Música Conheça o 47Soul, grupo de hip hop da Palestina que se apresenta no MIMO Olinda Com discursos críticos aos conflitos do Oriente Médio, banda aposta na fusão do hip hop com o dabke, um ritmo folclórico do Mediterrâneo

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 23/11/2018 09:46 Atualizado em: 23/11/2018 10:46

Banda é formada por Z the People (sintetizadores), El Far3i (darouka), Walaa Sbeit (percussão) e El Jehaz (guitarra). Foto: 47Soul/Divulgação
Banda é formada por Z the People (sintetizadores), El Far3i (darouka), Walaa Sbeit (percussão) e El Jehaz (guitarra). Foto: 47Soul/Divulgação

O grupo palestino 47Soul, que se apresenta no palco do MIMO Olinda neste sábado (24), às 22h30, é uma das provas de que hip hop é sinônimo de resistência em qualquer lugar do mundo. Se o gênero musical estadunidense nasceu para criticar os resquícios da escravidão que atingem a população negra, no Oriente Médio o ritmo se tornou uma ferramenta cultural contra regimes autoritários e conflitos da região. Com letras que misturam árabe e inglês, o quarteto reveza vocais para entoar discursos de liberdade contra disputas ocasionadas pelas ocupações judaicas no território palestino - fenômeno cada vez mais constante após o início do governo de Donald Trump nos EUA.
Formada há cinco anos por Z the People (sintetizadores), El Far3i (darouka), Walaa Sbeit (percussão) e El Jehaz (guitarra), a banda, que atualmente reside em Londres, é fruto de uma cena musical que tem emergido no Oriente Médio após a Primavera Árabe. As composições contra a opressão soam universais, despertando identificação de ouvintes mesmo de outros contextos culturais, sobretudo na Europa. O que mais chama a atenção do público, no entanto, é a musicalidade singular da banda.

O 47Soul se especializou no que eles chamam de shamstep: uma fusão do hip hop com o dabke, um ritmo do Mediterrâneo, resultando em uma interessante mistura de sintetizadores eletrônicos, guitarras e percussão árabe. A atmosfera sonora cosmopolita que conecta o folclórico ao contemporâneo tem conquistado as programações de vários festivais ao redor do mundo. No Mimo Olinda, eles se apresentam antes de Emicida, um dos principais rappers do país.

No palco, o público pernambucano conhecerá o repertório de Balfron promise (2018), disco de estreia da banda. O título é uma referência à Declaração de Balfour, documento de 1918 no qual a Inglaterra promete criar um estado judeu na Palestina. Também faz alusão à Torre de Balfron, edifício de Londres que costumava ser a residência do grupo até um despejo causado pela gentrificação do bairro Tower Hamlets. Ficam nítidas as principais intenções do projeto: lançar reflexões sobre a relação entre britânicos e árabes e o conflito israelo-palestino.

Entrevista El Far3i (Tareq Abu Kwaik), membro do 47Soul

Por que o nome 47Soul?
O estado de Israel foi criado em 1948, quando se delineou fronteiras e limitações na Palestina. Assim, 1947 foi o último ano em que as pessoas podiam andar livremente por lá. Era algo muito possível e disponível, então 47Soul é um nome antibarreiras que inspira nossa liberdade de movimento.

Entre tantas manifestações musicais árabes, por que decidiram apostar no dabke?
Dabke é uma dança folclórica praticada durante a primavera, a estação chuvosa e em casamentos na época da colheita. A musicalidade produzida pela mijiwiz, uma espécie de "flauta dupla". É um som bastante comum se você anda pelas ruas de países do Mediterrâneo, como Palestina, Síria, Jorão e Líbano. São sons que já conhecíamos. Pensamos em juntar isso com nossas influências contemporâneas, do dub ao hip hop, dando origem a um estilo bem diferente. Incluímos o dabke, mesmo que fugindo da forma tradicional, para que nos sentíssemos sempre em casa.

Como o grupo costuma abordar assuntos políticos nas músicas?
Em geral, nós falamos mais sobre liberdade, sonhos, retorno e união. Como somos de terras que vivem sofrendo ocupações, o trabalho acabou soando político na visão do Ocidente. Na verdade, é mais uma reflexão artística dos nossos pensamentos sobre liberdade. Não é nada diferentes dos pensamentos do nosso povo sobre essa libertação da opressão.

Atualmente, a banda vive em Londres. Como enxerga a atual situação da Palestina?
Ainda vai levar um tempo, mas as pessoas vão ficar mais informadas sobre o quão complicada é essa área do mundo. Existe uma ideia de que a Palestina é uma espécie de causa de conflitos ou guerras, mas isso é uma ilusão. É simplesmente uma ocupação que está gerando dinheiro por conta dos conflitos. É assim que enxergo.

Jair Bolsonaro, presidente eleito do Brasil, disse que pretende transferir a embaixada do Brasil na Palestina para Israel. O grupo tem membros palestinos. Como enxergam essa atitude?
Para ser simples, não estamos interessados nessa guerra diplomática de forma alguma. Isso só está prolongando a opressão do povo. Jerusalém é uma cidade árabe com raízes muçulmanas, cristãs e judaicas desde antes da ocupação de 1948. É a natureza da terra, isso é o que a história nos diz. Qualquer decisão de apoiar a Lei Judaica é uma decisão racista que insulta uma das cidades mais diversas do mundo.

Já conhecem o Brasil?
Ainda não conhecemos o país, mas amamos a cultura brasileira e temos muitos amigos daí. Na verdade, conseguimos até fazer algumas conexões entre nossa música e a música brasileira. Estamos muito ansiosos para tocar para os brasileiros e não podemos esperar para conhecer essa terra.



Serviço
Mimo Festival
Quando: nesta sexta-feira (a partir das 19h), sábado (19h) e domingo (17h)
Onde: Praça do Carmo, Igreja da Sé e Convento de São Francisco, em Olinda
Quanto: Gratuito


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