orgulho de pernambuco Ousadia para o bem comum Um dos fundadores do Pró-Criança, prestes a completar 90 anos, mantém a missão de transformar vidas e é Orgulho de Pernambuco

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 01/12/2018 11:30 Atualizado em: 01/12/2018 15:19

Sebastião de Araújo Barreto Campello foi um dos agraciados no prêmio Orgulho de Pernambuco de 2018. Foto: Paulo Paiva/DP
Sebastião de Araújo Barreto Campello foi um dos agraciados no prêmio Orgulho de Pernambuco de 2018. Foto: Paulo Paiva/DP

Sebastião de Araújo Barreto Campello, 89 anos, entra sorridente na sala climatizada do Movimento Pró-Criança, situado no bairro pobre dos Coelhos, no Recife. Há 25 anos, ele preside, de perto, a instituição, hoje acomodada em um prédio antigo, cedido em comodato pela Arquidiocese de Olinda e Recife. As crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social surgem nos corredores. Podem ser reconhecidas pela farda característica do movimento.

Perto de completar nove décadas de vida, Sebastião parece ter chegado aonde sempre desejou estar. Queria encontrar um meio de promover o bem comum. Aliviar a miséria dos meninos e meninas negligenciados nas ruas. Sebastião decidiu impregnar-se de ousadia e, em pouco tempo, o Pró-Criança passou a ser instrumento de transformação.

Na última terça-feira, Sebastião foi agraciado com o Grande Prêmio Orgulho de Pernambuco, edição 2018, na categoria Cidadania, por conta de seu trabalho no Pró-Criança. A condecoração, promovida pelo Diario de Pernambuco, foi entregue durante solenidade no Gabinete Português de Leitura.

A ideia de garantir direitos a pessoas empobrecidas ganhou força em Sebastião na década de 1980, durante uma conversa com um estrangeiro em visita ao Recife. Naquele dia, os dois homens testemunharam quando um menino pediu esmolas no estabelecimento onde estavam, em Boa Viagem. Perceberam também a reação inesperada das pessoas em apoio à criança diante da recusa de um dos clientes em ajudá-la.

“Na época, o estrangeiro comentou que as pessoas não se importaram com a chegada do menino maltrapilho, de tão acostumadas que estavam com a pobreza, mas se incomodaram com a negativa de um homem em ajudá-lo. A partir dali, comecei a pensar em uma forma de tirar as crianças das ruas, acabar com aquela miséria escandalosa”, lembrou Sebastião.

O início dos trabalhos de resgate aconteceu na rua. Sebastião, um homem católico, uniu-se a outras pessoas para atingir seus objetivos. Como era um engenheiro mecânico e elétrico conhecido no país inteiro, ele conseguiu 18 mil dólares em equipamentos de alta precisão nos Estados Unidos e pensou em ofertar aos jovens em situação de rua um curso de introdução à elétrica. Depois disso, encaminharia a turma para uma estadia de um ano no setor de manutenção das empresas. “Com o tempo, descobri que muitos não tinham hábito de estudo e, no primeiro curso, apenas dois terminaram”, lamentou.

O interesse dos meninos e meninas em participar de algum tipo de aula começou a mudar com a chegada de uma voluntária interessada em promover um curso de teatro. “Esse foi um sucesso. Acho que mexia com a autoestima deles porque tinha palmas e matéria na imprensa”, brincou.

Viúvo, pai de cinco filhos, um deles falecido há três anos, Sebastião acredita que a dependência do crack está por trás do atual quadro de miséria nas ruas. Para ele, também falta ousadia para mudar a condição das pessoas empobrecidas. O engenheiro aposentado refere-se à mesma ousadia que lhe estimulou quando decidiu criar o Pró-Criança.

“Costumo ver senhores de 50, 60 anos sentados em bares, tomando cerveja. Penso que poderiam fazer algo útil e não fazem. Não falta dinheiro para as políticas públicas, mas o brasileiro é acomodado”, lamentou. O bem comum, continuou, precisa ser promovido não apenas pelo estado, mas pelas camadas intermediárias entre o estado e o homem.

Sebastião pode ter cometido falhas no caminho trilhado em busca de promover a melhoria de vida de pessoas excluídas. Mas a verdade é que não precisava ter transformado sua comoção em ação naquele dia, em Boa Viagem. Mas decidiu sair do lugar privilegiado onde estava. Assim faz até hoje. Isso transformou sua vida. E provavelmente a de muitos jovens. Trata-se de um multiplicador de cidadania.
 
Os talentos na música, dança e no artesanato
 
Calcula-se 30 mil pessoas beneficiadas com o Pró-Criança em 25 anos de história, incluindo a primeira sede na Rua do Giriquiti, na Boa Vista, ofertada, na época, por dom José Cardoso Sobrinho. Hoje o espaço oferece apoio psicossocial aos beneficiários e suas famílias, apoio pedagógico e preparação para o trabalho.

Ao todo, a instituição tem onze projetos nesse sentido. Neste domingo, por exemplo, acontece mais uma vez, no Marco Zero, a Cantata Natalina, apresentada por meninos e meninas do Pró-Criança e com participação de Elba Ramalho.

O Pró-Criança tem três unidades: Piedade, Coelhos e Recife Antigo. Além de formação em canto coral, a entidade oferece formação em artes e artesanato, orquestra, letramento, dança clássica e popular, judô e preparação para o trabalho.

Simpatizantes da causa podem contribuir pelas contas da Celpe ou Compesa; depositar na agência do Banco do Brasil 1833-3, conta corrente 18816-6 ou agência do Bradesco 0290-9, conta corrente 74151-5; pela internet, através da PagSeguro e PayPall; ou contribuição através do telemarketing, pelo fone: 81 3412.8989. Mais informações podem ser obtidas pelos sites www.movimentoprocrianca.org.br e na página do Facebook.


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