguns do continente europeu. Em seu cotidiano de produção nos últimos anos, no entanto, Bruno veio sentindo sua bússola estética enveredar para o hemisfério norte de forma bastante espontânea.

Estimulado pelo novo momento de experimentação, o artista reuniu canções engavetadas, juntou outras mais frescas e adentrou no Estúdio Muzak, em Casa Forte, com um elogiado time de músicos e cantores para registrar a epifania criativa que se tornou o seu primeiro álbum solo: Vereda caminho, lançado na última semana exclusivamente no site brunolins.com. Com 11 faixas inéditas, o disco aposta na fusão do baião com o rock setentista e o folk, sem perder a essência regional. Evoca, inclusive, uma musicalidade que remete aos pilares dourados de Alceu Valença, o “Bob Dylan brasileiro”.

Para construir esse timbre universalista e nostálgico, ele assina a produção reunindo instrumentistas de diferentes gerações, como Hugo Linns, Rodrigo Morcego, Amaro Freitas e Henrique Albino, além daqueles que já o acompanham na Fim de Feira - Lucivan Max (percussão), Luccas Maia (baixo), Thiago Rad (guitarras e violas), Márcio Silva (bateria) e Guga Fonseca (teclados). Os vocais de Isaar e Larissa Lisboa também marcam suas presenças edificantes no projeto.

Capa de Vereda Caminho. Foto: José de Holanda/Divulgação
Capa de Vereda Caminho. Foto: José de Holanda/Divulgação
"A Fim de Feira não acabou. A banda é uma brasa, uma grande escola. O forró e os ritmos tradicionais sempre foram uma grande referência para mim”, diz Bruno. “No entanto, desde 2014, venho criando algumas músicas paralelas ao grupo. Comecei a perceber que, na verdade, o novo projeto que eu estava procurando estava exatamente nelas. Precisei sair da caixa para poder me expressar em uma poética um pouco diferente do que eu já vinha fazendo", explica. O disco entrou em fase de produção após um aceite do edital do Funcultura, em 2017.

O resultado é um material cosmopolita na medida certa, agregando à cena musical local contemporânea riffs de guitarra que empoderam a viola caipira, o triângulo e a sanfona. "A música pernambucana é muito abrangente e cativa, mas acho que dessa vez eu abri mais diálogos, conversando com outras expressões musicais externas ao ciclo do forró, com o coco, o baião e o xote numa perspectiva mais contemporânea, moderna", diz Bruno.

"Meu pai veio do Sertão da Paraíba e minhas primeiras referências musicais foram Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro", diz. "Ao chegar à adolescência, comecei a conhecer outras sonoridades, a ter acesso a outras informações literárias e sonoras modernas. Isso influi diretamente no processo de produção. Descobri um universo do rock and roll não só britânico e norte-americano, mas sobretudo dessa mistura que chegou aqui através de interlocutores como Alceu Valença, Ave Sangria e a galera da geração Udigrúdi. É incrível como eles conseguiram ressignificar. Tudo isso está presente simbolicamente nesse material: uma música do mundo, mas fabricada e desenvolvida aqui na nossa terra", conta.

Foto: José de Holanda/Divulgação
Foto: José de Holanda/Divulgação
No âmbito das temáticas, há uma fuga dos conteúdos mais descritivos das tradições do interior nordestino para focar nas particularidades do intérprete. "A universalidade está na sonoridade, mas na temática é bem mais confessional. Eu me exponho muito. O álbum traça um período da minha vivência. As letras têm um teor bem mais biográfico do que na banda. É um paradigma diferente de olhar de fora para dentro e trazer à tona inquietações, a maneira que observo o mundo".

Embora ainda esteja exclusivamente no website criado para o projeto, Vereda caminho estará disponível nas plataformas digitais em breve, justamente com uma tiragem física em função do incentivo do Funcultura. A agenda de shows do álbum começa em janeiro, com lançamento nos dias 23 e 24, no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife, no período do Janeiro de Grandes Espetáculos.

“É muito difícil juntar tanta gente boa para fazer um material que você olhe e diga: ‘está massa’. Sobretudo em tempos tão difíceis para a arte, para a música, para o fazer artístico. Vereda caminho vem para coroar um cenário muito difícil para isso tudo. Serve como objeto de resistência para podermos valorizar isso, para que estejamos preparados para colocar nossa voz e defender nossos direitos”, afirma Bruno Lins.


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