premiação Escândalo sexual inviabiliza Nobel de Literatura em 2018 O francês Jean-Claude Arnault foi sentenciado, nesta segunda, a dois anos de prisão por estupro

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 02/10/2018 14:16 Atualizado em: 02/10/2018 14:21

Jean-Claude Arnault foi acusado por 18 mulheres de abuso sexual. Foto: Arquivo/AFP Photo
Jean-Claude Arnault foi acusado por 18 mulheres de abuso sexual. Foto: Arquivo/AFP Photo

A entrega dos prêmios Nobel de 2018 começou nesta segunda-feira (1/) com as distinções científicas, sem a de literatura, adiada até o ano que vem, devido ao escândalo de abuso sexual ligado à Academia Sueca. A instituição, que recebeu várias críticas por premiar o cantor americano Bob Dylan em 2016, anunciou, no início de maio, que o prêmio de literatura de 2018 será entregue junto com o de 2019.

A origem do escândalo é o francês Jean-Claude Arnault, acusado de estupro e agressão sexual por, pelo menos, 18 mulheres, em novembro de 2017. A acusação ocorreu semanas depois das denúncias contra o produtor de cinema americano Harvey Weinstein. A amplitude das denúncias acabou impulsionando internacionalmente o movimento #MeToo.

A maioria das investigações preliminares sobre Arnault foi abandonada por falta de provas, ou porque os crimes prescreveram, mas a Justiça sueca julgou um caso de estupro que remonta a 2011. Ele foi sentenciado a dois anos de prisão nesta segunda, mesmo dia da entrega do Nobel de Medicina.

Casado com uma integrante da Academia Sueca, Arnault é suspeito de ter assediado acadêmicas e mulheres ou filhas de acadêmicos. Uma investigação independente, feita a pedido da Academia após o escândalo, revelou os conflitos de interesse, a cultura do silêncio, as rivalidades internas e a opacidade que imperam na instituição.

A polêmica provocou a renúncia de oito dos 18 membros da instituição, que ficou sem o quórum de 12 pessoas, necessário para funcionar. O escândalo foi "desastroso para a reputação" da Academia, lamenta Madelaine Levy, crítica literária do jornal Svenska Dagbladet. "É uma velha instituição – criada em 1786 – que deveria ter sido reformada há tempos", diz ela.

A HIPÓTESE COREANA 

Nesta segunda (1) foi entregue o Nobel de Medicina e, agora, serão entregues o de Física, hoje (2); o de Química, na quarta (3); o da paz, na sexta (5); e o de Economia, no dia 8 de outubro. Na falta da premiação de Literatura, o Nobel da Paz, o único a ser anunciado e entregue em Oslo, concentrará todas as atenções. Não existe uma lista oficial de candidatos. Sabe-se apenas seu número: foram 329 indicações este ano. Entre os nomes que circulam está o do presidente americano, Donald Trump, por sua cúpula com o dirigente norte-coreano, Kim Jong-un.

Segundo o diretor do Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (Sipri), Dan Smith, recompensar Trump seria "inoportuno", após sua retirada de acordos multilaterais sobre o clima e o Irã. Poderia, então, o prêmio ser concedido ao presidente sul-coreano, Moon Jae-in, artífice de uma grande aproximação com a Coreia do Norte?

Seria "prematuro", opina Dan Smith, que recorda as desilusões sofridas após a entrega do Nobel da Paz a seu predecessor, Kim Dae-jung, em 2000.

Entre os demais nomes potencialmente na disputa estão o célebre cirurgião congolês Denis Mukwege e a yazidi Nadia Murad. Ambos lutam contra a violência sexual. Dois organismos das Nações Unidas, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), também estão entre os favoritos, assim como o blogueiro saudita Raif Badawi e associações de defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos na Rússia.

O Nobel foi atribuído 585 vezes para 923 ganhadores, indivíduos ou organizações, entre 1901 e 2017. Um terço dos vencedores nasceu nos EUA. Dos vencedores, 6 rejeitaram o prêmio: Jean-Paul Sartre (literatura,1964) e Lê Duc Tho (Paz, 1973) o fizeram voluntariamente. Os outros quatro foram obrigados por ditaduras como a Alemanha nazista e a União Soviética.

Em 49 vezes o prêmio não foi atribuído, sendo que o da paz foi declarado deserto em 19 ocasiões, a última em 1972. As deliberações dos jurados permanecem secretas durante 50 anos. Entre as mulheres, 48 venceram o Nobel, entre elas Marie Curie, que levou o prêmio duas vezes (Física, em 1903, e Química, em 1911). O de Economia, que foi atribuído a somente uma mulher, e o de Física, com duas ganhadoras, são os mais fechados para elas.



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