Leitura Biografia de Elza Soares relata tragédias, carreira e relacionamentos Escrito por Zeca Camargo, obra apresenta a perspectiva da própria cantora para os fatos

Por: Nahima Maciel - Correio Braziliense

Publicado em: 10/12/2018 16:03 Atualizado em:

Elza Soares fala sobre a morte de Juninho, filho dela com Garrincha, em um dos trechos mais tocantes do livro. Foto: Facebook/reprodução
Elza Soares fala sobre a morte de Juninho, filho dela com Garrincha, em um dos trechos mais tocantes do livro. Foto: Facebook/reprodução

Para Zeca Camargo, escrever Elza foi um luxo. Concebida após dezenas de horas de entrevistas com a cantora, a biografia chega às livrarias com um texto leve, escrito nos últimos 11 meses, após sessões de conversas iniciadas em julho de 2017. “É um luxo porque tenho uma biografia em que a biografada está aqui, disposta a falar, oferecendo suas memórias. E vem uma história oral. Já se escreveu muita coisa sobre a Elza, mas é a primeira vez que ela dá a versão dela. Mesmo quem conhece a biografia da Elza vai ter algumas surpresas no livro”, contou Camargo, em entrevista, quando passou por Brasília para participar da 4ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em outubro.

Elza Soares completou 88 anos em julho último, mas a memória é a mesma da menina de 13 que gostava de brincar com os garotos na rua e fingia dramas para comover passantes e ganhar um trocado. “Toda a memória dela é impressionante. Ela lembra de tudo”, garante Camargo. “Lembra de detalhes, da roupa que tava usando, o que alguém falou. Quando alguém faz uma biografia, geralmente, o problema é a memória. A pessoa não lembra muita coisa. No caso da Elza, ela lembra demais, a gente tem de selecionar.” Nas 384 páginas da biografia, é sempre a perspectiva da cantora que predomina.

Talvez esse detalhe seja o aspecto mais interessante do livro. A tragédia sempre fez parte da vida de Elza. Menina, foi obrigada pelo pai a casar-se aos 13 anos porque ele achou que uma briga com um menino havia resultado em estupro. Elza jura que nada aconteceu, a não ser a briga em si. Mas ela casou-se. Não se interessava por fazer sexo, mas fazia porque era obrigada. Perdeu dois filhos desse primeiro casamento e outro da união com Mané Garrincha. Sofreu com violência doméstica e, quando menina, se assustou quando ouviu de São Jorge, no que ela chama de aparição, que apanharia mais da vida do que do pai. Elza era criança traquina e levava surras quando aprontava na rua, onde gostava de passar tempo em companhia da meninada.

Leveza
Na fala da cantora, no entanto, a história toma outro peso. Combinada com a costura de Zeca Camargo, a fala de Elza tem uma certa leveza. Ela não se esquiva das passagens difíceis, mas como não é de sucumbir à dor, segue em frente. “O que é impressionante são as reviravoltas na vida dela. Não é que ela teve um alto e um baixo, ela teve vários altos e baixos e não desistiu. Ela  tinha quase 70 anos quando a carreira tava meio à deriva e ela falou: vou fazer o disco que eu quero. E fez A mulher do fim do mundo”, diz Camargo. É, nas palavras dele, uma vontade de viver muito grande que faz com que Elza navegue por ciclos difíceis sem deixar de produzir de forma brilhante. “Ela nunca foi acomodada. Isso é impressionante”, diz.

Segundo Camargo, Elza é uma pessoa muito zelosa, especialmente quando se trata da imagem da família. “Às vezes, tenho a sensação de que ela está fazendo quase um testamento para a família. Sobretudo, em momentos difíceis”, conta. Um dos momentos mais difíceis das conversas para o livro foi quando narrou a morte de Juninho, como chamava Manoel Francisco dos Santos Júnior, único filho que teve com Garrincha. O menino morreu aos 9 anos, em 1986, em um acidente de carro. “Ali, ela foi pro fundo do poço”, lembra Camargo.

Elza narra com detalhes muitos gráficos os obstáculos enfrentados e revela preferir o isolamento em momentos de crise. “E não tem família, amigo, empresário. Quando você fala ‘Elza sumiu, tem dois anos que não grava’, é porque estava em um momento de questionamento”, explica o autor. Elza usa uma metáfora relacionada ao próprio reflexo e diz que sumiu porque estava olhando no espelho até achar a Elza que ela conhece. “Essa vontade é muito impressionante. Quando alguém fala que tem dificuldade na vida, eu falo: ‘vou te contar uma história da Elza Soares’”, avisa Zeca Camargo.

Reinvenções
Os momentos tristes da biografia são tão marcantes quanto aqueles nos quais Elza Soares se reinventa. E são muitas essas reinvenções. Musicalmente, mas também como mulher. Logo após a morte de Juninho, ela passou a ser procurada pela geração do rock, que despontava na cena da música nacional. Gravou com Cazuza e Lobão. Branco Melo quis produzir um disco que nunca saiu. Mas foi em 2000 que passou por sua mais recente reinvenção. Apaixonou-se novamente, coisa que não acontecia desde o relacionamento com Garrincha, por um rapaz 47 anos mais novo. Anderson Lugão, 25, foi parceiro amoroso e musical. Ajudou Elza a produzir Do cóccix até o pescoço, uma espécie de renascimento no qual a cantora dá as mãos à cena que revitalizou a música brasileira.

Com Anderson, ela foi apresentada ao hip-hop carioca, à música eletrônica e deu novo rumo à própria música. “Depois de 50 anos de carreira, eu não queria mais fazer a mesma coisa. Eu não queria ficar reciclando o samba que eu já tinha explorado tão bem. Tinha que olhar pra frente, descobrir outras coisas, usar minha voz de outras maneiras. Eu estava buscando”, conta.

O casamento com Lugão acabou em 2008 e, no mesmo ano, Elza começou a namorar Bruno Lucide, 52 anos mais novo. Transgressão é quase um sobrenome para a artista. Às críticas, ela vira as costas. Ao amor, ela abre a porta. Não importa a idade. Essa última, aliás, sempre foi motivo de controvérsia na vida de Elza, devido a uma série de registros oficiais imprecisos. Mas pouco importa. É como ela explica ao final do livro: “Não tenho idade, Zeca, tenho tempo”.


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