TV Documentário da GloboNews faz panorama da música brega em Pernambuco Produzido por Wanessa Andrade, o filme tem entrevistas com artistas, produtores musicais, empresários, estilistas e inúmeros personagens que compõem a cena cultural do brega

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 10/11/2018 13:01 Atualizado em: 10/11/2018 16:03

Elvis, Michelle Melo e Troinha são alguns dos personagens principais. Foto: GloboNews/Reprodução
Elvis, Michelle Melo e Troinha são alguns dos personagens principais. Foto: GloboNews/Reprodução


A projeção nacional alcançada pelo brega pernambucano nos últimos tempos ganha mais um episódio com o documentário Capital do Brega, da GloboNews. Produzido pela jornalista Wanessa Andrade com edição de Renata Baldi, o projeto surge com a proposta de contar a história do ritmo local e revelar como funciona sua cadeia produtiva no estado. A obra vai ao ar em todo o país na emissora por assinatura neste sábado (10), às 15h30 - 16h30 no horário de Brasília. Simultaneamente, ficará disponível na plataforma de streaming Globo Play, enquanto a exibição na Globo Nordeste de sinal aberto fica para o dia 28 de novembro.

Durante os 51 minutos do filme, são exibidas inúmeras entrevistas com artistas de referência do movimento, a exemplo de Michelle Melo, Kelvins Duran, MC Loma e as Gêmeas Lacração, MC Troia, MC Elvis e Faringes da Paixão, além de produtores musicais como Danny Bala, empresários, estilistas e inúmeros personagens que compõem uma cena cultural que vai além de música e é responsável arquitetar um movimento "entrelaçado na vida das pessoas, especialmente nas periferias", como observa a própria Wanessa, em entrevista ao Viver.

A ideia de produzir o documentário partiu da jornalista, que inscreveu a proposta em um concurso interno da GloboNews. “Fiquei surpresa quando o projeto foi selecionado. Poderiam considerar um tema muito regional, mas talvez esse tenha sido o charme da proposta. Embora para os pernambucanos seja algo comum, o documentário mostra todo um movimento que grande parte do Brasil ainda não conhece”, explica a repórter.

Com uma narrativa um tanto didática para capturar o público de fora de Pernambuco, Capital do Brega começa fazendo uma ode ao brega clássico dos anos 1970/1980, centrado na figura de Reginaldo Rossi - que faleceu em 2013. Para isso, conta com a ajuda de imagens de arquivo de shows Rei do Brega e falas dos integrantes da The Rossi, banda que até hoje segue apostando no repertório de Reginaldo.

O projeto também tem a proposta de contar a história do ritmo local. Foto: Divulgação
O projeto também tem a proposta de contar a história do ritmo local. Foto: Divulgação


Outro personagem que serve de “fio condutor” para a narrativa da obra é o professor de Comunicação da UFPE e pesquisador do brega Thiago Soares, autor do livro Ninguém é perfeito e a vida é assim - A música brega em Pernambuco (Outros Críticos, 2017), indicado ao Prêmio Jabuti 2018 na categoria de Economia Criativa. "Ele foi o primeiro entrevistado. Eu já tinha conhecimento do brega por vivência, mas eu precisava de um conteúdo acadêmico e ele é a referência. Conversamos muito a partir daí tive um panorama, um norte”, diz Andrade.

A partir do que Soares chama de “eixos estético-temáticos”, o documentário passa a desvelar os outras fases do brega ao longo das décadas. O segundo momento, nos anos 2000, é a “entrada” da mulher no ritmo, um movimento protagonizado por nomes como Michelle Melo - a cantora, inclusive, tem bastante destaque no roteiro e protagoniza falas emocionantes. O terceiro momento é o da “funkização” do brega, tendo como referências os MCs Troinha, Elvis e MC Loma, que viralizou na internet e conseguiu construir carreira fora do estado.

MC Loma, que viralizou na internet e conseguiu construir carreira fora do estado. Foto: GloboNews/Reprodução
MC Loma, que viralizou na internet e conseguiu construir carreira fora do estado. Foto: GloboNews/Reprodução


Além das celebridades locais, o filme revela os rostos de nomes “conhecidos” por consumidores do brega, mas que trabalham apenas bastidores. É o caso de Ítalo Monteiro, criador da produtora de clipes PRO REC, e Thiago Gravações, dono do principal canal de brega do YouTube - quase como um KondZilla pernambucano. “O que mais me surpreendeu é como tudo isso é algo muito maior do que apenas a música. Em cada personagem vemos histórias de vida, tem muito a ver com sentimento. O brega sustenta famílias, indo do DJ das festas até seguranças e ambulantes. Participar dessa rotina me deu essa visão. Estou muito feliz com o resultado, acho que conseguimos dar um retrato amplo”, conclui Wanessa.

Capital do Brega acaba por ser mais um componente na onda de reflexão acadêmica, jornalística e artística sobre ritmo, ao lado do livro de Thiago Soares e a peça teatral Ritmo Kente, de Eric Ferreira, Hyrlis Leuthier e Amanda Clélia. O interesse da Rede Globo vem como uma legitimação de que o brega como um fenômeno cultural de destaque em Pernambuco, mesmo que que ignorado por muitos. Cristaliza um cenário que começa a mudar após a aprovação da Lei nº 16.044/2017, responsável por classificar o ritmo como expressão artística genuinamente pernambucana, ao lado frevo, maracatu, coco, ciranda e cavalo marinho.


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