música Patrimônios da música brasileira, Toquinho e Demônios da Garoa se apresentam juntos no Teatro Guararapes Turnê De Vinicius a Adoniran revisita as obras desses dois compositores brasileiros

Por: Caio Ponciano

Publicado em: 09/11/2018 08:16 Atualizado em:

Toquinho comemora mais de 50 anos de carreira. Foto: Luis Seyssel/Divulgação
Toquinho comemora mais de 50 anos de carreira. Foto: Luis Seyssel/Divulgação

Acostumado a compartilhar o palco com ícones da música popular brasileira, o veterano Toquinho chega hoje a Pernambuco para mais um show em parceria. Desta vez, ele se apresenta acompanhado pelo grupo Demônios da Garoa, com a turnê De Vinicius a Adoniran, que - como o nome já diz - revisita as obras desses dois compositores brasileiros. O espetáculo será realizado nesta sexta-feira (09), a partir das 21h30, no Teatro Guararapes, em Olinda. O preço dos ingressos varia de R$ 72 a R$ 204 e estão à venda na bilheteria do teatro, nas lojas Ticketfolia e através do site Eventim. 

Com pouco mais de 50 anos de carreira, Toquinho afirma que os Demônios da Garoa provocam em cada apresentação um entusiasmo singular na plateia. “Eles são patrimônio da música brasileira. Há uma ligação natural com todos que fazem música popular. O que, por si só, já convida a trabalhar com eles”, diz o músico, sobre o grupo de samba que está em atividade desde os anos 1940. Neste espetáculo, que estreou em agosto, a dinâmica melódica é construída pelo bom humor e pela longa amizade que une os artistas. 

Demônios da Garoa agradam desde os mais antigos, aos mais novos fãs. Foto: Divulgação
Demônios da Garoa agradam desde os mais antigos, aos mais novos fãs. Foto: Divulgação

“Nos apresentamos separadamente, depois fazemos uma música na intersecção das atrações e no final fazemos mais dois ou três números juntos, interpretando canções que o público aprendeu a gostar e a cantar junto”, explica Toquinho, que também vai apresentar os sucessos Tarde em Itapuã, Regra três, Testamento, Que maravilha e Aquarela. Já no repertório dos Demônios da Garoa, estão garantidas as canções Trem das onzeSamba do ArnestoIracemaTiro ao Álvaro e Samba da garoa

Parceiro de Vinícius de Moraes, Toquinho avalia a obra do artista como universal e que, ao transferir a poesia para a música, um dos criadores da Bossa Nova enriqueceu o cenário musical brasileiro. “Desfrutamos dessa criatividade, aprendendo com ela, tanto por sua forma quanto por seu conteúdo. E eu sou um dos maiores privilegiados, pois tive a chance de trabalhar com ele, conviver com suas emoções e acrescentar à minha vida os ensinamentos que me fizeram progredir, tanto pessoal quanto profissionalmente”, afirma.

Serviço
Toquinho e Demônios da Garoa em De Vinicius a Adoniran
Quando: hoje, às 21h30
Onde: Teatro Guararapes - Centro de Convenções de Pernambuco (Av. Prof. Andrade Bezerra, s/n - Salgadinho, Olinda)
Quanto: Plateia Especial: R$ 204 e R$ 102 (meia); Plateia: R$ 164 e R$ 82 (meia); Balcão: R$ 144 e R$ 72 (meia)
Informações: (81) 3182.8020

Foto: Marcos Hermes/Divulgação
Foto: Marcos Hermes/Divulgação
Entrevista - Toquinho // cantor e compositor 

Como era a sua relação com Vinícius de Moraes? 
Trabalhar com Vinicius fez aumentar a confiança em mim mesmo, pois passei a ter como parceiro, não um letrista comum, mas Vinicius de Moraes, um ícone da Bossa Nova, o grande poeta, que já tinha sido parceiro de grandes músicos como Tom Jobim, Carlos Lyra e Baden Powell. Eu entrava também nessa galeria privilegiada da música popular brasileira. Antes de trabalhar com Vinicius, eu já fazia uma música simples, harmoniosa, agradável ao ouvido. Quando comecei a compor com ele, essa característica se acentuou, porque Vinicius não tinha medo do "lugar-comum". Ele tinha um ouvido interno muito aguçado. Muitas vezes, eu improvisando no violão, e ele me alertava: "Toco, tem uma melodia aí que você acaba de passar por ela". Então, eu recuperava o acorde e saía outra canção. Cada palavra tem um som que se ajusta à melodia. Vinicius era mestre nisso. Usar a palavra exata para cada acorde. Aprendi a valorizar esse detalhe tão importante na composição final. Afora outras facetas ligadas à música, como comandar um espetáculo, a escolha do repertório, a dinâmica de um show, o tratamento com as pessoas, tudo isso foi sendo incorporado por mim durante a parceria com Vinicius e aprimorado na sequência de minha carreira. 

Você está na estrada com três diferentes turnês. O que elas têm em comum? 
Prevalece o meu estilo de palco, intimista e transparente, trazendo a plateia para perto de meu violão. Dependendo dos compartilhamentos, os shows mudam suas características. E isso é muito bom porque reforça a dinâmica da música popular brasileira, tão vasta e desigual, mas sempre produtiva. 

Uma dessas turnês foi lançada em DVD e comemora seus 50 anos de carreira. Existe nostalgia neste trabalho? 
Não há nostalgia. Cada dia nos abre uma nova perspectiva de vida e de criatividade. Perdura a sensação de uma constante renovação e de um contínuo aprimoramento. Cada ano robustece o seguinte e as décadas se diluem na descoberta de técnicas novas e na extensão do vigor ampliado pelas conquistas e pelos sucessos. O tempo não apaga o que nos arde na alma. Essa longa trajetória só pode ser alcançada com muita dedicação. Eu me considero um artesão, sempre apoiado no violão que representa o início e o desenvolvimento de tudo. E a música será sempre uma chama a aquecer minha dedicação ao instrumento. Além disso, sou privilegiado por ter trabalhado com parceiros que sempre valorizaram minhas composições. Estudo todos os dias a procura de novos acordes e harmonias. Amo fazer o que faço, o palco é a extensão de minha casa. Nele, sou simples e íntimo da plateia. Penso muito na música Para viver um grande amor, que diz: "Eu não ando só / só ando em boa companhia / com meu violão / minha canção e a poesia." A cada show, comemoro minha formação musical, que me possibilitou esse desenvolvimento. O resto, a vida se incumbiu de mostrar-me valores e caminhos que eu soube aproveitar usando meu talento maior: o de instrumentista. Portanto, há uma comemoração a cada acorde novo, a cada subida nos palcos, a cada disco gravado, a cada aplauso do público que se renova por muitas gerações.

Na música A tonga da mironga do kabuletê, presente neste DVD, você fala com indignação da política do nosso país. Como você avalia o cenário político atual do Brasil, recém-saído de uma eleição presidencial?
Esta canção contesta uma época muito diferente da de hoje. As instituições no Brasil felizmente funcionam bem. Essas eleições confirmaram um projeto democrático de renovação do poder. A mudança trazida pela Operação Lava Jato trouxe esperança de enorme mudança nos costumes e muita polarização nas propostas políticas. Não houve grandes avanços na política eleitoral como era de se esperar. Tudo indica que os futuros governantes contribuirão para o fortalecimento da democracia, mesmo porque o povo tornou-se muito mais consciente de suas necessidades e de sua força transformadora. Há uma atmosfera progressista, a qual o povo ansiava respirar. E tudo indica que respirará.

Recentemente, você declarou que "o Brasil está pobre de um movimento musical". O que você quis dizer com esta frase?
A música brasileira é dinâmica, os talentos surgem, se renovam, sempre acontecerão. Mas em relação à minha geração, que permanecerá na história, a geração atual carece daquela essência que marca a consistência necessária para manter uma atividade que supere a normalidade e ao comum. É uma geração efêmera em sua própria natureza.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.