Cinema O medo que vem das telas também marca artistas O Halloween coloca no centro do debate o terror, gênero muito explorado pela indústria cinematográfica

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 30/10/2018 10:01 Atualizado em:

Brinquedo assassino: quase uma unanimidade entre várias gerações. Foto: United Artists/Divulgação. Foto: Reprodução da Internet
Brinquedo assassino: quase uma unanimidade entre várias gerações. Foto: United Artists/Divulgação. Foto: Reprodução da Internet

“O terror sempre teve muita crítica social e pode refletir muito, fala sobre temas atuais e, mesmo assim, você tem a oportunidade de colocar um véu de fantasia, com histórias variadas. É um gênero que vai além do sangue e violência, que, às vezes, as pessoas rotulam”. A frase do produtor e diretor Armando Fonseca sintetiza o poder do gênero pelas palavras de um profissional que trabalha com o terror e a fantasia há quase 10 anos. 

Ainda sobre a realização diária de uma produção de terror, Fonseca também explica o quanto é desafiador a construção de um filme do gênero: “O terror te requer muito mais preparação, não é só pensar, chegar e fazer. Você precisa ter uma ideia do que vai ocorrer antes de começar qualquer cena, existem muito mais desafios técnicos, não é só fazer uma cena de um tiroteio, é ter de colocar a mangueira de sangue, de treinar os movimentos, é estar muito preparado para fazer uma cena perfeita, sem muitas chances de repetição”.

E é claro, nada do gênero seria possível sem um número fundamental na equação: o público. Sobre esta vertente, Fonseca explica que a conexão com as pessoas é o principal trunfo das produções e que trabalhar com tal preceito é fundamental para os filmes: “As pessoas querem aquilo que as movem, o gênero de terror tem de ser muito fiel, porque eles te prendem dentro daquele universo, é uma aproximação muito maior, as pessoas também conseguem ter identificação. Por mais que seja tenso, as pessoas criam uma ligação muito forte com a história. O terror é entretenimento, é diversão, mas também faz a pessoa se sentir viva. O susto acorda a pessoa, a coloca em alerta, isso é importante, traz prazer”.

Eles também têm medo
Artistas da capital falam como é, e foi, a relação deles com o terror. Entre o pessoal da música, literatura e teatro, fica claro o quanto o gênero fez parte da infância deles de uma forma mais influenciada pelos amigos e parentes, e pautada não só pelo medo, mas também pela diversão.

Gaivota Naves
Uma das integrantes do grupo Joe Silhueta, Gaivota Naves foi outra que entrou em contato com o terror com o clássico Chuck. “Minhas primeiras memórias são com o Boneco assassino na TV aberta, e eu ficava apavorada e ficava dias sem dormir”, relembra. Por outro lado, os sustos parecem não ter assombrado a artista, que ainda hoje entra em contato com os filmes de terror, só que fora dos estúdios hollywoodianos: “Com o tempo eu fiquei mais próximo de uns filmes lado B, com os filmes de Dario Argento, esses terrores mais estéticos. Agora não me atrai muito o terror hollywoodiano, porque trabalha muito a coisa do pânico psicológico, e isso já está dentro do cotidiano, nos jornais, e eu gosto mais do terror artístico.”

Ada Luana
A atriz Ada Luana faz sucesso no teatro e relembra que os primeiros contatos com o gênero de terror eram restritos aos mais populares: “Eu nunca foi muito ligada aos filmes de terror, mas gostava de ver aqueles mais badalados, tipo Brinquedo assassino, que foi um dos primeiros, mas não vou negar que tinha um pouco de medo. Mais velha, eu lembro que O sexto sentido foi outro que me marcou muito, não é exatamente de terror, mas o suspense chegava perto do medo”. 

Atualmente, Ada argumenta que a aproximação dos filmes de terror estão limitadas a alguns aspectos estratégicos: “Olha, vou ser sincera, atualmente não é o gênero que eu mais curto, acho que depende muito dos aspectos que vão além do gênero. Por exemplo, se tiver um diretor que eu goste muito, ou equipe que seja bacana, daí eu fico mais inclinada em ver”. Sobre a evolução do gênero, Ada defende que as produções estão mais próximas de reciclagem do que de uma linha ascendente: “Eu não saberia dizer se o tema realmente vive uma repaginação, mas pelo que eu vejo é mais cíclico”.

Bárbara Morais
Na ponta da literatura, a personagem ouvida é a escritora Bárbara Morais. Responsável pela trilogia Anômalos — uma distopia que envolve conflitos sociais e superpoderes —, Bárbara relembra os primeiros contatos com o terror de uma forma não tão assustadora, mas divertida: “Acho que o primeiro que eu me lembro de ter visto foi Brinquedo assassino, que passava na TV aberta, mas uma coisa que me marcou realmente em relação a isso na minha infância era que na minha quadra, na 215 Norte, a gente combinava com as outras crianças de ver filmes e sempre tinha um filme de terror, era coisa mais trash, mas a gente se divertia muito”.

Atualmente, Bárbara está promovendo o lançamento do Aqui quem fala é da terra, uma coletânea de contos de halloween sobre alienígenas, e defende que o gênero é uma verdadeira dose de adrenalina: “Acho que as pessoas gostam de sentir medo, mas, ao mesmo tempo, se sentirem seguras. Você tem a sensação, mas em um ambiente controlado, é como andar de montanha-russa, você tem o medo, mas sabe que está seguro”.

Gustavo Bertoni
O vocalista da banda Scalene lembra com bons olhos o sentimento de medo relacionado às produções de terror. Eventualmente, ganharam contornos de afeição e diversão com o aumento da idade. “Eu lembro de ter visto o Fantasia 2000 e tinha uma parte fantástica com os dinossauros. E eu lembro que era assustador a ponto de ter realmente me marcado. Mas eu era ainda muito jovem, nem lembro a idade”, explica o músico:,“Naturalmente com o tempo isso mudou, até o ponto em que se reunia o pessoal mais adolescente já com a intuição de sentir medo, era divertido”. 

E se nas telonas o medo pode ser controlado, fora delas a regra é mais pesada. Ao ser questionado sobre o que lhe dá medo no cotidiano, Bertoni é assertivo: “Essa é uma boa pergunta, acho que tem um medo físico e gera. Eu tenho medo de pensar pra onde a humanidade está andando, é, de fato, uma coisa que me assusta mesmo. A falta de empatia, a falta de permissão é uma coisa que me dá medo, especialmente no momento em que a gente está agora, é muito fácil ver isso”.

João Campos
Para o ator, as primeiras lembranças sobre o contato com o terror são bem detalhadas e Campos ainda acrescenta o quanto tal contexto significou uma maior convivência social com a família e amigos: “Eu tenho uma memória muito forte do filme de terror na infância, especialmente porque tem aquele negócio do susto, que marca muito. Acho que o Boneco assassino foi o que mais me marcou. Juntava os primos, e eu era o mais novo, ali na década de 1980 e 1990 o filme era muito popular, e eles (os primos) eram mais pré- adolescentes, curtiam muito esses desafios, mas eu tinha só os meus seis anos. Nisso a gente via essas produções com Chuck, ou Sexta-feira 13, e eu via com eles porque queria estar sempre envolvido com a turma. Entretanto, morria de medo”. 

Mas não se engane, o terror não ficou só na memória de Campos, pelo contrário. Atualmente, o ator lida com o medo na profissão, afinal, filmes de terror também fazem parte do currículo. Neste ano, Campos brilhou no protagonismo de Para minha gata Mieze, um dos concorrentes no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. “Conforme fui ficando adulto, o gênero não me atraiu tanto, e como ator eu não conheci uma escola sobre o gênero.



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