literatura Luis Fernando Veríssimo fala de Brasil em novo livro de crônicas Escritor publica livro com crônicas produzidas nos últimos anos: Brasil é tema constante

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 26/11/2018 11:01 Atualizado em:

Foto: Divulgação
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Luis Fernando Verissimo não gostaria de viver para sempre. Aos 82 anos, o cronista acha que a eternidade pode ser um fardo, embora alguns de seus personagens até gostem da ideia. Em Para sempre, uma das 77 crônicas de Ironias do tempo, novo livro do autor, o personagem até se esmera em manter o plano de não morrer. Tem a esperança de ser salvo por pesquisas com células-tronco, mas teme a bagunça no sistema previdenciário caso o fato se torne possível. Verissimo é assim, sempre pronto para reunir as angústias humanas, envoltas em boa dose de humor, em textos curtos, porém não rasos.

Há momentos muito saborosos em Ironias do tempo, que tem organização de Isabel e Adriana Falcão, mãe e filha fissuradas pela escrita do gaúcho. Como elas explicam, foi um processo de escolhas dolorosas, mas pautado, sobretudo, pelo fato de que Verissimo escreve a vida em tempo real. É “o tempo passando, entre 1998 e 2018”, que o leitor vai encontrar nessa coletânea. E ele pode se preparar para ficar estupefato diante de uma constatação muito bem acomodada nas crônicas: às vezes, não há muita diferença entre o passado e o presente.

Veja, por exemplo, Grampos, publicada em abril de 2001. Trata-se de um diálogo truncado entre um político e um suposto araponga. Lá pelas tantas, o araponga quer saber qual o assunto do homem com um tal de ministro. É quando se trava um diálogo bastante contemporâneo, sobre “negócios” vagos a serem resolvidos e superfaturamentos alocados aqui e ali. Em outra crônica, o narrador lamenta a ausência de rainhas loucas no mundo do século 21.

E, para não ficar entediado, inventa uma. Em um texto de 2018, Veríssimo se volta para o passado brasileiro, mas deixa ali subentendido que fala também dos dias de hoje. Enquanto todas as igrejas tocam os sinos para celebrar o esquartejamento de Tiradentes, hoje herói da Independência, uma única toca finados. O narrador repara o quão profética foi essa paróquia.

Quem outrora era traidor, virou herói nacional. Tudo depende da perspectiva. Nossa Senhora do Rosário, ensina o narrador, serviria como padroeira “de quem entende o momento que está vivendo ou destoa da maioria, com ou sem razão”. Ela ajuda a enfrentar “a maioria que badala o que não tem importância e o fato errado e menospreza qualquer batida diferente”. Fica a dica de Verissimo.

» ENTREVISTA  / Luis Fernando Verissimo

Há muitas crônicas com conversas entre personagens que não se entendem: o Papai Noel com o pai do Marcelo, o araponga com o cara que conversou com o ministro… Não nos entendemos mais? O diálogo entre os brasileiros está arruinado?
Gosto de contar uma história ou inventar uma situação só através de diálogos. O fato de serem diálogos entre personagens que não se entendem talvez seja um comentário sobre a dificuldade de comunicação hoje em dia, apesar de vivermos numa pretensa era da comunicação, mas a intenção não é esta.

Tem até uma distopiazinha catastrófica com a história dos teleboys. Você acha que estamos caminhando seriamente para um futuro duramente distópico?
Eu imagino um futuro em que só se verá nas ruas carros de polícia e motoboys, que entregarão tudo a domicílio, de pizzas a parceiros sexuais. Tudo para não precisarmos enfrentar a distopia lá fora.

“Naquela época, os espelhos não apenas distorciam o que refletiam como se desgastavam rapidamente, pois esperava-se muito mais deles”: o que deve ocorrer, na sua opinião, com os nossos espelhos diante das expectativas e perspectivas políticas para os próximos quatro anos? Precisamos de espelhos novos, enquanto povo, nação?
O Borges comparava os espelhos à paternidade, que também reproduzia pessoas. Ele era contra a multiplicação de gente. A minha bronca com espelhos é que eles refletem a minha cara todos os dias, sem nenhuma criatividade. No futuro será a mesma coisa. Só precisamos cuidar, como pessoas e como nação, para não fazer nada vergonhoso na sua frente.

Quem são as rainhas loucas da contemporaneidade?
Talvez as cantoras pop com seus shows extravagantes, que são delírios organizados e inofensivos. Não existe mais nenhuma Imelda Marcos, com seus 1001 sapatos. Há maldosos que dizem que a última rainha louca do mundo é o Trump.

O que o senhor acharia de viver para sempre?
O ruim de viver eternamente é que seríamos obrigados a decifrar o Universo. Morrer nos livra do compromisso.

“Mas se Lula vencer as próximas eleições o governo Éfe Agá também pode passar à História como o fim — pelo menos até ela ser restaurada, numa eleição futura — de outra era, muito maior do que a Era Vargas, já que tem a idade do Brasil: a Era Bragança”: estamos vendo, agora, o fim da história da política como a conhecíamos? Estamos mais próximos da era Bragança? Como ela seria, na sua imaginação?
A Era Bragança começou na época do império. E a insensibilidade social da classe dominante do último país do mundo a abolir a escravatura duraria até o começo de um governo empenhado em distribuir renda e corrigir privilégios, que seria o do Lula, mas infelizmente não deu. Voltou a Era Bragança como uma restauração.

“Nem Vargas nem qualquer outro pseudo ou pretenso populista na presidência escapou do molde da era, ou teve tempo para tentar escapar”: em que era estamos entrando?
A Era Vargas foi um soluço da Era Bragança, uma era de progresso social, manchada pela ditadura indefensável do Estado Novo. O que nos espera agora é um populismo de direita, com uma votação que o autoriza a fazer o que quiser. E os generais estão voltando.

Algumas de suas crônicas, escritas há mais de uma década, são extremamente atuais. A crônica tem esse poder?
O bom é a crônica ser intemporal, compreendida em qualquer tempo. Às vezes uma crônica factual recupera o sentido, mas porque o fato voltou a ser atual, ou há alguma coisa aproveitável num texto antigo.

No ano passado, o senhor foi demitido da RBS depois de 40 anos como colaborador. Também não faz mais as tirinhas. É notório que a imprensa, no mundo inteiro, está em crise. Qual o futuro da crônica nesse cenário? 
Deixei de ser empregado da RBS, mas continuo como colaborador da Zero Hora, que compra minha coluna da Agência Globo. Minha bola de cristal me disse que o futuro da crônica em jornal jornal, jornal que suja as mãos, está condenada. Joguei minha bola de cristal fora.

Pureza e virtude versus poder: é possível conciliar os dois? No momento atual, há pureza e virtude em algum lugar?
Talvez em algum convento no Himalaia.


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