LITERATURA Livro sobre 1968, um dos anos mais conturbados da história, será lançado nesta quinta-feira no Recife Organizada pelo jornalista e escritor Homero Fonseca, obra conta com depoimentos de pessoas que vivenciaram aquela época em Pernambuco

Por: Caio Ponciano

Publicado em: 13/12/2018 12:01 Atualizado em:

Estudantes presos no Congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo. Foto: Cepe/Divulgação
Estudantes presos no Congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo. Foto: Cepe/Divulgação

O ano de 1968 foi extremamente movimentado, dos pontos de vista político, cultural e social. Fatos como a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, o assassinato de Martin Luther King, os protestos contra a Guerra do Vietnã, o massacre de Tlatelolco e a greve mineira marcaram aquele período em vários países, incluindo o Brasil. “Parecia que o mundo todo estava pegando fogo”, diz o jornalista e escritor Homero Fonseca, que decidiu criar uma coletânea de ensaios sobre esse conturbado ano. Intitulado 1968: Abaixo as ditaduras, o livro será lançado nesta quinta-feira (13) pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), a partir das 19h, no Museu do Estado de Pernambuco (Avenida Rui Barbosa, 960, Graças). A data do lançamento não foi uma escolha aleatória. Foi em 13 de dezembro de 1968 que entrou em vigor, no Brasil, o Ato Institucional Nº 5 (AI-5), decreto emitido pela ditadura militar e marcado por diversas transformações sociais.

A chegada dos 50 anos daqueles eventos, os inúmeros livros que foram lançados e relançados e a produção de alguns documentários despertaram o interesse de Homero em abordar os acontecimentos de 1968, a partir de uma ótica local. “As motivações eram diferentes em cada parte. Europa, Estados Unidos, América Latina, África e Ásia, em nações capitalistas desenvolvidas, países subdesenvolvidos, países comunistas. Mas havia um elo comum: as manifestações em todo o mundo pediam liberdades. Política, comportamental, sexual, pessoal, com ênfase maior ou menor em algum desses aspectos, dependendo das circunstâncias locais e tiveram os jovens como protagonistas, embora outras categorias tenham se engajado. Também houve uma interação dialética, espontânea, entre esses movimentos diferentes”, explica o organizador da obra.

Nessa coletânea de ensaios, Homero foi responsável pela introdução, contextualizando os eventos, e contou com comentários e depoimentos de oito nomes de diferentes áreas de atuação, como a socióloga Ester Aguiar, o economista e sociólogo José Almino Alencar, a historiadora Socorro Ferraz, o artista plástico Raul Córdula Filho, o poeta e músico Lourival Holanda, o poeta, ficcionista e cineasta Fernando Monteiro, o jornalista e compositor Marco Polo e o diretor e crítico teatral Benjamim Santos.

“O primeiro critério foi ter testemunhado os acontecimentos. O segundo, tê-los vivenciado aqui em Pernambuco, nossa aldeia (como contraponto, há um depoimento de um pernambucano que estava no miolo das agitações em Paris). Terceiro, que cada um atuasse em áreas culturais e profissionais diferentes, para diferenciar as narrativas”, justifica as escolhas. No evento de lançamento, Homero fará uma apresentação do livro e Lourival Holanda falará em nome dos demais ensaístas. Já os coautores presentes estarão à disposição para assinar os exemplares dos leitores.

Serviço
Lançamento do livro 1968: Abaixo as ditaduras
Quando: quinta-feira (13), às 19h
Onde: Museu do Estado de Pernambuco (Av. Rui Barbosa, 960, Graças)

Entrevista // Homero Fonseca, jornalista e escritor

Como foi realizado o processo de construção do livro?
Definimos que seria um livro de ensaios. Isto significa um meio-termo entre um trabalho acadêmico e um texto jornalístico, com possibilidade de os autores se expressarem subjetivamente, se referirem à sua experiência pessoal daquela época, assim como apresentarem suas reflexões possibilitadas pelo distanciamento no tempo.

O que mais te marcou naquela época?
No Brasil, estávamos na primeira fase da ditadura de 1968 e a movimentação uniu estudantes, intelectuais, artistas, alguns políticos da oposição, ao mesmo tempo em que, nos campos, os canavieiros de Pernambuco, e nas zonas industriais de Contagem (MG) e Osasco (SP), os operários, fizeram greves históricas. Lutava-se por uma melhor qualidade de ensino, no caso dos estudantes, e melhores condições de trabalho, no caso de camponeses e operários. E tudo desembocou no combate à ditadura. Eu era estudante secundarista e, como a moçada politizada da época, fomos às ruas, engrossar os protestos. Havia medo e esperança no ar e parecia que a esperança estava vencendo, mas aí veio o Ato Institucional nº 5, o golpe dentro do golpe, a repressão tornou-se feroz e vieram as cassações de mandatos, as prisões, as torturas e mortes. Não à toa o livro está sendo lançado dia 13 de dezembro: foi a data fatídica da promulgação do AI-5.

Para uma parte da população estamos prestes a viver um retrocesso político. Como você avalia o nosso cenário atual?
A história não segue em linha reta, anda como um bêbado, em zigue-zagues. Ora avança, ora recua. No calor dos fatos em 1968, a esperança parecia estar vencendo, mas no curto prazo a repressão venceu. No longo prazo, entretanto, as sementes libertárias de 1960 frutificaram, colocando toda a agenda política, num sentido lato, um passo adiante. E junto com outros fatores, contribuíram para o fim das ditaduras de direita e esquerda mundo afora e para uma arejada no campo simbólico, onde se travam os embates pelas liberdades individuais e pelos direitos das minorias. Com Trump (EUA), Duterte (Filipinas), Viktor Orbán (Hungria) e tantos outros, a extrema-direita avança em todo mundo. O resultado das eleições passadas no Brasil se insere nessa onda, com todas as suas peculiaridades. Vivemos um retrocesso, sim, e é preciso tirar as lições possíveis do passado para que o futuro não sofra um adiamento ainda maior.


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