Patrimônio Calunguinha: o mascote mais amado do carnaval de Olinda Muitos acreditam que o boneco é a versão infantil do Homem da Meia-Noite, mas isso não é verdade. Conheça a história

Por: Samuel Calado - Redes Sociais

Publicado em: 16/11/2018 19:01 Atualizado em: 16/11/2018 20:36

Ele é a alegria, a coragem e força diante de uma realidade onde %u201Cimportado%u201D é  visto como "mais valorizado". Foto: Camila Pifano/Esp.DP
Ele é a alegria, a coragem e força diante de uma realidade onde %u201Cimportado%u201D é visto como "mais valorizado". Foto: Camila Pifano/Esp.DP

O Homem da Meia-Noite você já conhece. O boneco imponente que desfila há 87 anos pelas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda na madrugada entre o sábado de Zé Pereira e o domingo de carnaval. O calunga encantando da cultura pernambucana que com sua elegância mistérios emociona os foliões. Mas, e o Calunguinha, já ouviu falar? 

Muitos acreditam que o mascote é a versão infantil do Homem da Meia-Noite, contudo isso não é verdade. Segundo o Diretor Social, Thales de Siqueira, 25, a história do boneco é recheada de amor pela cultura pernambucana e tem ligação direta com as crianças.

À esquerda, Tácio Botelho (Ex-presidente do Homem da Meia-Noite) segurando neto, Thales. Na foto à direita está o atual presidente Luiz Adolpho, pai de Thales.  Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo
À esquerda, Tácio Botelho (Ex-presidente do Homem da Meia-Noite) segurando neto, Thales. Na foto à direita está o atual presidente Luiz Adolpho, pai de Thales. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo

O neto do ex-presidente Tácio Botelho (falecido em novembro de 2001) e filho do atual presidente Luiz Adolpho, relata que quando ele era criança, na noite da saída do Homem da Meia-Noite, a sua mãe, dona Marcia de Siqueira, o fantasiava de Calunga para deixar o avô feliz. Naquele tempo, não era comum ver um garoto com a fantasia de um brinquedo da cultura popular. Os pequenos da época preferiam personagens estrangeiros como Homem de Ferro, Homem-Aranha e outros. 

Thales e Márcia de Siqueira. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo
Thales e Márcia de Siqueira. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo

Thales conta que em 1999, quando tinha apenas 6 anos, participou de um concurso de fantasias na escola onde estudava, localizada no Sítio Histórico. “A professora pediu que os alunos viessem com uma fantasia que representasse um super-herói. Eu fui vestido de Homem da Meia-Noite e fui alvo de bullying. Os colegas de classe começaram a me caçoar dizendo ‘Olha lá o Homem da Meia-Noite!’,  como se isso me machucasse. O que eu acho interessante é que eu só vim perceber que estavam abusando pelo tom das vozes, pois, enquanto para eles a representação do Calunga era sinônimo de vergonha, para mim, isso simbolizava orgulho. Ficaram surpreendidos quando venci o concurso”, relata. 

Thales ao lado do Palhaço Chocolate e do Calunguinha. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo
Thales ao lado do Palhaço Chocolate e do Calunguinha. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo

Mesmo ganhando o prêmio, Thales ficou com essa lembrança guardada na memória até hoje. Estar vestido com a roupa de um brinquedo cultural tão importante é motivo de vergonha? Com o passar do tempo, o número de crianças que se fantasiavam de Homem da Meia-Noite foi crescendo na mesma intensidade dos pedidos para que o gigante participasse das festividades infantis. Foi através dessa necessidade que ele teve a ideia de criar o Calunguinha, não para ser uma versão mirim do Gigante, mas para homenagear  as crianças que se fantasiam de dele para brincar o carnaval e vestem a camisa da cultura popular. .

Desenho produzido pelo artista Airton Cardim. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo
Desenho produzido pelo artista Airton Cardim. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo

Mas para iniciar a confecção do boneco era necessária a autorização do presidente do clube. “Conversei com o meu pai, Luiz Adolpho e ele aprovou. Em seguida, fui falar com o meu tio, Sílvio Botelho, que adorou a ideia e pediu uma arte para iniciar a confecção”. Mas, quem iria desenhar o projeto? Em agosto de 2016, o artista Airton Cardin apresentou a arte do mascote e no mês seguinte ele já estava sendo produzido no atelier do Pai dos Bonecos Gigantes. A confecção durou cerca de dois meses e em 19 de novembro de 2016, o Calunguinha ganhou vida. 

O mascote  surgiu como como forma de resistência, amor e homenagem aos pequenos brincantes. Ele é a alegria, a coragem e força diante de uma realidade onde o que é importado é visto como "mais valorizado". É a semente de uma nova geração de foliões pernambucanos que valorizam o frevo no pé e a história dos gigantes culturais como acrescenta o diretor social: “Ele não só encanta as crianças, mas os adultos também. O principal objetivo é fortalecer o patrimônio cultural do nosso país”, ressalta o diretor social.  

Calunguinha arrastando uma multidão no carnaval olindense. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo
Calunguinha arrastando uma multidão no carnaval olindense. Foto: Homem da Meia-Noite/Arquivo

Assim como o Gigante mais amado do Brasil, o Calunguinha possui um envolvimento direto com as questões sociais. Ambos unem carnaval, alegria, frevo e solidariedade em um só espaço com diversas ações para além do carnaval. No mês de outubro deste ano, eles foram até o Hospital de Câncer de Pernambuco, em Santo Amaro, na área central do Recife, para realizar uma ação de altercuidado. O bloco produziu uma linha de camisas especiais para o Outubro Rosa (campanha sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama). O lucro das vendas foi destinado para ajudar a instituição no tratamento dos pacientes. Neste sábado (17), haverá a celebração dos dois anos do mascote. O ingresso social será doado ao Centro de Reabilitação de Valorização da Criança (CERVAC), do Morro da Conceição, na Zona Norte do Recife. 



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