Distrito Federal Os desafios de quem escolheu a carreira artística Na literatura, na música, na dança e no teatro, é preciso enfrentar obstáculos

Por: Ronayre Nunes - Estado de Minas

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 23/12/2018 14:49 Atualizado em: 23/12/2018 14:59

João Campos largou o jornalismo para ser ator. Foto: Jamila Maria/Divulgacao.
João Campos largou o jornalismo para ser ator. Foto: Jamila Maria/Divulgacao.
Entrar de cabeça em uma carreira artística nem sempre é tarefa fácil. Entre as inseguranças financeiras que cercam os primeiros passos da profissionalização em arte estão o preconceito de familiares  e da sociedadee a busca pela fama. Os novos artistas podem se sentir desmotivados. Entretanto, a vocação e a necessidade de expressão  mantêm funcionam como alimentos. 

Nomes importantess da cultura da cidade em literatura, artes cênicas, música e dança contam quais são os obstáculos a serem superados nos primeiros momentos da carreira, e, especialmente, como os prazeres da arte os impulsionam perante as dificuldades, confira.

João Campos – cênicas

João Campos havia acabado de deixar o palco quando recebeu o comentário mais importante da carreira. Corria o ano de 2008 ele estava em cartaz com a peça O terceiro lar, um dos trabalhos mais desafiantes da breve carreira. No palco, João interpretava a agonizante história de um militante durante os anos de chumbo. Cansado pela exaustão da adrenalina do palco, ao chegar em casa, ouviu da mãe que, pela primeira vez, presenciara o filho em um projeto cênico profissional: “Você é bom nisso, né. É o seu caminho”.

Ao ser questionado sobre o momento mais marcante da carreira, que já emenda 14 anos de palcos, João escolhe esse pequeno momento de 2008, em que, enfim, recebeu a benção da mãe sobre profissionalização artística: “Foi um momento marcante. Ali, aquela fala, por tudo que minha mãe representava para mim, foi nesse momento que minha ficha caiu. Eu podia ser um ator”.

Se, atualmente, João Campos já é conhecido pelo trabalho no teatro, televisão e cinema, é difícil imaginar que, há pouco mais de uma década, nada disso fazia parte dos planos do jovem estudante de jornalismo da Universidade de Brasília (UmB). “Geralmente as pessoas têm essa referência, mas jamais imaginei que fosse me tornar um ator quando criança. Pelo contrário, eu era uma criança tímida, daquelas que se escondia debaixo da mesa quando ia cantar os parabéns nos aniversários”, relembra o ator de 34 anos.

Entretanto, tudo mudou em 2004, quando, aos 20 anos de idade, deu de cara com um cartaz que falava sobre aulas de teatro. Um empurrãozinho de um amigo o levou a experimentar. “Eu já meio que estava nas artes por conta de uma banda de adolescência, mas em relação a teatro mesmo, acho que isso foi o passo inicial. Desde então, eu nunca mais parei, fui mergulhando e mergulhando, até que tive de escolher entre as peças e a banda. E escolhi o teatro”.

A decisão mais difícil, contudo, deu-se em 2012, quando João decidiu largar o jornalismo e se dedicar integralmente ao teatro. “Na época, eu não tinha uma noção muito grande porque trabalhava e tinha um salário mensal. Foi o baque de ter de se virar do zero. A opção pela arte é a anti-opção, é você escolher o caminho mais difícil e o mais assustador, e, talvez por isso, seja tão bom. É instável emocionalmente e financeiramente, tem muito preconceito, a gente é visto como vagabundo, mas, ao mesmo tempo, não dá para parar porque é uma coisa que você sente que deve fazer”, explica.

Guilherme de Bem – música

“A gente estava se preparando para o show e eu fui arrumar o equipamento, não tínhamos equipe, nem nada, e lembro que fui puxar o meu cabo do amplificador para o pedal e não foi, simplesmente porque era muito curto, não tinha como. Então, naquele misto de desespero e ansiedade, eu procurei alguém da técnica e pedi outro cabo emprestado. Ele parou e me olhou perguntando ‘mas você não trouxe o cabo?’, e eu respondi ‘não, não sabia que ia precisar’. Ele riu e me emprestou um. Foi nesse momento que eu percebi que, agora, a gente estava indo para uma coisa maior do que tudo que tínhamos vivido antes”, conta Guilherme.

O guitarrista da banda de rock Dona Cislene é outro representante da capital que, aos poucos, solidifica a carreira no meio artístico. Com apenas 27 anos, o músico relembra como foi a experiência de tocar no primeiro grande festival de música da carreira ainda em 2013, no Circuito Banco do Brasil, dividindo o line up com artistas do pedigree de Capital Inicial e Ivete Sangalo. Guilherme olha para a carreira musical de uma forma gentil e orgânica. Tocando desde os 12 anos, o caminho profissional cresceu naturalmente, assim como a banda formada com os amigos de escola, ainda no ensino médio. Entretanto, o brasiliense comenta que a entrada na música não foi tão simples e se posicionar como tal profissional fez parte do desafio do crescimento musical.

“A gente tomou muita porrada, de muita gente. 99% das pessoas que palpitavam na nossa carreira falavam que a gente não ia dar certo, mas a gente não se deixava abater”, comenta Guilherme. Sobreviver de música só foi possível a partir do momento em que veio a consciência de que a subjetividade artística precisa de um tratamento empresarial. “A gente sempre se apoiou muito nesse quesito. Claro que teve um apoio financeiro em algum momento, mas a gente só conseguiu se manter quando conseguimos nos focar nisso. Foi bem difícil, não é uma coisa fácil de você monetizar, ter cliente e render dinheiro é muito complicado”, diz.

O guitarrista também lembra de outro detalhe importante que pautou o início da carreira: o deslanche de fato só ocorre a partir do momento em que se é possível ver mais do que todos veem. “O que prevaleceu para a gente foi a esperança e a união, e o nosso intuito foi sempre ajudar as pessoas, foi sempre passar uma mensagem. A fama e o dinheiro é algo secundário, uma consequência, nunca um objetivo principal.

Gustavo Gris – dança

A experiência de se jogar em uma arte competitiva e que exige muito do corpo se apresentou  para o bailarino Gustavo Gris na adolescência, em 2006. Na época, ele fazia natação e não tinha coragem de fazer balé. Um amigo incentivou. Formado em artes cênicas pela UnB, hoje com 27 anos, o bailarino e instrutor de dança lembra, com riqueza de detalhes, do primeiro momento em que se abriu para a paixão do balé.  “Eu queria muito aquilo. Quando criança eu tinha o hábito de fazer essas cenas no quintal de casa e sempre tive o incentivo por parte da minha mãe”, conta.

O caminho de Gustavo na dança não foi fácil, mas também não foi um tormento. Com bolsa de estudos de um projeto de extensão da UnB (Universidade de Brasília), ele conseguiu se virar bem com R$ 350 mensais. Um dos pontos altos da carreira veio em 2011, quando conseguiu um estágio no conservatório de dança de Praga (República Checa ) após uma audição para o grupo de Seminário Internacional de Dança de Brasília.

Para Gustavo, os desafios que muitos interpretam como óbvios se mostram efêmeros perante a força da arte e a busca pela precisão técnica. “Minha maior dificuldade não tem a ver com preconceito ou falta de dinheiro”, diz. O maior desafio sempre foi técnico: “Minha caminhada não dependia da evolução dos outros, eu tinha que entender que o corpo que eu tenho para trabalhar é esse, e que ele é minha fonte de arte”.

Paulliny Tort - literatura

No Prêmio Oceanos de 2017, Paulliny Tort figurou como semifinalista. No Off Flip de 2018, a autora alcançou a posição de finalista e, no Prêmio Maximiano Campos de Literatura, ficou entres os 10 melhores contos de 2007. É seguro afirmar que o talento para as letras é forte na brasiliense de 39 anos. “Eu nunca parei e pensei em escrever. Sempre foi algo muito natural na minha existência. E não, eu nunca pensei em desistir porque eu escrevo muito naturalmente. A gente tem essa necessidade de criar, a vontade de escrever vai além dos problemas, é uma necessidade”, acredita.

O primeiro romance de Paulliny, que é formada em jornalismo pela UnB, foi Allegro ma non troppo, lançado em 2016. Foi um trabalho do qual ela tirou um ensinamento importante: “Uma coisa que aprendi com esse romance é que é fundamental para o escritor dessa geração conhecer seus pares”.

E para colocar o livro na livrarias, não existe segredo: é colocar o pé na rua e correr atrás. “O primeiro desafio é publicar, fazer o livro existir. Na verdade, eu corri atrás, todo autor faz isso, é de praxe, o autor apresenta e a editora decide se quer ou não. Enviei o meu original no final de 2015 e, três meses depois, recebi o retorno. É claro que a sensação é muito boa”.

Paulliny encara o lado profissional das letras como algo leve. Os desafios e obstáculos estão mais ligados a contextos pessoais. “Acho que uma coisa complexa de lidar é a autocritica, porque é paralisante, mas as oficinas de escrita criativa me ajudaram  nesse sentido”, garante.

Aos novos navegantes, Paulliny ensina: “Eu sei que édifícil não pensar na recepção do livro, mas acho que, quanto mais livre ele (o autor) estiver, melhor. É pensar naquilo que você conhece e não só reproduzir autores que você goste. É muito importante ter uma marca”.





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